“QUANDO O PROTECCIONISMO SE TORNA INEVITÁVEL”: UMA RECENSÃO SOBRE UM LIVRO MUITO IMPORTANTE, por JÚLIO MARQUES MOTA

Este é um livro importante lançado durante a campanha presidencial. Franck Dedieu, do L’Expansion, Benjamin Masse-Stamberger, de l’Express e Adrien de Tricornot, do Le Monde, publicaram ” Inevitável Proteccionismo- Inévitable protectionnisme ” no ano passado. O sinal de uma mudança de peso nos media sobre a questão do livre-comércio?

A necessidade de proteccionismo

Há algo de extraordinariamente agradável de ler sob a pena dos jornalistas de L’Expansion, l’Express e  Le Monde, todas as constatações feitas por Jacques Calvet, Emmanuel Todd, Philippe Seguin e Jean-Pierre Chevènement desde há vinte anos atrás, a que se junta hoje Nicolas Dupont-Aignan, Jacques Sapir ou Jean-Luc Gréau. Eles recordam-nos precisamente a crença que animou os nossos líderes desde há tantos anos: “ quanto menos se impede os movimentos de atores privados, melhor se comporta o sistema económico e os diversos agentes que o compõem “.

Duas conclusões têm vindo a pôr em causa esta a visão de mundo dos autores: a explosão das desigualdades salariais e os confrontos cada vez mais violentos do ciclo económico, recordando esta bela citação do General de Gaulle: ” o laissez-faire e o laisser-passer quando aplicado à economia (…). muitas vezes deu (…) ao desenvolvimento uma poderosa impulsão. Mas não se pode ignorar que disto resultaram muitos e violentos choques e uma enorme soma de injustiças. “

Eles fazem uma bela comparação com a guerra, citando Paul Valéry: “a guerra é feita por pessoas corajosas que se matam umas às outras sem se conhecerem e para benefício de pessoas que se conhecem, mas que não se matam umas às  outros”. Para a Europa e para os Estados Unidos, os autores argumentam que nós estamos num processo de “destruição destruidora.” Pegando um estudo do Banco Mundial, eles argumentam que a globalização actual beneficia apenas a China, pois que se há 517 milhões de pobres a menos no total e há 627 milhões a menos na China, isto significa que há 110 milhões a mais noutros lugares. Além disso, eles sublinham que os modelos económicos ganhadores (Coreia do Sul, China) são modelos económicos proteccionistas.

 Um livro muito importante

Os autores afirmam que a liberalização do comércio não deve ser sistematicamente proscrita. Mas a ideia de que esta é sempre, em todos os lugares e de todos os tempos, a melhor solução aparece-lhes cada vez mais como uma loucura. Na verdade, os autores consideram que uma tal prática em termos de política económica produz o desemprego e uma pauperização das classes médias e sublinham a sua lógica absolutista para não dizer autoritária e antidemocrática. Defendem portanto, uma forma de liberalismo humanista, equitativo e temperado e apelam consequentemente à existência de um proteccionismo europeu.

Porque é que o comércio livre é um beco sem saída

Os autores explicam porque é que a Alemanha se sai melhor, recordando também que “o poder de compra dos trabalhadores diminuiu constantemente (desde os anos de 2000)”:  a fábrica do mundo – a China – está a ser construída com as máquinas ferramentas fabricadas pela Alemanha. E os novos países emergentes ricos rolam em carros de grande cilindrada produzidos pelos alemães. Eles também sublinham que a Alemanha tem deslocalizado fortemente a produção de componentes para os países da Europa Oriental, até mesmo certos serviços ( os grandes hotéis em Berlim mandam lavar e passar a ferro os seus lençóis e toalhas na Polónia para diminuir os custos).

Eles desmontam e com muito sucesso a venenosa lógica da globalização. Desenvolvem longamente o exemplo da Siemens, que assinou em 2004 um acordo com os sindicatos que vai baixar em 30% os custos do trabalho na sua fábrica de telefones móveis (passagem de 35 a 40 horas de trabalho para o mesmo salário, com a eliminação do 13º mês), ameaçando mudar para a Hungria. Depois, em 2005, o grupo vende a sua actividade para um grupo de Taiwan, BenQ, que coloca a sua filial alemã no ano seguinte em situação de falência, deixando 3000 trabalhadores em apuros pela cessação de pagamentos.

