“CAPÍTULO DAS MEMÓRIAS DE UM ADOLESCENTE CARIOCA, EM 1948 – QUASE UM CONTO”, por SÍLVIO CASTRO

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                Na nossa turma estudava também Fausto. Desde logo ele se revelou como um caráter de tipo particular, diverso de todos. Com o passar dos anos seus gestos e maneiras ganharam em refinamento que logo fazia com que sua fisionomia de adolescente se sobressaísse entre os seus companheiros de Colégio. Ao lado dos gestos e maneiras requintadas, Fausto crescia em beleza física. Cada ano que passava ele se fazia mais bonito. Um rosto oval, de pele rosada e puríssima, dava-lhe um tom de distinção particular. Seus cabelos eram castanhos e anelados, sempre penteados com cuidados, e caiam por sobre a testa, criando uma sombra nos seus olhos claros. Ele era esbelto e elegante. Somete umas formas salientes nos flancos provocavam uma diversa atenção sobre aquela beleza física equilibrada e distinta. Cedos os colegas começaram a perseguí-lo, em modo particular Artur, sempre debochado e prepotente. Fausto não reagia jamais e sofria a perseguição dos companheiros molestos.

                Em Fausto existia alguma coisa de muito especial. A escola lhe interessava relativamente. Não se realçava jamais nos estudos, mas sempre alcançava as notas necessárias a uma carreira escolástica tranquila. Nas aulas ele parecia sempre sonhar. Seus olhos estavam constantemente ausentes. Não acompanhavam as lições. Somente quando o assédio de Artur lhe dava particular fastídio, então procurava escapar, pedindo ao professor para mudar de banco. Sua voz se alteava, interrompendo a aula: “Irmão, posso  sentar no banco da frente?“ Pedia, mas não dizia porque desejava mudar de lugar. “Vai, Fausta, me deixa…“ A voz de Artur acompanhava o movimento de Fausto.

                Fausto tocava muito bem o piano. Em todas as festas do Colégio ele era encarregado da música. Eu gostava de ouví-lo nos “Sonetos de Petrarca”, de Lizt. Ao piano Fausto se transformava. Isolava-se completamente. E seu belo rosto parecia que ganhasse em amadurecimento, enquanto executava Lizt. Depois, com os aplausos, aquele sorriso dúbio, que cada ano se fazia mais falso, tomava-lhe a boca, olhos. Então se podia ver em Fausto alguma coisa de doentio. Como uma máscara. O sorriso não era um sorriso. Parecia mais um esgar vindo do fundo daquele ser e que pouco tivesse a que ver com ele.

                Muitas vezes, na hora do recreio, para escapar às provocações dos companheiros, Fausto se refugiava no autitório do Colégio e se sentava ao piano. Tocava sempre Lizt. De tanto escutá-lo me apeguei muitíssimo à beleza do “Soneto 35“. Logo me esforcei em conhecer a poesia. A musicalidade daqueles versos se completava de maneira admirável com os sons que Fausto recolhia do piano. Quando ele tocava o Soneto 35, minha memória percorria lentamente o poema de Petrarca

                        Solo e pensoso i piú deserti campi

                        vo mesurando a passi tardi e lenti,

                        e gli occhi porto per fuggire intenti

                        ove vestigio umano l’arena stampi.

                        Altro schermo non trovo che mi scampi

                        dal manifesto accorger de le genti,

                        perché negli atti d’allegrezza spenti

                        di fuor si legge com’io dentro avampi:

                        sí ch’io mi credo omai che monti e piagge

                        e fiume e selve sappian di che tempre

                        sia la mia vita, ch’è celata altrui.

                        Ma pur si sempre vie né sí selvagge

                        cercar non so ch’Amor non venga sempre

                        ragionando con meco, e io co lui.

                Os deboches de Artur para com Fausto aumentaram com o tempo. Muitas vezes as nossas aulas eram interrompidas com um grito agudo, quase ridente, de Fausto. A turma caia na risada, já sabendo o que acontecera.

