Coimbra, 23 de Maio de 2013
Excelentíssima Senhora Presidente da Assembleia da República, Excelentíssimos Senhores Líderes das Bancadas Parlamentares
PARTE III
(CONCLUSÃO)
Esta última é a situação presente que podemos ligar à modificação do dilema visto ou apresentado em O Perfume de Mulher. Uma Europa é a pobre, a dos países periféricos, submetidos a todas as chantagens, a outra Europa é a rica, a dos países do Norte, que deixam de ser incomodados quando aceitam não colidir com os mercados, como acontece no filme com o menino rico a não denunciar o colega. Sublinhe-se que o facto de não denunciar de modo cooperativo corresponde aqui no nosso exemplo das duas Europas a não aceitar nem os constrangimentos dos mercados nem os defeitos da actual arquitectura institucional da UE.
Esta é a situação não cooperativa da Alemanha a que me referi acima. Acresce ainda para nosso drama maior que os do Sul vivem entusiasmados em se abrigar nos mercados à espera que estes os protejam, eventualmente convencidos que estarão a salvar o país, sendo certo que o estão a afundar. Esta é a leitura de Krugman que chama à crise europeia o resultado de uma Grande Ilusão, enquanto a mesma crise na América é vista por ele como sendo a grande mentira, como se a direita cá e lá fossem diferentes, como se o pensamento económico, como se o modelo teórico aplicado não fosse o mesmo. Engano de Krugman mas com este engano se percebe então que ele tenha almoçado com Passos Coelho e que tenha vindo a Portugal trazido pela mão de Braga de Macedo! E é aqui que o texto aqui apresentado é importante, importante porque critica o modelo de pensamento económico dominante, em Portugal assumido por uma Troika de menores com Cavaco Silva, economista de profissão, com Passos Coelho e com Gaspar que se engana todas as vezes que apresenta projecções e importante porque critica aqueles que com alterações de pormenor conservam o mesmo modelo, a que o autor chama assim a teoria económica à Leopardo, o Leopardo de Lampedusa e de Visconti.
Não envio o presente texto quer aos membros do Executivo quer ao Prof. Doutor Cavaco Silva economista de profissão e escriba dos discursos lidos pelo Presidente da República pela simples razão de que este tomou no dia 25 de Abril como seu governo o governo que o texto implacavelmente reduz à mais insignificante das insignificâncias. Estes nem na categoria de Leopardos entram. Por isso seria gratuito o envio, como absurdo seria pedir a pessoas nada inteligentes que lessem um texto magistralmente inteligente, o texto de Thomas Palley. Ao contrário, na categoria de gente inteligente e como exemplo puro do que aqui se entende por teoria económica à Leopardo e a finalizar temos, por exemplo, Olivier Blanchard como noutro local assinalámos:
Olivier Blanchard é claramente mais inteligente que Kenneth Rogoff e mostra-o à evidência nesse documento que parecia ser de mea-culpa perante o mundo assinado por ele em Janeiro de 2013. Depois de nos dizer:
Iremos demonstrar que, nas economias desenvolvidas, uma consolidação orçamental mais forte evolui a par com um valor mais baixo do crescimento do que era esperado. Uma explicação natural é que os multiplicadores orçamentais são significativamente mais elevados do que as previsões implicitamente estimavam.
Em muitos documentos, muitos deles publicados pelo FMI, sugerem que os multiplicadores orçamentais utilizados nas estimativas estarão situados em torno de 0,5. Os nossos resultados indicam que estes multiplicadores, na verdade, estão situados no intervalo entre 0,9 e 1,7.
Seria de esperar uma inversão de políticas, mas nada disso aconteceu.
E compreende-se, Olivier Blanchard dá ele próprio a justificação para que assim possa ser, para que nada seja necessário mudar, a lembrar bem Lampedusa e o seu Leopardo, a lembrar Visconti e o seu Burt Lancaster, quando Blanchard afirma em forma de conclusão:
Finally, it is worth emphasizing that deciding on the appropriate stance of fiscal policy requires much more than an assessment regarding the size of short-term fiscal multipliers.
Thus, our results should not be construed as arguing for any specific fiscal policy stance in any specific country. In particular, the results do not imply that fiscal consolidation is undesirable. Virtually all advanced economies face the challenge of fiscal adjustment in response to elevated government debt levels and future pressures on public finances from demographic change. The short-term effects of fiscal policy on economic activity are only one of the many factors that need to be considered in determining the appropriate pace of fiscal consolidation for any single country.
Deixamos o texto no original. E tudo dito. Ora, igual destino parecem ter as teses de Rogoff que nos últimos anos têm sido consideradas como um dos pilares intelectuais para a aplicação das políticas de austeridade. Erradas, pura e simplesmente, mas também, como declara o presidente do Bundesbank, a austeridade está para ficar e pelo menos por mais 10 anos e sem abrandar. É nesta mesma linha da austeridade que se situa também o economista Cavaco Silva que não tem nada, mas nada mesmo, da inteligência das duas figuras acima citadas e que com o discurso preparado para o seu presidente, com o mesmo nome e a mesma linha partidária, está ainda na pré-história do conhecimento moderno da economia e das crises, com uma pobreza de argumentação que incomoda, a argumentação dos anos de 1930, a de que é preciso limpar a casa, arrumá-la, empobrecer e depois viver melhor. A versão que Passos Coelho afirmou foi a de que temos de empobrecer para encontrar depois o caminho para o crescimento e depois, se não for pecado, para podermos enriquecer. Descobrimos agora que o economista Aníbal Cavaco Silva só sabe dizer ao Presidente as mesmas palavras, repetindo-se sucessivamente, não dizendo de modo coerente absolutamente nada, a não ser disparar tiros para todas as direcções. É certo que os problemas são os mesmos de há décadas, apenas muito mais agravados, é certo também que o mundo mudou muito, e as duas coisas juntas exigem novos discursos, não as mesmas palavras, novas ferramentas intelectuais, uma nova visão do mundo e nada disso é hoje característica do intelectualmente muito pobre economista que dá pelo nome de Aníbal Cavaco Silva e que, azar nosso, escreve os discursos para o nosso presidente.
Envio porém este texto aos deputados, aos nossos eleitos, tenham eles uma consciência apurada ou não do que é a economia como ciência. Se eleitos pelos partidos de direita, aqui está pois um texto que os porá perante um duro problema de consciência, para aqueles que ainda a têm, para as gentes do PS fará relembrar o que foi a política de mistificação de quem assinou o memorando e de quem ainda agora defende o respeito pelo programa da Troika ou ainda de quem assinou as reformas estruturais que amarram os estados da UE às forças do mercado, para as gentes mais à esquerda a confirmação das teses por eles defendidas. E a todos eles desejo pois uma boa leitura do texto de Thomas Palley.
