Selecção e tradução por Júlio Marques Mota
A teoria e o modelo de política económica do Leopardo de Lampedusa e de Visconti: A crise e a resposta dada pelo pensamento económico dominante para a mudança de modo a que tudo se mantenha na mesma.
Thomas I. Palley
Parte I
O Leopardo constitui a mudança para que tudo fique na mesma. O Leopardo é relevante para se compreender a resposta dada pelos economistas de profissão para o crash financeiro de 2008. Este artigo explora o quadro de acção do Leopardo na economia e como este quadro se aplica às questões macroeconómicas da distribuição de rendimento, aos desequilíbrios financeiros globais e à política contra a inflação. A teoria económica à Leopardo, digamos assim, adopta as ideias desenvolvidas pelos críticos ao pensamento económico dominante, mas fá-lo de uma forma que ignora o sentido da crítica original e assim mantém a análise dominante inalterada. A teoria económica à Leopardo torna as mudanças muito mais difíceis porque engana as pessoas e leva-as a pensar que a mudança já ocorreu. Disfarçando a inexistência de qualquer mudança elimina-se assim o espaço para as verdadeiras e necessárias mudanças. Isto faz com que a exposição sobre o funcionamento da economia, de acordo com a lógica do Leopardo, seja então uma questão de importância vital.
1. Introdução
O Leopardo é um filme arrebatador, baseado no romance de Giuseppe Tomasi di Lampedusa, acerca dos tumultos sociais e sobre o conflito de classes na Sicília nos anos de 1860. Dirigido por Luchino Visconti e tendo como cabeça de cartaz Burt Lancaster, o filme segue o Príncipe de Salina, que procura manter a ordem social existente e estabelecida pela aristocracia face a uma burguesia em ascensão. À medida que a crise cresce, Tancredi, o astuto sobrinho do príncipe, especula que as coisas devem mudar, se quisermos que permaneçam na mesma. E assim se faz. Depois da revolução, a velha aristocracia permanece no comando, aliada pelo casamento com a nova elite urbana.
O conceito de teoria económica à Leopardo é directamente relevante para a compreensão da resposta da profissão dos economistas desde a crise financeira de 2008. A resposta tem sido a aplicação da teoria económica à Leopardo, que é a mudança que mantém tudo na mesma.
Este artigo analisa a teoria económica à Leopardo e como esta se aplica às questões macroeconómicas da repartição do rendimento, aos desequilíbrios financeiros globais, ao seu papel na fermentação da crise e à política de inflação também. A teoria económica à Leopardo assume na sua base as ideias desenvolvidas pelos críticos da economia dominante mas fá-lo de uma forma tal que ignora completamente o sentido da crítica original que esteve na sua base e deixa a análise dominante inalterada.
A teoria económica à Leopardo torna a mudança muito mais difícil porque engana as pessoas ao levá-las a pensar que a mudança já se realizou. Disfarçando a inexistência de qualquer mudança elimina-se assim o espaço para as verdadeiras e necessárias mudanças. Isto faz com que a exposição sobre o funcionamento da economia, de acordo com a lógica do pensamento à Leopardo, seja então uma questão de importância vital[1].
2. A análise estruturalista keynesiana da crise
A teoria económica à Leopardo funciona, incorporando as ideias dos seus críticos – especialmente dos keynesianos – no pensamento económico dominante. No entanto, isto é feito de uma maneira em que retira às ideias o seu conteúdo crítico. Além disso, quase nunca reconhece a paternidade crítica dessas mesmas ideias.
Para ilustrar como esta prática tem sido aplicada desde a eclosão da crise financeira em 2008, comecemos por um breve detalhar da minha própria análise estruturalista de matriz keynesiana (Palley, 2008, 2009, 2012a) da crise financeira, da Grande Recessão e da Grande Estagnação. Esta análise tem claras semelhanças com outras análises desenvolvidas por outros economistas keynesianos e heterodoxos (ver, por exemplo, Foster e Magdoff, 2009; Duménil e Lévy, 2011).
A análise estruturalista de matriz keynesiana sustenta que a causa da crise foram as políticas económicas erradas que estão enraizadas no paradigma económico neoliberal que tem guiado o pensamento económico desde há trinta anos. As origens profundas da crise encontram-se na mudança de paradigma económico que ocorreu no final dos anos 1970 e no início de 1980.
De 1945 a 1975 a economia dos EUA foi caracterizada por um modelo de crescimento keynesiano de tipo “círculo virtuoso” assente no quadro do pleno emprego e na evolução dos salários ligados estes ao crescimento da produtividade. Este modelo é ilustrado na Figura 1. A lógica é a de que o crescimento da produtividade leva ao crescimento dos salários que, por sua vez, levam ao crescimento da procura e esta leva ao crescimento da produção e assim se atinge o pleno emprego. Este conjunto de relações proporcionou um incentivo ao investimento o que, por seu lado, levou ainda a um maior crescimento da produtividade. Este modelo funcionou nos Estados Unidos e, de uma forma ou de outra, funcionou em toda a economia mundial – Europa, Canadá, Japão, Austrália, México, Brasil e Argentina.
Depois de 1980, o modelo keynesiano de crescimento económico do tipo em círculo virtuoso foi substituído por um modelo neoliberal de crescimento. Com esta substituição houve duas mudanças-chave. Em primeiro lugar, os responsáveis políticos abandonaram o compromisso de pleno emprego e substituíram-no pela sua concentração no objectivo das metas de baixa inflação. Em segundo lugar, a política ajudou as grandes empresas a alterarem a ligação existente entre salários e crescimento da produtividade. Estas mudanças criaram um novo modelo económico (Palley, 2005).
(continua)
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[1] Expor a teoria económica à Leopardo também é uma tarefa extremamente difícil, porque a crítica intelectual e a exposição podem-se facilmente confundir como sendo um ataque pessoal.

