MINIBLOGOTEATRO – O ABRIGO – 4 – por Hélder Costa

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(Conclusão)

ABRIGO MAFIA

(Sala de jogo. Fumo. Raparigas e rapazes com cuecas e tangas justíssimas, com tabuleiros pendurados no pescoço, vendem bebidas, tabaco, droga e objectos sex-shop. Homens e mulheres em “cliché”… charutos, saias rasgadas, roupa fetiche, bebem, amam-se. Padres e freiras abençoam).

VOZES – Experimentem SENSATION, o elixir do amor! – Sintam o prazer dos mais belos sonhos! – Força, violência, tesão, acção! – Temos todos os prazeres! – Inventámos novas loucuras! – Deus está convosco! – Amai-vos uns aos outros!

ABR. PORT. – Allô! Allô! Que se passa? Quem está em contacto? Vénus? Júpiter? Saturno? Um planeta desconhecido? Allô! Allô!

VOZ OFF – Allô! Aqui o Abrigo da MAFIA. Não é localizável. Por questões de segurança estamos instalados dentro de uma nave espacial que também vai ao fundo do mar e até estaciona em terra quando é necessário. O nosso Abrigo é o verdadeiro Abrigo seguro, até porque assegurámos o controle dos melhores satélites espiões. Esta missão é um spot publicitário. Temos outros segredos, e estamos dispostos a satisfazer os pedidos mais exigentes. Quem sentir insegurança pelo futuro, quem recear o que pode acontecer quando os Abrigos se reabrirem, terá no Abrigo da MAFIA a mão amiga e o conselho para uma vida que vale a pena viver.

Destruição dos inimigos, poder absoluto, escravos obedientes ao serviço dos senhores de hoje e do futuro. É o que garantimos. Claro que isso custa muito dinheiro. Mas para que é que querem essas riquezas que têm acumulado? Nós merecemos. Até hoje, nenhum cliente se queixou dos nossos serviços. Em momento oportuno, voltaremos a entrar em contacto.

(Desaparece o Abrigo-MAFIA)

(português) –há Abrigos a desaparecer

RATO TANGERINA – Interessante, muito interessante. Sempre pensei que essa gente estaria a pensar em algo de inteligente.

José Shell – Podíamos abrir uma lista de inscrições para eventuais serviços da MAFIA.

PADRE – O pior é que não se sabe o preço.

José Shell – Quero cá saber do preço! Quando sairmos daqui somos meia dúzia a mandar em tudo. Já viram as riquezas que temos na mão?

GENERAL– O pior são os japoneses. Com aquela máquina, ainda vão controlar tudo.

DR. RATO TANGERINA – Eles não são parvos. Hão-de nos deixar alguma coisa. Até para termos dinheiro para lhe comprarmos a máquina. Vamos às inscrições!

MENINA ORGANIZAÇÃO – Pode-se pedir o que quiser?

José Shell – Eu penso que a Máfia é capaz de satisfazer qualquer exigência, quanto mais um pedido de uma senhora. Diga lá, o que é que lhe está a apetecer?

MENINA ORGANIZAÇÃO – Desculpe, é segredo. Fica dentro de um envelope e eu entrego. Só tenho confiança na Máfia.

José Shell – Também podia ter confiança em mim. Olhe que eu não sou má pessoa.

AVISO RÁPIDO E VIDEO – Atenção, atenção! Alguns Abrigos deixaram de comunicar. A mancha atómica espalha-se e domina sectores cada vez mais vastos. Sobrevivem alguns Abrigos. Esses serão os eleitos.

( Abrigo Santa Rússia)

O vídeo internacional iluminou – se, surgiu uma estepe imensa, um cavaleiro ao longe…Miguel Strogoff?…um rio violento…a melodia maravilhosa dos “barqueiros do Volga” invadiu o Abrigo, um corpo de militares começou a dançar Kalinka numa eira de trigo doirado, e sucederam – se os extraordinários ícones das igrejas da velhíssima Rússia. Foi em total euforia que nos levantámos a aplaudir o aparecimento do

