Fui à Aula Magna na passada quinta-feira, obviamente. As esquerdas partidárias e extra-partidárias unidas em torno de “Libertar Portugal da austeridade”, não podiam deixar de contar com a minha adesão e curiosidade. Mas estive com as reservas que já aqui tenho expressado, porque quero ter a certeza de que a libertação desta austeridade não significa o lançamento nas malhas de outra qualquer austeridade, com o sentido que hoje tem para todos nós e que poderá só ser diferente da actual porque ainda não lhe conhecemos o ferrete. E porque a experiência nos tem demonstrado e alguns observadores puseram em destaque, que a esquerda não tem dificuldade em juntar-se contra, mas revela incontornável incapacidade em se unir pró. Diz-se que as direitas se unem por interesses, as esquerdas fracturam-se por ideais.
A forma como decorreu a sessão pública, a que não pude assistir na totalidade, confirma as dúvidas, as penosas dúvidas dos que teimam em as ter. A unidade foi conjuntural, para aquele evento e ponto final. E, de facto, é impossível uma união programática enquanto não houver a coragem e a lucidez de esclarecer um ponto base: o que fazer com o memorando da tróika. E nisto, como noutros aspectos, a posição do PS é decisiva. Querer apontar caminhos de unidade para o futuro ignorando, adiando ou contornando este problema, é uma irresponsabilidade absoluta.Por outro lado é frustrante que, para congregar adesões e alargar bases de apoio, seja necessário recorrer à invocação de Sá Carneiro como um “verdadeiro” social-democrata e que, como tal, não se situava à direita (vá lá que não se chegou a dizer que era de esquerda, imagina-se que o situavam ao centro, esse lugar que em política é nada, tanto pode dar para uma banda como para a outra).
Apesar de tudo ficou o sinal. Se é possível juntar as esquerdas então que se procurem projectos concretos em torno dos quais seja viável comprometê-las. Não apenas para enterrar um cadáver adiado, mas para construir alternativas com partidos, com pessoas, com princípios, com ideias, com objectivos e com programas mobilizadores e capazes de retirar os portugueses do descrédito com que encaram a política.
De mais positivo fica a reafirmação e confirmação de Sampaio da Nóvoa que está a tornar-se uma referência, porque empolga pela forma como diz e porque obriga a reflectir pelo conteúdo do que diz. A sua síntese é uma mensagem de esperança: “As nossas diferenças não podem ser o que nos separa, mas o que nos une”. Está aqui o essencial de um recado para as esquerdas. Porque, na verdade, o mal não está em ter posições diferentes num grande projecto abrangente que é genético da esquerda, o mal está logo na linha de partida em que nem sequer se tenta conciliar divergências. O mal está em não conseguir aceitar que três mais três são seis, mas que também o são dois mais quatro, ou um mais dois mais três. As somas tanto são feitas de parcelas iguais como de parcelas diferentes, todas equivalentes na importância porque a falta de qualquer delas inviabiliza o total desejado.
3 de Junho de 2013
