(Continuação)
5. CRIME E CASTIGO
(No clímax da festa, uma senhora confessa-se)
SENHORA – Que bom estar aqui! Devemos agradecer a quem soube pensar, tão bem, em tudo isto.
DR. RATO TANGERINA – Por amor de Deus… já tinha um pouco de experiência, só tive que pensar em artistas com provas dadas, e na assistência muito especial que se iria aqui reunir durante estes dias.
SENHORA – Beije-me.
(Beijam-se)
SENHORA – Unh!
(Coro de todos: Unh!)
SENHORA – Quero confessar uma coisa.
DR. RATO TANGERINA – Não vale a pena. Já sabemos tudo.
SENHORA – Tudo?!
DR. RATO TANGERINA – Não vai duvidar da nossa organização…
SENHIORA – Se eu disser uma coisa, e vocês não souberem essa coisa, o que é que eu ganho?
DR. RATO TANGERINA – Escolha o que quiser.
SENHORA – Vou ser a senhora do futuro Presidente, tá bem?
DR. RATO TANGERINA – Muito obrigado, será uma honra. Que dizem?
TODOS – Tá bem.
SENHORA – Então lá vai. Eu tenho mais de 25 anos.
DR. RATO TANGERINA – É, e eu só tenho 10 anos.
(Gargalhadas)
SENHORA – Tenho 42 anos. Quando soube que ia haver essa guerra, e que podiam acontecer coisas estranhas como esta epidemia, pensei que tinha de vir para este Abrigo. Dinheiro e outras provas sexuais, filhos bonitos, essas coisas… nada disso me faltava… (ri-se) inteligência, também não. É por isso que eu vou ser a mulher do Presidente.
MULHER – Isso ainda vamos ver.
SENHORA – Bem, se discutem isso, eu não continuo.
(Gargalhadas, risos, bravos)
DR. RATO TANGERINA – Está combinado.
TODOS – Tá.
DR. RATO TANGERINA – Continuem, faz favor. Já repararam na capacidade dramática com que ela nos quer convencer?
SENHORA – Consegui saber onde se tratava da minha ficha para o computador que seleccionava as pessoas para o Abrigo. E a partir daí…
DR. RATO TANGERINA – não me diga que fez alguma ilegalidade!
SENHORA – Credo, que ideia! Por acaso encontrei um grupo engraçadíssimo nesses serviços, amizades, amor, liberdade, depois paguei a minha entrada, e fiz todos os testes que eram necessários. Tive as relações sexuais que eram exigíveis nos estatutos. Aqui entre nós, por vezes tive de me sacrificar, de fingir…mas tudo correu bem. Até fui elogiada por vocês. Sabem muito bem que gostaram de mim.
DR. RATO TANGERINA – Não é essa a questão que está em causa. Claro que pagou, e que as suas provas sexuais foram devidamente apreciadas e elogiadas. Fez tudo o que devia. Aproveito para realçar esta prova inequivoca da minha honestidade na condução do processo de selecção.
(Aplausos)
Mas, o que se passa, é que as pessoas do seu sexo não podem ter a sua idade, para interesse da nova sociedade . Sabemos que a Ciência pode criar milhões de clones, de gente igualzinha. Servirão para trabalhar, para guerras, para experiencias. Como sempre serviram através dos séculos, apesar não serem iguaizinhos…
Senhora – e julgavam que eram diferentes(risos) meu querido, eu estou de acordo consigo. Não me martirize.
Rato tangerina – É lamentável, é lamentável. Está de acordo e pratica o crime da mentira! A elite dirigente, a EXCELENCIA que dirigirá essas massas amorfas tem de ser criada por nós, os eleitos, os seleccionados. Procriação de novos seres eleitos para a futura REHUMANIDADE! Dr. Juiz! Dr. Juiz!
SENHORA – Piedade! Perdoem-me!
DR. JUIZ ( Cabeleira, toga, etc.) – Nunca pensei ter de intervir numa circunstância tão estranha, demais a mais com pessoas da nossa elite aristocrata e financeira que foram rigorosamente seleccionadas… mas enfim… aprendemos até morrer…
(Vozes: Julgue-se! À morte!)
DR. JUIZ – Vai haver julgamento, podemos estar descansados.
DR. RATO TANGERINA – É necessário? Os nossos estatutos, dizem: só podem entrar mulheres com menos de 25 anos.
MULHER – Bem, ela só iludiu a idade. Se calhar, para o resto…
DR. RATO TANGERINA – Silêncio. Artigo 3º – são condenados à morte todos os que infringirem quaisquer das cláusulas. Parágrafo único. – Não cabe recurso desta decisão.
(Senhora chora)
PADRE – Então minha senhora. Calma! Estamos a construir um mundo justo, sem falsidades, sem mentiras. Os pecadores têm de sofrer.
SENHORA – Piedade! Não!
PADRE – Então, minha filha… coragem. O reino dos Céus vai acolher-te na sua infinita bondade.