ABRIGO DA SANTA RÚSSIA

Sucederam – se imagens do Bolshoi, excertos do trabalho de Liubimov no Taganka, uma entrevista com o neto de um velho bolchevique que tinha participado no assalto ao palácio de Inverno (para quem não sabia, o apresentador tinha uma brochura que informava que esse ataque tinha marcado o início da Revolução Soviética do milénio passado), os campos do goulag , reportagens sobre o Sputnik, primeiro objecto no espaço, retrato da cadela Laika, primeiro animal no espaço, Gagarine, primeiro homem no espaço, Svetlana , primeira mulher no espaço, Ieltsin numa casa de repouso, Gorbatchev, penúltimo secretário geral do PCUS, Ieltsin, ultimo presidente, Gorbatchev ultimo secretário – geral, Ieltsin presidente, Ieltsin numa casa de repouso, Ieltsin apalpa o rabo a uma secretária, Ieltsin presidente, Ieltsin tropeça numa carpete, Ieltsin numa casa de repouso, Ieltsin presidente, Ieltsin numa casa de repouso, Putin ministro, Ieltsin aperta a mão de Putin, Ieltsin abusa do vodka, Putin não se ri, Ieltsin numa casa de repouso, Putin continua sem se rir, Ieltsin diz coisas inconvenientes a uma enfermeira, Putin presidente. –UFF, até que enfim!, desabafámos todos nós, apesar de compreendermos e admirarmos o tradicional narrativo meticuloso da antiga Rússia. Seguiu – se um poema extensíssimo sobre a alma Russa, que nos perturbou imenso porque não percebemos se tinha orgulho nas vitórias sobre Napoleões, Hitlers e outros invasores, ou se se auto – comprazia com a miséria de mujiks, cossacos e outros escravos da velha e da nova Rússia. Que o poema era religioso, era, mas como metia euforias de labregos , prazeres da guerra e muito vodka à mistura, ficámos um bocado confusos. O sr. Silva disse que isso não era nada confuso, porque devia ser por causa do frio, também ele que era das Beiras bebia o seu bagacinho desde pequenino para ir para o trabalho. No ecran surgiu uma porta enorme – até me arrepiei a pensar que tinha sido com uma porta daquelas que o Martim Moniz tinha morrido entalado, mas não nos dispersemos – que se abriu lentamente e mostrou uma longuíssima passadeira vermelha. Ao longe surgiu uma figura minúscula, marchando energicamente pelo meio. A câmara fez zoom e fixou – se numa cara de poucos amigos, daquelas que não têm nenhuma ruga, sinal seguro de nunca terem dado uma gargalhada. Era o inefável Putin que calcorreava a passadeira Imperial, emoldurada por garboso corpo de guardas que apresentava armas. Entrou em cena a segunda câmara nas costas do chefe da nova/velha Rússia, e assim tivemos o inesquecível prazer de sermos companheiros na admirável visão de vermos abrirem – se diante de nós outras portas vetustas e imponentes. Depois de mais uns quilómetros de passadeira, a primeira câmara focou em grande plano o meio sorriso da chegada do maratonista: Putin – Bem vindos ao Abrigo da Rússia Imperial, das estepes intermináveis, das paixões violentas, dos guerreiros cossacos, do frio, do gelo, das vitórias passadas e futuras , pátria de Ivan o Terrível e Rasputines! Cientes da curiosidade que despertamos internacionalmente com o reavivar da nossa velha chama, estamos disponíveis para esclarecer dúvidas e encetarmos relações comerciais.

Abrigo português – é verdade que a Mafia domina a Rússia, e que muitos dos seus elementos foram do partido comunista? Putin – Claro que é verdade. Já que diziam que o antigo sistema, aquilo que eles diziam que era o comunismo, não era bom, era o que faltava vir gente de fora para tomar conta das nossas riquezas! Se o que é bom é o capitalismo, sejamos nós os capitalistas! E se o melhor e mais triunfante capitalismo tem de trabalhar com a Mafia, que a alma Russa seja capaz de criar a Máfia Russa ! Defender a Nação foi e será sempre o nosso grande orgulho, arrostar com qualquer dificuldade! E conseguimos demonstrar em pouquíssimo tempo que não ficávamos atrás de Italianos, Sicilianos, Texanos, Ku-Klux- Klan e companhia. É mais uma honra para a pátria de Rasputine. Agora quem mete medo é a Máfia Russa. ( gargalhada com corte de imagem)

(português) – Campanha Presidente(corrupção)/o dealer-animador/ eleição Miss Abrigo Animador – foi um corte de energia, coitados, estão a começar o país de princípio! – Mas ele queria dizer mais coisas. – Pois, mas os velhos camaradas da mafia cortaram a luz. – Então, ele não manda nada? – Manda. Se calhar, até foi ele quem mandou cortar a luz. Se calhar, a conversa não lhe agradou. Temos tido emoções muito fortes, descansemos um pouco. (Musica ambiente. Copos) Dr. Rato Tangerina – menina Romy, venha ver a paisagem…(afastam-se). Quero o seu apoio para a minha campanha.

