POESIA AO AMANHECER – 216 – por Manuel Simões

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ARMINDO RODRIGUES

(1904 – 1993)

ROMANCE DO CHÃO VERMELHO

1

A planície tem os olhos

cheios de espanto e de fogo

rasgados de lés a lés

na face de vagabundo

e pensamentos que são

caminhos arremessados

aos quatro cantos do mundo.

Enraizada no chão,

uma gente triste canta,

com abstractas nostalgias

na dureza das palavras,

por que as searas se alongam,

por que pairam os milhafres,

por que amargam as papoilas,

por que as ovelhas se perdem,

por que os amores se acendem,

por que luzem as navalhas.

Há nos troncos dos sobreiros

vermelhos de hemorragia

e um verde vil nos bonés

dos guardas-republicanos,

majestosos e solenes,

feitos de crueza e medo,

com a morte recalcada

na mudez das carabinas

(de “Quadrante Solar”)

Da geração do “Novo Cancioneiro”, não foi publicado na colecção, o que não impede que tenha profundamente aderido ao movimento neo-realista. Da sua vastíssima produção poética salientam-se aqui: “Voz arremessada ao Caminho” (1943), “Romanceiro” (1943), “A Esperança Desesperada” (1948), “Cantigas de circunstância” (1948). Estas e outras obras posteriores foram reunidas em 16 volumes, publicados de 1970 (“Obra Poética I”) a 1980 (“Obra Poética XVI”). De sua autoria são ainda “Quadrante Solar” (1984) e “Ocasional a Vida” (2004, publicação póstuma).

1 Comment

  1. Forte a poesia desse Armindo Rodrigues que descubro agora, graças à Viagem dos Argonautas.
    Obrigada!
    Rachel Gutiérrez

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