POESIA AO AMANHECER – 211 – por Manuel Simões

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JOSÉ RÉGIO

(1901 – 1969)

ROMANCE DE VILA DO CONDE

(fragmento)

Vila do Conde, espraiada

Entre pinhais, rio e mar…

– Lembra-me Vila do Conde,

Já me ponho a suspirar.

Vento norte, ai vento norte,

Ventinho da beira-mar,

Vento de Vila do Conde,

Que é minha terra natal!,

Nenhum remédio me vale

Se me não vens cá buscar,

Vento norte, ai vento norte,

Que em sonhos sinto assoprar…

Bom cheirinho dos pinheiros,

A que não sei outro igual,

Do pinheiral de Mindelo,

Que é um belo pinheiral

Que em Azurara começa

E ao Porto vai acabar…,

Se me não vens cá buscar,

Nenhum remédio me vale!

(…)

Não quero, e nada mais lembro,

Nada me pode agradar,

Nada alcança distrair-me,

Nada me vem consolar,

Nenhum remédio me vale,

Nenhum me pode salvar,

Nenhum mitiga este mal

Que eu gosto de exacerbar,

Morro em pecado mortal,

Sem me querer confessar…,

Se me não levam depressa,

Que estou sem nenhum vagar,

A tomar ar! o meu ar

Da minha terra natal!

Vila do Conde, espraiada

Entre pinhais, rio e mar…

(de “Fado”).

Um dos fundadores da revista “Presença” (1927-1940) e seu grande animador como ensaísta e crítico. Foi igualmente dramaturgo e ficcionista. Dos seus livros de poesia destacam-se: “Poemas de Deus e do Diabo” (1925), “Biografia” (1929), “As Encruzilhadas de Deus” (1936), “Fado” (1941), “A Chaga do Lado” (1954) e “Cântico Suspenso” (1968). São conhecidos alguns poemas de grande impacto como, por exemplo, “Fado Português”, “Toada de Portalegre” ou “Cântico Negro”.

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