M. Romy qual campanha ?

Dr. Rato Tangerina – para a Presidência do Futuro.

M. Romy – mas não há mais ninguém…

Dr. Rato Tangerina – nunca se sabe…o futuro prémio Guillot é perigoso, o pato bravo Silva tem dinheiro e conhece toda a gente, o Animador…

M. Romy – eu a esses dou-lhes umas gajas, nem é preciso serem meninas de classe.

Dr. Rato Tangerina – fale-lhes numa reunião para pensarmos em projectos para o futuro…eu dou-lhes umas coisas e fica tudo em paz e sossego.

Padre – esta história da Máfia Russa…

Vozes – são terríveis, que medo ! não têm sentimentos !

José Shell – faz lembrar o “ Crime e Castigo”…

Animador – calma, queridos Abriguistas, este Abrigo é um lugar paradisíaco, verdadeiro espaço de eleição para os futuros deuses que vão governar. Para vossa felicidade, servi-vos! Controlai os espíritos, acalmai os humores!

(grande distribuição de droga, heroína, cocaína, hachiche, crak, aspirinas em pastilhas, injectáveis, bebíveis, mais umas invenções especiais para o Abrigo) etc.

Padre – Dizem mal destas coisas, mas a verdade é que o ambiente acalmou. Como é que consegue ter assim, à mão, tanta variedade e qualidade de droga?

Animador – a história da droga já vem de longe, foi isso que me abriu as portas da televisão.

Padre – Mas o senhor até é de boas famílias Animador – Sim, eu sou de famílias de bom nome e de boa posição. Mas olhe, no tempo do fascismo, a coisa que mais me indignava era a história da droga. Quer dizer, eu não tolerava que houvesse droga só para meia-dúzia de senhores… e o resto da malta, não tinha direito a nada? Com o 25 de Abril, as coisas começaram a mudar. É verdade que tinha andado pela Europa a estudar o mercado, fui às Américas, enfim, andei por aí a fazer o tirocínio. Hoje, estou à vontade em qualquer parte: nas embaixadas, nos ministérios ou nos tais bairros degradados de que os políticos falam. Padre – E o negócio tem corrido bem ? Animador – Tive sorte. Encontrei muita gente boa e bem protegida que alinhou comigo, e que percebeu que este país era um tesouro à espera de ser descoberto… ainda por cima com esta costa para África, Atlântico e Norte da Europa… só um estúpido é que não alinhava… os meus agentes iam cumprindo as minhas tarefas. Primeiro, peixe graúdo. Apanhar gente com muita massa, umas miúdas giras, actrizes, modelos, cantoras, que caem facilmente na imitação das histórias de Hollywood, dos filmes… é aquela nuvem de estrelas em que acreditam sempre… apanhado este material, é fácil arrancar para outro: médicos, advogados, gestores de empresas, gente do governo, industriais… A seguir vêm os estudantes… oferece-se sempre até criar o vício… depois, os putos precisam e pagam… Se não pagarem, há castigo. Pobre do traficante que não liquidar o gajo que lhe deve massa. É arrumado pelo chefe. A nossa força vem daí: relação séria e digna e quem falar morre. Se não podia pagar não comprasse; se era fraco, não se viciasse…

M. Romy – Querido ratinho…podemos falar?

José Shell – Dr. Rato Tangerina, deseja projectos para o FUTURO? Eu quero organizar uma nova Religião. Se estas falharam, é evidente que o FUTURO tem de ter uma nova religião, forte, rigorosa, inteligente, sedutora, mágica, adaptada à nova brisa que nos fará esquecer este tenebroso passado.

Dr. Rato Tangerina – tenha cuidado com os direitos comerciais. Olhe que a Coca-Cola comprou os direitos de usar a cruz.

M. Romy – e o Vaticano é o dono do Cristo.

José Shell – já sei, já pensei nisso. Tem que haver um símbolo novo. Imaginem um ser vivo que dura tanto tempo que parece ou deve ser eterno.

Sr. Silva – o futuro prémio Guillot já lhe deu a volta à cabeça.