                Era uma sexta-feira. Já então cursávamos o quanto-ano ginasial. A lição de história transcorria normalmente, quando um grito nervoso de Fausto interrompeu a explicação do professor. Fausto se agitava na carteira, levantava-se, procurava alguma coisa. Ele se virava para trás onde estava Artur e procurava recolher alguma coisa que o outro escondia. O professor gritou uma ordem e Artur, com um riso cínico, expôs à turma uma caixa de rouge, um batom vermelho e um espelhinho. Fausto já não se rebelava. Artur expunha as coisas triunfalmente e a turma caia numa algazarra inédita. Com dificuldades o Irmão conseguiu recompor a ordem. Fausto estava sentado na sua carteira e olhava fixamente aquela risada coletiva. No seu rosto não existia nem surpresa, nem medo. Indiferença era o que mostrava o rosto de Fausto.

                Acalmada a turma, o Irmão expulsou Fausto da sala de aula. Lentamente ele recolheu suas coisas. Sem violência, tomou os objeto da mão de Artur que continuava a rir. Fausto colocou tudo na pasta e caminhou para a porta da sala. Na caminhada, sentindo-se olhado por todos, seu corpo vascilou um pouco. Depois, caminhando para a saída, de costas para a turma, seus flancos harmoniosos balançaram num movimento quase impudico.

                Na hora do recreio vi um grupo de estudantes em círculo no jardim. Do grupo vinha um intenso reboliço. Não havia sequer um Irmão pelas proximidades do grupo. Quando me aproximei vi que, no meio do círculo, Artur obrigava Fausto a tirar o paletó da farda. Depois, com um gesto violento, puxou-lhe a camisa para fora da calça. “Agora enrola a camisa, deixando a barriga e o umbigo de fora!“ Fausto tremia, mas não reagia. Depois Artur pegou na caixa de rouge e ordenou a Fausto que se pintasse. Fausto queria negar-se. Mas Artur gritou-lhe ferozmente uma ameaça. Fausto começou a cobrir o rosto de rouge. “Mais, mais!“ Ele se pintava com arte, mas sua mão tremia. Seus olhos se enchiam de lágrimas. “Mais rouge. Eu te quero cheia de cores, Fausta!“ Fausto acabou de pintar-se. Seu rosto parecia que ria, enquanto os olhos lacrimavam. “Agora, o batom!“ Fausto, chorando, se negava. Artur pegou-lhe pelo braço e agitou-o. Ao redor, mais de trinta estudantes incentivavam Artur. “Pinte a boca, como faz Rita Hayword. Você não é mais Fausto. Agora se chama Gilda. Vamos, pinte-se, Gilda!!“ Fausto, as lágrimas que já empastavam o rouge do rosto, tentava evitar e escapar à prepotência, tentava evitar e escapar à prepotência de Artur. Um golpe mais violento no pulso preso, jogou Fausto, de joelhos, por terra. “Vamos, Gilda, pinte-se!”

                “Basta!” Todos me olharam surpreendidos. Levantei Fausto do chão e com uma raiva que eu não me conhecia, fixei Artur nos olhos. Artur era mais forte do que eu. Mas senti uma violência que me queimava o rosto e me fazia vermelho. “Levante-se, vista o paletó e vai embora.“ Fausto me olhava e olhava Artur. Quase enfurecido, louco, eu lhe gritei de novo de sair dali. Fausto me olhou, recolheu a farda e correu para o auditório. Por um instante tudo foi um silêncio. Depois, Artur, ofendido e sorrindo, me disse: “você ficou maluco?“ E não respondi. Olhava-o, apenas, nos olhos, ameaçador, sem nada dizer. Artur, murmurando, chegou-se aos amigos lentamente, sempre rindo sem jeito. E, olhando para mim, se afastou.

