POESIA AO AMANHECER – 229 – por Manuel Simões

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CARLOS DE OLIVEIRA

(1921 – 1981)

SONETO FIEL

Vocábulos de sílica, aspereza,

Chuva nas dunas, tojos, animais

Caçados entre névoas matinais,

A beleza que têm se é beleza.

O trabalho da plaina portuguesa,

As ondas de madeira artesanais

Deixando o seu fulgor nos areais,

A solidão coalhada sobre a mesa.

As sílabas de cedro, de papel,

A espuma vegetal, o selo de água,

Caindo-me nas mãos desde o início.

O abat-jour, o seu luar fiel,

Insinuando sem amor nem mágoa

A noite que cercou o meu ofício.

(de “Sobre o Lado Esquerdo”)

Romancista e poeta, faz a sua estreia literária com “Turismo” (1941), que publica no “Novo Cancioneiro”. Seguiram-se os volumes “Mãe Pobre” (1945), “Colheita Perdida” (1948), “Descida aos Infernos” (1949), “Terra de Harmonia” (1950), “Cantata” (1960). Com “Sobre o Lado Esquerdo” (1962) revoluciona a sua poética, estabelecendo uma ruptura formal que atingiu também os seus romances. Outros títulos de poesia: “Micropaisagem” (1965), “Entre Duas Memórias” (1971). A sua produção poética reuniu-se depois em “Trabalho Poético” (2 vols., 1976).

2 Comments

    1. Cara Rachel, “o seu a seu dono” – a escolha dos poemas matinais é da responsabilidade de Manuel Simões, professor de Literatura e grande poeta. O Carlos de Oliveira é um dos principais escritores (poeta e ficcionista) do neo-realismo português.

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