M. Romy – não sei, porque é que não pensa num pássaro, numa ave?

J. Shell – uma ave? Voar é sonho, é perigoso. A religião não é para sonhar, é para apoiar os medos das pessoas. Apoiar o medo, percebeu? Não é para tirar o medo. Quem sonha não tem medo.

M. Romy – podia ser um flamingo. Voa baixinho, quase que não voa. E é cor de rosa, pernas altas, elegantíssimo! Ou uma pomba…a pomba da paz do Picasso!

General – para não dizerem que só penso em armas…e se o futuro Deus ou outro nome qualquer fosse um pombo-correio? É muito útil na Guerra, não tem nada a ver com as pombinhas do Picasso, esse comunista debochado, e já pensou sr. Padre, até lembra o Espírito Santo…o pombo-correio trás cartas, mensagens, podemos dizer que é a palavra Divina…

Sr. Silva – então e se fosse uma cobra, uma víbora? se é para meter medo…

J. Shell- isso é demais. Víboras estão mal vistas desde que a Cleópatra apanhou aquela picada. O medo já está nas pessoas, não é preciso criar mais medos.

Dr. Rato Tangerina – desculpe, futuro prémio Guillot…

J. Shell – trate-me por Zé Shell ou Zé…

Dr. Rato Tangerina – OK, Zé . E a mim trate-me por Mickey. Mas isso do medo, cuidado! Ele existe mas é bom estar sempre em aquecimento, digamos em lume brando. Sempre se falou do Inferno com azeite a ferver e as pessoas a arder em fogueiras…

J. Shell – oh Mickey, já ninguém acredita nisso. Isto está difícil, deixe-me pensar, temos de fazer outra reunião. Mickey, anime O Abrigo…

DR. RATO TANGERINA – Atenção, queridos futuristas! no meu programa do FUTURO haverá sempre lugar para algumas iniciativas dos tempos antigos. É a nossa forma de honrarmos os nossos antepassados. Passemos à eleição de Miss Abrigo. Vamos escolher a mulher do futuro.

(Acção com o público. Escolha de uma espectadora. Festa. Oferta do livro e T-shirt do Futuro prémio Guillot).

(português) – mais Abrigos desaparecem

6. A CATÁSTROFE

AVISO RÁDIO E VIDEO – A eleição da vossa Miss foi muito bem acolhida na nossa estação difusora; não sabemos ao certo quantos Abrigos a receberam. Informamos que o Abrigo Alemão deixou de emitir; julga-se que praticaram suicídio com gás, seguindo óptimas experiências do seu passado.

ANIMADOR – Muito bem. Alegria, alegria! Vamo-nos divertir. E umas canções em coro?

(Bravos; cantam: “Oliveirinha da Serra”).

ANIMADOR – E agora, entraremos em contacto com outros Abrigos internacionais… EUA? Não… há interferências… Japão… também interferências… Os Russos também acabaram…afinal, quando o Putin perdeu o pio foi porque o Abrigo deles estoirou…ah! Vaticano! O Vaticano continua! É a prova do valor da Fé!

(Vaticano/ Máfia)

(Padres e freiras fustigam-se e fazem sacrifícios.)

– Piedade! Piedade! Perdão pelos nossos pecados! Perdão! Ajuda-nos, Deus! Ajuda!j

(Quando este quadro atinge o paroxismo, o Papa interrompe, com voz de trovão)

PAPA – Silêncio! Silêncio, doidos sem fé! Porque gritam e choram e imploram por Deus? A misericórdia de Deus é infinita, mas ainda maior é a sua sabedoria! Deus nunca abandonaria os seus mais fiéis seguidores aqui na terra! Deus forneceu-nos as armas para combatermos o mal e a adversidade! Temos dinheiro, riqueza e influência. Neste momento trágico, de nada servem as orações. As orações serviram-nos para seduzir e acalmar a pobre gente que vivia desesperada e em revolta. Conseguimos evitar muitas tragédias, conseguimos muitas vezes alterar a ordem natural das coisas, e para isso, foi preciso rezar muito, olhar para o Céu, pedir, e usar o dinheiro e a força. E os povos foram vivendo, talvez com algum sofrimento, talvez com algumas necessidades, mas sem grandes perturbações. Nós garantimos a paz, a tranquilidade, espalhámos a palavra divina, a ordem e o respeito do mais humilde em relação ao mais poderoso, em relação àquele que lhe pode dar a casa e o sustento. Foi uma bela e grandiosa batalha. Hoje, a situação é diferente. A catástrofe que se avizinha é uma vontade Divina, e destina-se à selecção dos mais fortes, poderosos, e capazes de construir um futuro feliz sobre as ruínas e os escombros desta sociedade corrupta, que está a ser castigada porque desafia a ordem e o bom senso, porque o povo tem o culto da revolta e não do respeito, porque o ser mais inferior não respeita o superior, porque se julga que é possível que o bem estar seja igualmente distribuído por todos. Que a maldição e a peste caiam sobre esta humanidade ímpia e doente! (Começam rezas) PAPA – Silêncio! Silêncio! Não quero ouvir orações ridículas que não servem para nada. Contactem imediatamente com o meu bispo de confiança. Quero saber o que pensa a Máfia de toda esta questão. Acredito piamente que eles têm soluções.

