ESTÁ ABERTA A CAÇA AOS ECONOMISTAS? – por ALEXANDRE DELALGUE

Selecção e tradução por Júlio Marques Mota 

I never read the economist

http://blog.francetvinfo.fr/classe-eco/2013/03/13/economistes-la-chasse-est-elle-ouverte.html
Publicado a 13 Março de 2013

A truncagem nas estatísticas

Na Argentina, produz-se papas, mas também e acima de tudo, estatísticas económicas fraudulentas. Durante anos, o governo argentino anunciou uma taxa de crescimento económico largamente sobreavaliada e sobretudo uma taxa de inflação subavaliada. E quando os institutos de investigação independentes relativamente ao governo começaram a publicar quados e gráficos diferentes dos do governo, estes organismos receberam cartas de intimidação, avisos de multas e ameaças de prisão. O FMI comoveu-se então e manifestou a sua preocupação e impôs ao Organismo argentino das estatísticas, o INE argentino. Que mudasse os seus métodos, sob pena de exclusão da Organização: vamos ver o que isso vai dar.

A manipulação política dos dados económicos não é nova. Toda a gente conhece as manipulações sobre as contas na Grécia no momento da passagem para o euro. Na Grã-Bretanha, o governo de David Cameron já não sabe mais o que pode inventar para manter a ilusão do sucesso de sua política de austeridade. Quando a realidade persiste em indicar uma política de insucesso a tentação é forte para dar cabo do termómetro. Um artifício contabilístico a permitir por exemplo não contabilizar as futuras pensões a pagar aos trabalhadores e funcionários do Royal Mail como dívida, reduzindo a dívida pública em 28 mil milhões de libras. Este tipo de manipulação não é uma especificidade dos conservadores: Gordon Brown também foi um campeão da prestidigitação ao nível das estatísticas, mudando várias vezes a definição do ciclo económico para justificar os défices públicos [e muito mais acrescento eu, como por exemplo, efectuar verdadeiras manipulações na taxa de desemprego para depois se vangloriar que na base da sua política se tinha atingido a taxa de desemprego mais baixa desde que há registos sobre o desemprego].

Dito isto, os britânicos ainda estão atrasados nestas matérias: esta técnica tem sido usada principalmente pela França, para poderem mostrar que estão a respeitar as restrições do Tratado de Maastricht, com o valor pago em 1996 pela France Telecom em troca de o Estado ficar com a responsabilidade do pagamento das pensões dos seus trabalhadores, que ficavam assim a cargo do orçamento do Estado[1] ; este tipo de manipulação, legal, mas não muito honesto com os outros, foi utilizado por muitos países, quando se tratou de passaram à moeda única.

Ao mesmo tempo, na França, o governo socialista obrigava a que INSEE tirasse o tabaco do índice de preços para que a inflação não fosse afectada por aumentos nos impostos incidindo sobre o tabaco, impondo, de passagem custos para as famílias mais pobres; mais tarde, os ministros de Finanças Thierry Breton e Nicolas Sarkozy[2] rivalizaram em engenhosidades para truncar as estatísticas públicas a seu favor. E porque os economistas do INSEE protestaram fortemente contra estes ataques à sua independência, anunciou-se-lhes a sua deslocalização para Metz.

A nova idade das manipulações

A manipulação das estatísticas sempre se praticou; o seu sucesso, hoje, é devido a dois principais factores. O primeiro é o papel crescente dos assessores de comunicação na política, que compreenderam bem a importância dos números, avidamente comentados e retomados pelos meios de comunicação, pela opinião pública. Neste jogo, o anúncio imediato, vale sempre muito mais do que a análise bem ponderada ou do que as posteriores correcções. O gráfico ou o número no dia (ou na hora ou no minuto) tem muito mais peso do que a reflexão.

O outro factor que incita à manipulação é a multiplicação de regras rígidas supostamente a funcionarem a dirigir a acção política. A primeira vítima do critério de 3% quanto a limitação dos défices estabelecido no Tratado de Maastricht foi a fiabilidade da medição da dívida pública. Manipulação contabilística, ocultação de dívidas em parcerias público-privadas, engenharia financeira, tudo era bom para esse efeito.

A abertura de processos judiciais

O que é agora novo, pelo contrário, é o facto de que a intimidação dos estatísticos e economistas é feita através de acções judiciais. Para além da Argentina acima mencionada, o antigo director da agência de estatísticas da Grécia é acusado e ameaçado de prisão perpétua por “traição”. Qual é o seu crime? Ter “exagerado” o défice nacional quando se tornou evidente que este era muito maior do que o declarado no final de 2009. Os economistas juntam-se assim aos geólogos italianos condenados a penas de prisão por erro de previsão sobre o sismo de Aquila.

E não pensemos que isso só acontece aos outros: recentemente, o economista francês Bruno Deffains foi objecto de um verdadeiro assédio judicial por Free, por ter produzido um estudo em que mostrava que a chegada deste operador de telefonia móvel poderia ter um impacto negativo sobre o emprego.

Alguns não deixarão de dizer que é bem feita pois que a crítica é-lhes bem aplicada, pois que há muita boa razão nestas críticas. Eles nunca deixaram de o fazer, com toda a impunidade, previsões peremptórias ou análises igualmente tão convincentes e sempre tão categóricas quanto o são de contestáveis. Se isso os pudesse levar a ter mais modéstia e prudência, isto não seria uma coisa ruim. Este raciocínio pode ser correctamente o seguinte: os economistas têm uma forte tendência à arrogância e às certezas mal estabelecidas.

Mas só podemos sublinhar que esses ataques dificilmente afectarão os impostores, para se concentrar naqueles que realmente assumem riscos. Como tal, estas críticas não contribuem para conferir aos economistas o papel que deveria ser o deles no debate público: o de, como disse Keynes, serem pessoas humildes e competentes, como os dentistas.

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[1] Nota de tradução. Para os exemplos por nós escolhidos, e para as citações também por nós escolhidas preferimos deixar o texto no original.

Como assinala o Liberation de 4 de Setembro de 1996: Alain Juppé sauvé par le gong. Hier, le gouvernement a confirmé l’information de la Tribune Desfossés: la soulte que doit verser France Télécom à l’Etat, un complément financier de 35 à 40 milliards de francs au titre des retraites du personnel, sera incluse dans les recettes fiscales telles que les définit le traité de Maastricht. Ce qui signifie que, sans réduire formellement le déficit de l’Etat, cet apport d’argent va permettre à la France d’atteindre la barre d’un déficit maximum de 3% du PIB.

[2] Como assinala Bernard Salanié, professeur à l’ Université de Columbia (New York) et à l’Ecole Polytechnique. Il a également enseigné dans les universités de Stanford, de Chicago et à l’ENSAE. Je suis par ailleurs coéditeur de la Review of Economic Studies. Et été élu Fellow de l’Econometric Society en 2001: « les prix des produits alimentaires, qui ont augmenté à un rythme annuel de 5 à 6% fin 2000 et début 2001. Ce n’est pas grand’chose au regard de l’inflation de la décennie 1975-1985 ; mais c’est effectivement un phénomène inhabituel, qui a conduit le gouvernement Jospin à imposer un accord de modération à la grande distribution. Devenu ministre des finances, Nicolas Sarkozy a obtenu de l’Insee la publication d’un indice des prix dans la grande distribution. Cet indice a bien enregistré une hausse de 5,2% en 2001 ; mais elle n’était plus que de 1,4% en 2002 et de 2,2% en 2003. En mai 2006, cet indice se situe au même niveau qu’en… février 2004 ! »

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