Para eles, o comércio sustentável só pode ser feito com países similares, citando Gabriel Galand e Alain Grandjean. Eles observam o papel determinante da livre circulação de capitais, o que cria uma enorme à baixa sobre o custo do trabalho. A China acelerou entretanto o movimento com a sua entrada na OMC em 2001. Eles sublinham que os países europeus têm “desvantagens competitivas” com esta globalização pelo facto de terem uma moeda cara, salários altos, em termos absolutos e relativos, uma avançada protecção social financiada por uma maior tributação, o que leva as empresas multinacionais a deslocalizar a sua base fiscal.

Os autores compreenderam que a convergência dos salários não é possível ao constarem que a empresa Adidas se queixou dos aumentos de salários na China deslocalizando para o Laos. Mais globalmente, eles acham que é uma corrida louca o caminho seguido para se alcançar o mínimo social, salarial e ambiental. Eles denunciam a imensa destruição social que irá ocorrer enquanto se espera pela verificação da convergência salarial em todo o planeta. Eles citam Maurice Allais, para quem “uma livre troca total, o livre comércio, entre a UE e a China levaria rapidamente ao desenvolvimento de um desemprego desmedido e a uma redução nos níveis gerais de vida na Europa.”

Virulentos, eles denunciam “o facto de se estar a colocar  em situação de morte inevitável as classes médias”, citando Paul Samuelson, para quem “ comprar os produtos da mercearia em cerca de 20% mais barato no Walmart não compensa necessariamente a perda de salários que lhe pode estar ligada.” Para eles, a viragem do século trouxe as classes médias para o campo dos perdedores da globalização. Eles citam os estudos de Elizabeth Warren, que demonstram que o seu poder de compra diminuiu significativamente desde a década de 1970, apesar do desenvolvimento do trabalho das mulheres. Eles observam que Paul Krugman, em “A América que nós queremos” lembrou que o rendimento médio diminuiu 12% desde 1973, enquanto que o rendimento dos 1% mais ricos duplicou e o dos 0,1% mais ricos terá quintuplicado.

Eles colocam a questão que muito incomoda: “e se esta pauperização estivesse ligada à maneira como a globalização está organizada?” e apontam para a perda de 2 milhões de empregos industriais, só em França. Pior ainda, eles relatam-nos que as deslocalizações afectam agora também o sector dos serviços, havendo estudos que consideram o potencial de empregos deslocalizados em cerca de 10-25% do número total de empregos! Eles sublinham que “o modelo que está a restringir o Ocidente para as actividades de projecto está já a falhar em não ser capaz de integrar os diferentes estratos sociais. Eles observam ainda que “a classe média de Estado, durante muito tempo preservada desta lei da selva, está agora na linha de mira, devido ao esgotamento dos Estados, privados da sua base produtiva”.

“Proteccionismo inevitável” é pois um livro que nos fornece a base de argumentação que, se não é nova, é, no entanto, particularmente completa e bem ilustrada por exemplos muito elucidativos. Além disso, não é saído de cenáculos suspeitos de serem à priori soberanistas ou anti-liberais primários…

Source: « Inévitable protectionnisme », Franck Dedieu, B Masse-Stamberger, A de Tricornot, Gallimard

Libellés: Adrien de TricornotAllemagneBenjamin Masse-StambergerFranck DedieuJean-Luc Gréau,libre-échangeMaurice AllaisPaul Krugmanprotectionnisme

 

Comentário de A-J Holbecq – 9 mai 2013

Ainda um comentário muito pertinente que pessoalmente (Júlio Marques Mota)  subscrevo inteiramente.

Eu acrescento que a moeda emitida (actualmente pelos bancos na sua maior parte privados quando o que é necessário é que ela o seja pelo Estado soberano) circula dentro de um país, multiplicando-se as trocas mas que um défice da balança de transferências externas (todos os défices juntos) corresponde a uma “fuga” da moeda.

A fórmula “saldo financeiro das famílias+ saldo financeiro das empresas + saldo financeiro das administrações = saldo externo” é uma fórmula bem conhecida.

No entanto, a nossa acumulação de défices externos estabeleceu-se em 323 mil milhões no final de 2011. É, portanto, necessário dar tempo ao tempo para o colocar a zero e uma das maneiras é este proteccionismo induzindo os direitos aduaneiros das importações até que as nossas balanças sejam equilibradas por sectores (em particular com a Alemanha e a China no que diz respeito aos sectores da indústria transformadora e a Espanha no que se refere a frutas e legumes) especialmente sobre os sectores considerados ‘empregadores’.

Foi também esta a filosofia da “Carta de Havana” de que Pascal Lamy não é, certamente, um grande defensor.

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