PADRE (roja-se pelo chão) – Piedade! Piedade! Sou eu o patrão da Máfia (despe-se e aparece vestido à malandro)… fizemos muitas reuniões, discutimos com os primos, tios, e até com parentes afastados, e ninguém descobriu a solução… (chora)… ninguém, querido e adorado Papa… ninguém… decidi albergar-me no vosso Abrigo… penso que é a salvação…

PAPA – Castiguem-no! Tanto dinheiro gasto com esta gente, e não nos servem quando precisamos! Castiguem-no!

(Espancam o Padre mafioso com chicotes, ruídos de correntes, etc. e mistura com hard-rock).

(português) –lobby para Presidência/ Os “ Zézinhos”/Abrigos falham / As minas salvam o povo/ Fuga para o povo/ massacre trágico/Abrigo explode/ final

J. Shell – estão a ver como eu tenho razão? É preciso outra religião. Alguém acredita no Papa ser o representante de Deus na Terra? E aqueles budas do Tibet…aquilo é alguma religião a sério?…escolhem uma criança, dizem que encarna o futuro Dalai Lama, fica presa no convento e pronto é um novo Deus!

Sr. Silva- para ele e para a família é bom, nunca precisam de trabalhar.

J.Shell- oh sr. Silva, aquela religião o que tem de bom é que os monges nunca trabalham, vivem de esmolas.

Sr. Silva- ai os malandros! E Deus não se zanga?

M. Romy – e se fosse um Santo ou uma Santa antiga?

J. Shell- homens foi sempre uma desgraça. O Cristo, o Maomé, o Buda aguentaram uns tempos, depois caíram em desgraça, já não lhes ligam. Se forem padres ou Papas, é melhor nem falar nisso. Se foram Santas, também já não pega. Ou eram virgens ou camponesas violadas. Como já não há virgens…e as camponesas já estão na cidade a fazer strip-tease…

Dr. Rato Tangerina – então…está mau…e um macaco?

José Shell – oh sr. Dr.! isso não parece seu… um macaco…o bicho mais parecido com um homem..sempre a catar piolhos, a masturbar-se… imaginação, imaginação…Cultura…já ouviram falar em tartarugas?

M. Romy – sopa de tartaruga, é muito bom…nas Seycheles…

José Shell – a tartaruga vive centenas de anos, é pacifica, é tranquilidade, é indiferença perante este mundo agitado, inconstante…a tartaruga irá ser o ícone insubstituível da futura religião Universal…a TARTARUGA SAGRADA !

M. Romy – só se eu lhe enfeitar a carapaça para ficar mais bonita.

General – olhe, ponha-a de camuflado. Fica um Deus ainda mais misterioso.

José Shell – não percamos tempo em pormenores. Já pensaram o que se ganha em tranquilidade, em indiferença perante dificuldades, crises, crimes, se a bonomia, aquela paz da tartaruga, uma paz mesmo paz, mesmo pacífica, dominar o género humano?

General – oh sr. Arquitecto deixe-se de lirismos e de traições. Quer acabar com as guerras? Quer pôr-me no desemprego?

M. Romy –calma sr Katzenmitte, alguém podia pensar em acabar com as guerras?!

Sr. Silva – Dr. Parafina…

Rato Tangerina – Tangerina…Tangerina…

Sr. Silva – pois, Parafina…isto de obras está mal, deve estar tudo destruído, deve cheirar mal, a terra não presta…faço umas torres e a gente vive lá em cima, o veneno não deve lá chegar…até já tenho um nome …são as “ Mães suspensas”…

M. Romy – que bonito…e cada um pode pôr o nome da mãezinha.

Sr. Silva – se tiver massaroca para comprar a” Mãe suspensa”…(risos)

Dr. Rato Tangerina – adjudicado. Positivo.

