FUTEBOLANDO – UMBERTO SABA, CINCO POEMAS PARA O FUTEBOL – por Manuel Simões

Disse, no primeiro destes artigos sobre o tema tabu do futebol, que gostaria que outros argonautas escrevessem sobre o tema, mas nunca numa perspectiva clubista – exaltando a face luminosa de um jogo bonito mas que, transformado em espectáculo de multidões, serve de capa a manobras mafiosas e a uma promiscuidade entre política, desporto e negócios obscuros.Manuel Simões traz-nos o desporto-rei convertido em moeda pura – em poesia de Umberto Saba (CL).Imagem2

Umberto Saba (1883-1957) foi um dos maiores poetas italianos da primeira metade do século XX. Nascido em Trieste (onde também faleceu), a cidade funcionou como caixa de ressonância de um cruzamento de culturas que o poeta assimila em termos do conhecimento que transpõe para a obra poética.

 Traduzido em português por vários poetas, desde Jorge de Sena, Eugénio de Andrade, Albano Martins, Pedro da Silveira e António Osório, entre outros, conheceu em Portugal a maior consagração com “Poesia (uma antologia de ‘Il Canzoniere’)”, com selecção, tradução, introdução e notas do poeta José Manuel de Vasconcelos (Assírio & Alvim, 2010).

 Os “Cinco poemas para o futebol” – como nota este tradutor – foram publicados pela primeira vez numa “Antologia degli Scrittori Sportivi” e, segundo o autor, «nasceram em Saba de uma última possibilidade que lhe era oferecida de ‘compalpitar’ com os outros, de realizar, numa festa popular, ‘o suspiro doce e vão’ de que fala no poema ‘Il Borgo’».

 Dos cinco poemas, transcrevem-se o primeiro e o último, talvez os mais significativos:

 A EQUIPA LOCAL

 Também eu entre a multidão vos saúdo,

camisolas de alabarda vermelha,

sois a centelha

da terra natal, de todo o povo

a parelha.

Vibrando sigo o vosso jogo.

                                               Ignaros

dizeis por meio dele antigas coisas

bem maravilhosas

sobre o tapete verde, ao ar livre, nos claros

sóis de Inverno.

As angústias,

que de repente enbranquecem os cabelos,

estão de vós bem distantes. A glória

sorri-vos, belos,

mas fugazmente: é o que ela tem de melhor. Abraços

correm entre vós, gestos festivos.

Jovens sois, pra vossa mãe bem vivos;

e o vento corre a vosso favor. Também

por isso vos ama o poeta, dos outros

diversamente – igualmente comovido.

GOLO

O guarda-redes caído na última

defesa em vão, contra a terra esconde

o rosto, para não ver a amarga luz.

O companheiro de joelhos o induz,

com palavras e com a mão a levantar-se,

e vê que turvo tem de lágrimas o olhar.

A turba – a unida embriaguez – a transbordar

no campo. Envolve o vencedor,

ao seu pescoço atiram-se os irmãos.

Poucas ocasiões como esta são

belas sob o céu de quantas nos é dado ver

pelo ódio e o amor atravessadas.

O outro guarda-redes junto às redes invioladas

ficou. Mas não a sua alma,

está sozinha mas veste a camisola.

A sua alegria dá uma cabriola,

e atira beijos de longe.

Desta festa – diz ele – também eu faço parte.

Nota: A “equipa local” refere-se à, ainda hoje existente, Triestina. A tradução dos dois poemas é de José Manuel de Vasconcelos.

O desenho é da autoria de Dorindo Carvalho.

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