Nos anos 50 e 60 do século passado alguns cavalheiros ingleses desertaram para o União Soviética, com acusações de espionagem a persegui-los. Foram eles Kim Philby, Burgess, Maclean e outros. Algumas acusações seriam verdadeiras. Pelo menos Kim Philby terá passado segredos relevantes para o outro lado, ao que parece. Sobre as motivações desses homens foram contadas histórias de dependências do álcool, de amores intrincados e semelhantes. A partir de certa altura passou a ser mencionada uma célula comunista que vinha desde os bancos da universidade de Cambridge, que usaria processos macabros para controlar os que lhe caiam nas mãos.
Pretendeu-se sim ocultar que os cavalheiros, em vez de uns senhores extravagantes e um pouco perversos, eram na realidade pessoas com convicções profundas, que não estavam satisfeitos com o regime político em que viviam. Temiam o regresso do nazismo e do fascismo aos seus países, e a história mais recente parece que lhes está a reconhecer uma certa razão. Eles não terão previsto o neoliberalismo tal e qual, mas hoje em dia percebemos que os seus receios não eram infundados. As opções qua acabaram por tomar foram sem dúvida limitadas, mas é preciso não esquecer que as pressões que sobre eles recaiam poucas alternativas lhes deixavam.
Edward Snowden prestou um enorme serviço à liberdade e à democracia. O PRISM já tenha sido mencionado anteriormente na comunicação social, mas as denúncias de Snowden foram vitais para que a opinião pública percebesse a extensão da rede de vigilância que faz incidir sobre os cidadãos em geral. Percebe-se assim mais claramente as limitações democracia nos auto-intitulados países livres, e desmascara-se o grande fundamento sempre invocado pelas potências ocidentais para se apresentarem como superiores ao resto do mundo. Percebe-se a pouca distância entre Obama e Bush, entre Hollande e Sarkozy, entre Cameron e Gordon Brown. E mais, porque é que Pinochet era tão respeitado pelas mesmas potências ocidentais.
Edward Snowden, Bradley Manning, Julian Assange são sem dúvida seres humanos imperfeitos. Muitas histórias ainda se hão de contar no futuro sobre eles. Contudo, já não se lhes pode negar o grande mérito de terem trazido à luz do dia as enormes limitações do sistema oligárquico que governa o mundo capitalista. Por isso a perseguição que sobre eles incide e que nada ficará a dever à que foi feita a Philby, Burgess, Maclean e outros. Bradley Manning está preso há anos, Assange continua refugiado na embaixada do Equador em Londres, e Snowden tem um futuro muito incerto. É duvidoso que tenham muito mais opções que os cavalheiros ingleses que não tiveram alternativa senão pedirem asilo à URSS. Cabe à opinião pública continuar a acompanhar de perto as suas vidas.


PRISM, os EUA ao melhor estilo sovieto-estaliniano, ou otomano, ou…