General – eu trato do armamento. Qualquer arma de fogo será proibida. E facas e navalhas, só para descascar batatas e alguma fruta. Deixa de haver bifes, só carne moída.

José Shell – sr. General, com todo o respeito. Acho que só está a pensar em violência para dominar o povo, e as coisas já não são bem assim.

General – lá vêem as modernices. Então, como é que é ? Com festinhas ?

J. Shell- por acaso, é parecido com isso. O povo revolta-se porquê? Porque quer qualquer coisa. E das duas uma : ou se dá o que eles querem, ou se reprimem os agitadores. Não é assim?

General – foi sempre assim.

J. Shell – nós temos de criar outra técnica: criar o desejo, obrigá-los a portarem-se bem para conseguirem aquilo que nós os obrigamos a desejar. Criar invejas, pô-los a lutar por um mundo que não é nem nunca há de ser deles.

General- Não se esqueça de dizer : porque nós não deixamos e para isso é preciso armas. Nem que seja em ultimo recurso.

José Shell – é evidente, meu caro. Mas as coisas evoluíram. Apresento-vos uma surpresa de minha invenção. À minha imagem e semelhança…os “Zézinhos”…

(surge um grupo de anões clonados, gordos, calvos, 1 óculo redondo, t-shirt preta e pequena metralhadora)

( entram a dançar “Oh when the saints…”, param e metralham em todas as direcções)

( O Abrigo aplaude entusiasmado)

Sr. Silva – então esta brincadeira é para quê?

José Shell – Esta é a conclusão dos nossos anteriores debates sobre o Futuro da Humanidade. Penso que chegámos à conclusão que para dominar o Universo é fundamental usar a força psicológica, a convicção de saber convencer. E também o humor, a alegria, o sexo, a droga que tranquiliza e prepara o ser Humano para o prazer. Como o nosso Mestre Huxley explicou sábia e brilhantemente no “Brave New World”. Com o comprimido “soma” e a clonagem. Mas também chegámos à conclusão que poderiam existir crises incontroláveis, e nesse caso, o uso da Vigilância, da Censura e da Força eram absolutamente necessários. Era a confirmação de “1984” de Orwell. E assim chegámos com estudo e reflexão, a esta extraordinária contribuição da Ciência para o nosso Futuro. Soldados brincalhões que matam a torto e a direito. E não precisam de comer nem dormir!

(Entusiasmo desmedido e eufórico. José Shell erguido em ombros. Champagne…)

General – acabaram as rações de combate, as tendas. Vá lá, até que enfim que a Ciência serve para alguma coisa.

Sr. Silva – o dr. Rato Tangerina é que sabe, é o futuro presidente do Futuro, mas cá para mim a tartaruga pode ser engraçada até porque nem se mexe, mas estes anões não têm graça nenhuma. Eu vi um filme em que os autómatos se revoltam, é preciso cuidado.

José Shell – isso era um filme, a vida não é assim.

Sr. Silva – se fizeram o filme é porque já houve coisas dessas. A mim não me enganam. E já agora, soldados e guardas para nos defenderem haverá sempre quem trabalhe por tuta e meia. Felizmente que haverá sempre muitos miseráveis.

José Shell – isso de revoltas é sempre mais perigoso se vier desses miseráveis. Insisto na Tartaruga Sagrada para adormecer e pacificar o povo e nestes meus “Zézinhos” para divertir e destruir qualquer revolta.

Dr. Rato Tangerina – adjudicado. Positivo.

M. Romy – que bom, que belo Futuro! Faltará muito para sairmos?

DR. RATO TANGERINA – Não sei, minha querida. Estou preocupado. Por esta é que eu não esperava. Mas então… se o Vaticano e a Máfia não conseguem safar-se… o que será feito de nós?

José Shell – Dr. Rato Tangerina, é o nosso Abrigo português que se safa… O mundo todo é nosso…voltámos ao século XVI, e nem precisamos de um tratado de Tordesilhas para dividir terras e riquezas com a Espanha…qual é o problema? Tem medo de ficar sozinho?

GENERAL – Já estivemos “orgulhosamente sós” na nossa história…

José Shell – eu também sei, como criador, o que é estar só… também não tenho medo.