                Uma grande serenidadde me fez caminhar pelo recreio, sozinho, entre árvores e flores. Eu me sentia ainda preso de um ódio distante. Era um sentimento inteiramente desconhecido para mim. Nunca me passara uma reação como aquela.  Eu sentira um grande desejo de destruir Artur. De espancá-lo sem cessar, até que o visse destruído. Senti em mim a capacidade e o desejo da destruiçõa. Da morte. Foi um momento terrível, novo e revelador. Quando entrei na fila da turma, para o retorno às aulas, um tremor ainda pulsava em mim por todo o corpo. Lentamente o tremor foi desaparecendo. Até que, já sentado na minha carteira, ao  lado de Bruno, sosseguei definitivamente.

                Dois dias depois Fausto se aproximou de mim na saída e timidamente me convidou para ir aquela tarde à sua casa, para tomar um chá com doces. Dizia que contara às suas tias o que acontecera e que essas llhe disseram de convidar-me. Eu não sabia o que responder. O convite me surpreendia e me deixava sem jeito sobre o que dizer. “Você virá?“ Fausto olhava para mim timidamente. Seus olhos eram límpidos e ansiosos. Aceitei o convite.

                De tarde, quando cheguei na casa de Fausto, ele me recebeu alvoroçado. Logo que entrei, vieram a meu encontro duas mulheres magras, pequeninas. “Minhas tias, Marcelo.“ Eram duas senhoras insignificantes, com grandes óculos de míopes. Iam  e vinham como dois animais tontos. Falavam sempre ao mesmo tempo, e sempre de Faustinho. Fausto escutava e me sorria, constrangido.

                Serviram o chá e os doces. Conversamos muito, até que as tias se levantaram e foram para o interior da casa. Que era grande e rica, mas que liberava um odor insuportável de coisas mortas. Os móveis eram antigos.  Quadros velhos emolduravam as paredes do grande salão. Um piano-de-coda tomava todo um ângulo. “Minha tia Cota me ensinou a tocar piano. Eu fiquei órfão que ainda não tinha um ano. Meus pais morreram num desastre de automóvel. Então minhas tias me tomaram e com elas cresci. Veja esses retratos. Essa menina sou eu. Eu tinha então três anos. Minhas tias tinham a mania de vestir-me de menina. Meus cabelos eram compridos e louros. Depois se fizeram castanhos. Cresci sozinho com minhas tias. Saia somente com elas e não conhecia ninguém. Aprendi a fazer tudo que uma menina aprende. Tricô, crochet, bordados. Quando comecei a frequentar a escola primária, então mudei um pouco minha maneira de vestir-me. Mas minha vida não mudou mais. Gosto de trabalhar nas coisas de casa com minhas tias. E de tarde tocar um pouco de piano. No Colégio já não consigo estar. São já dois anos que descobriram o meu segredo e me perseguem. Eu quero manter uma conduta particular no Colégio, sem escândalos. Mas é muito difícil. Porque  são muitos a perseguir-me. Eu tenho quase dezessete anos e quero viver a minha vida. Tenho um amigo. Você sempre me pareceu diferente dos outros. Depois do que você fez no outro dia, hoje eu posso contar-lhe essas coisas. Porque acredito que você não me despreza. Tenho um amigo. Ele tem vinte anos. Eu quero acabar o curso, porque combinamos que viveremos juntos para sempre.  Porém a minha vida é difícil, porque todos me ofendem e eu tenho de viver só. Com o meu amigo poderei ser feliz.“

                Logo que pude deixei a casa de Fausto. Saí para a rua como que para livrar-me de um pesadelo. Eu não sabia o que pensar de tudo aquilo. Compreendia que tudo podia ser assim, mas ao mesmo tempo Fausto e a sua vida me davam uma incontida sensação de mal-estar.

                Nos dias seguintes Fausto voltou ao Colégio. Timidamente me cumprimentava. Porém não mudou a sua maneira de comportar-se comigo. Como antes, era um jovem tímido e distante. Por alguns dias, todos os outros o ignoraram.

                A partir de um dia Fausto começou a faltar às lições. Depois desapareceu completamente, sem acabar o ano.

 

                   

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