SENHORA – Não! Deixe-me! Deixe-me! Eu não acredito nisso, aqui ninguém acredita!
PADRE – Que Deus te perdoe.
(Aproxima a cruz dela, ela cospe para a cruz. O organizador faz um sinal, os actores agarram-na, e o padre injecta-a)
PADRE – Que Deus tenha piedade…
SENHORA – Que Deus tenha piedade de mim, que me acolha na Sua Santa Lei, que seja misericordioso…
(Estabelece-se o ritual)
DR. JUIZ – Pode escolher a sua última refeição, dizer os seus últimos desejos…
SENHORA – Pode ser…
DR. RATO TANGERINA (Já com pratos) – Aqui está tudo do melhor. No Abrigo não somos insensíveis e sabemos compreender o íntimo de cada um. Uma coisa é sermos justos, outra é não sermos humanos.
SENHORA (Recusa) – Muito obrigada, mas não quero engordar.
DR. RATO TANGERINA – Uns moranguinhos…
DR. JUIZ – Com chantilly?
PADRE – Cuidado, tem açúcar, pode fazer-lhe mal.
SENHORA – Muito obrigada (recusa os morangos).
DR. RATO TANGERINA – é pena recusar. Os condenados à morte nos Estados Unidos nunca recusam morangos com chantilly.
PADRE (Rezando) – A paz que esta criatura sente quando está próxima de ser mais uma das eleitas para estar junto do Senhor… oremos…
(Espalha-se a reza)
DR. RATO TANGERINA – Bem, vamos a isto. As testemunhas têm de comungar…
DR. JUIZ – Eu preparo a condenada.
(Enquanto há a acção da comunhão e se instalam para assistir, cortam o cabelo e rapam as pernas à condenada).
ANIMADOR (com gravador minúsculo) – Desculpe, gostava de registar as suas recordações do passado.
MULHER – Eu não tenho passado.
ANIMADOR – Tem, com certeza. É que será muito interessante saber quem foi e o que sentiu uma pessoa que foi condenada à morte no Abrigo.
MULHER – Para quê?
ANIMADOR – As pessoas gostam de saber estas coisas. E, além disso, vai ser, de certeza, um grande negócio. Como a senhora tem direitos sobre o que nós vamos escrever e transmitir diga, a quem é que quer que a gente os entregue?
MULHER – Ao futuro Presidente da República.
ANIMADOR – Muito bem. É maravilhosa essa opção de uma cidadã consciente. Tem mais alguma coisa a pedir?
MULHER – Se fizerem um filme ou uma série de televisão com a minha vida, gostava que o meu primeiro namorado fosse feito pelo… e depois o primeiro acto sexual… e depois…
ANIMADOR – Shiu! Baixinho, para ninguém ouvir… ok… e o seu papel? Pela … (fala ao ouvido)…
MULHER – Não, essa não. Prefiro a…(ouvido)…
ANIMADOR – Muito bem. Vamos ao trabalho. Não precisa de falar. Vá pensando na sua vida, nas suas memórias, e estes aparelhos vão registando.
(Sons de registo rapidíssimos)
PADRE – Desculpe, temos de acelerar este caso.
ANIMADOR – Quando quiser. O nosso registo já está muito bom. Minha senhora, desculpe, vá pensando até morrer.
MULHER – Já estou cansada.
ANIMADOR – Mas as últimas ideias são as que vendem melhor neste mercado. Não me estrague o negócio!
MULHER – Está bem. Mas trate-me do filme…
JUIZ – Bem, vamos a despachar este assunto. Senão ainda começam a ofender-me com a morosidade da justiça…como é que a matamos?
José Shell – eu proponho, evidentemente, a democrática guilhotina.
General – fusilamento…fusilamento é que é bonito.
Madame Romy – eu acho que devia ser decapitada como faziam às Rainhas traidoras na Idade Média.
General – para cortar a cabeça de um só golpe tem de haver um carrasco com muita força. Eu sou capaz de cortar a cabeça dela com uma baioneta, mas demora mais tempo. Também é bonito.
M. Romy – devia era ser apedrejada até à morte.
Padre – isso é coisa de bárbaros. E se fosse estrangulada e mergulhada em ácido sulfúrico? Desaparecia o corpo e esse imundo pecado.
Rato Tangerina – e uma coisa moderna, como fazem na América? Cadeira eléctrica, injecção?
Padre – Parece que dói muito. Devia era ser queimada como as bruxas.
Rato Tangerina – Pensando bem, o mais bonito e espectacular é o enforcamento. O corpo fica a baloiçar e é um aviso para eventuais prevaricadores. Põe –se lá fora.
M. Romy – ela está bonita, bem vestida. Até enfeita o Abrigo.
(É executada)
No vídeo surge imagem de um Abrigo em Carnaval…
ABR. PORT. – O que é isto? Não estamos à espera de nenhuma transmissão. Serão extraterrestres?
(Máfia)