DR. RATO TANGERINA – Não seja estúpido! Lá porque escreve patacoadas julga que percebe do mundo? Como é que a gente existe sem o Vaticano e a Máfia? Não percebe que é preciso gente para controlar os que estão fora do Abrigo? Que, pelos vistos, podem ser milhões!

VOZ RÁDIO VIDEO – Confirma-se o desaparecimento de milhares de camponeses e a fuga em massa das grandes cidades para o campo. Confirma-se que as minas abandonadas constituem um refúgio seguro contra a mancha misteriosa. Afinal, os nossos Abrigos não confirmaram o optimismo dos cientistas: alguns já não emitem nenhum sinal de vida, e receia-se que eles acabem por não salvaguardar a existência dos seus ocupantes.

MADAME ROMY– Os pobres vão-se salvar! É preciso matá-los. Vão-se vingar. Vão-nos violar, arrastar pela lama. Vamos matá-los antes que eles nos cerquem no Abrigo!

José Shell – Madame Romy, calma! Em princípio, eles estão mortos. E o nosso general sabe como massacrá-los.

GENERAL – Deviam ter sido destruídos para se evitarem estas situações. Com atrocidades, com crueldade, sem dó nem piedade, para que o pavor os imobilizasse para sempre. Eu sempre disse isso, mas com a mania da democracia, da liberdade… ninguém se decidiu…

DR. RATO TANGERINA – oh sr. General, isso não era solução. Você matava os pobres, e depois quem é que trabalhava?

ACTRIZ – Estou farta disto. Estou farta de o pobre se querer vingar de ser pobre.

ANIMADOR – ( despe-se) E eu já tenho medo de ser rico. Senhor Padre, proteja-nos, dê-nos a sua bênção, acalme esses selvagens… se for preciso eu canto para eles. Eu dou as minhas casas, os automóveis, os yates, os meus relógios, jóias, fatos, calções, slips, tudo, tudo, só para estar junto deles e poder animá-los nesta hora grave e de sofrimento.

GENERAL – Peçam rezas e milagres, peçam! As nossas armas já não servem para nada, a nuvem misteriosa destruiu o paiol… (chora)… (Pânico e rezas em altos brados com participação do público)

Que S. Lazaro nos proteja Que Loyola nos mereça Levanta-te e caminha (BIS) Que o medo desapareça

O Salvador apareceu O peixe salta no rio Jesus, Ave Maria (BIS) A tempestade fugiu

ANIMADOR – Por favor, deixem-me sair deste maldito Abrigo. Eu fui sempre um artista do povo, quero ir para junto do meu povo.

ACTRIZ – Também quero ir. Quero partilhar estes tempos de angústia com o pobre povo sofredor e mártir. Farei teatro, animação com as crianças, darei cursos, ateliers, workshops, apoio social para marginais e excluídos… Vou distribuir leite e sandes pela noite escura nos bairros problemáticos, irei adoptar os filhos de criminosos e prostitutas, partilharei as drogas, a sida, a miséria com todos esses filhos de Deus…serei uma nova Madre Teresa de Calcutá…

José Shell – Também eu me sinto atraído por essa gente miserável e inculta, mas bela e sensível, que me inspirou as mais fascinantes páginas da minha obra. A eles devo o futuro prémio Guillot.

PADRE – pobres ovelhinhas tresmalhadas, ingénuos cabritinhos imolados pelo horrível ser Humano…Deus seja misericordioso, me abençoe na minha nova missão de Salvador e me proteja na demanda do meu rebanho…

DR. RATO TANGERINA (Grita) – O que é isto? Daqui ninguém sai! Parecem os ratos a abandonar o navio.

José Shell – Não diga essas coisas. O senhor foi sempre um político oportunista, só pensou em si, foi sempre um lacaio do grande capital e das multi – nacionais, nunca foi solidário com as massas populares, nunca poderá perceber os sentimentos de honra, dever e sacrifício que nos empurram para junto dessa pobre gente.

GENERAL – O vídeo desapareceu. Já estamos sozinhos no mundo.

DR. RATO TANGERINA – Rezem, gritem! Padre, faça um milagre! (Gargalhadas. Começa a enlouquecer, vai matando os personagens e suicida-se)

(Cai o tecto lentamente. Pó e detritos pelo ar. Surgem vultos em sombra. Chuços, varapaus, capacetes com lanternas, foices roçadoiras… Três, quatro notas da Internacional. Fade muito lento).

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