O escritor moçambicano Mia Couto, Prémio Camões 2013, tem ao longo dos últimos anos produzido declarações sobre o Acordo Ortográfico. Não são declarações que se contradigam, embora seja evidente alguma mudança no sentido de aceitar as modificações, persistindo a nota dominante – não vai mudar a sua maneira de escrever. Tendo-lhe sido apontada alguma ambiguidade, alguma relutância em se afirmar a favor ou contra a aprovação do Acordo, disse: “Tenho posição ambígua porque acho que houve quem estudou o assunto e sabe mais que eu. Houve linguistas que estiveram anos trabalhando sobre isso”, disse em Julho de 2009 a jornalistas, a propósito da nova grafia do português na Comunidade de Países de Língua Portuguesa». (…) “Provavelmente, há algumas áreas em que nós saímos todos beneficiados, como por exemplo, na área do livro escolar, da aprendizagem da língua. O facto de os manuais angolanos, moçambicanos e cabo-verdianos poderem ser feitos no Brasil ou Portugal, indiferentemente. Isso, se calhar, essas são questões práticas que pesam”, afirmou.
E ainda em 2009 e a jornalistas brasileiros, no Rio de Janeiro, foi da opinião que antes da unificação da grafia da língua portuguesa nos países africanos que falam oficialmente o português é preciso discutir questões do âmbito social e político, defende o escritor moçambicano Mia Couto, para quem a reforma ortográfica não faz sentido. “Não tenho uma posição militante em relação a isso, não dou essa importância. Reconheço que pode haver algumas razões para se fazer uma reforma ortográfica. Eu sou crítico ao discurso que foi feito para justificar o acordo para ficarmos mais próximos, para nos entendermos melhor, isso é mesmo mentira”, disse. Os falantes da língua portuguesa já se entendem, “é mentira que tenhamos nos afastado do ponto de vista cultural do conhecimento” (…) “Muitas vezes se argumenta que este acordo é necessário porque os nossos países (CPLP) viviam distantes e agora a nova ortografia comum vai aproximar-nos. Acho que isto é uma mentira”, afirmou. Para o escritor, a distância entre os países deve-se ao facto de existirem “razões de diferentes políticas, da falta de vontade de criar uma proximidade e apostas geoestratégicas diferentes”. (…) “O Brasil tem aquele universo da América Latina, tem a sua posição no mundo, Portugal tem outra, os africanos têm outra, estas são as grandes razões (..), mas vou ter que me ajustar” às novas regras da língua portuguesa, disse.
Em 2011, questionado sobre como encara o novo Acordo Ortográfico, Mia Couto assegurou que irá ajustar-se à convenção, até porque não é “um militante contra o acordo”, embora se distancie da “falsificação das razões” apresentadas para introdução do pacto.”Do ponto de vista literário, não acho necessário, acho dispensável, terei dificuldades em escrever da maneira nova e acho que grande parte dos argumentos que foram feitos a favor do acordo são argumentos falsos”, disse o escritor moçambicano.
Porém, apesar destas reservas, Mia Couto, em 2012, foi da opinião que Governo moçambicano “fez bem” ao ratificar Acordo Ortográfico, pois “o país não podia ficar uma ilha e à margem” da nova situação gerada pelo tratado. Lembrando que nunca foi “muito adepto” das alterações introduzidas pela nova ortografia, o escritor considerou que o acordo não traz mudanças substantivas, mas cosméticas e formais.”Não mudará a minha escrita, porque são mudanças cosméticas e formais”, enfatizou Mia Couto. Ainda assim, o escritor lamentou o facto de os países africanos terem tido pouco peso na formulação do novo Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa, acabando este por ser resultado da pressão do Brasil e Portugal, os países que “mais livros produzem na língua portuguesa”.