(conclusão)
E a minha pergunta é a seguinte: Era difícil prever que isto acabaria por acontecer no meio da incapacidade dos governos? Que informação especial ou privilegiada era necessário para antever este cenário?
Se Portugal voltasse ao Escudo, os problemas das PPP, das rendas excessivas na electricidade, ou o descalabro da situação das famílias que perdem as suas casas devido à incapacidade de fazer face aos encargos numa situação de desemprego, teriam seguramente uma abordagem inovadora que hoje não podem ter. Seguramente que o Governo lançaria mão de soluções inovadoras para se poder sanear esta situação e para que a economia pudesse retomar novas dinâmicas mais rapidamente, pois sem isso a economia levará muitos e muitos anos até resolver estas situações anómalas. Porque as economias com bolhas de crédito só arrancam em termos de crescimento quando há um saneamento equilibrado e geral do ponto de vista das dívidas. Isto é, torna-se incontornável e indispensável um reset histórico e minimamente equilibrado, tal como aconteceu depois das guerras e das dívidas contraídas. Nada que a história não nos meta pelos olhos dentro quando queremos aprofundar um pouco a realidade e não ficarmos pela espuma dos dias.
Ao nível europeu o problema é de natureza semelhante: sem soluções inovadoras e corajosas a economia europeia irá estagnar à espera do saneamento lento e doloroso da bolha de crédito sobretudo nas mãos dos bancos. Não há volta a dar.
Mas há um problema particular na Europa.
Aqui o BCE é decisivo nesta fase sobretudo para introduzir no sistema financeiro algum sangue, oxigénio e soro ( porque raio me havia de ocorrer este exemplo?), para evitar o colapso do sistema bancário. Um sistema bancário hipertrofiado ( maior do que o dos EUA), e que tem sobre si o peso esmagador de uma bolha de crédito que não pode permitir-se que expluda, sabendo-se que o rastilho para a explosão pode vir de vários países. Em anterior post apresentei um quadro com alguns dos maiores bancos europeus em situação mais crítica e o peso dos seus activos em relação ao PIB da Zona Euro.
No Reino Unido o Banco Central irá entrar numa nova era quando em Julho próximo tomar posse o seu novo governador, recrutado no Canadá. Vai procurar apoiar a retoma da economia tal como no Japão e nos EUA, embora com as nuances que forem achadas justificadas.
Em suma, está hoje claro que por enquanto as grandes economias enfrentam a actual crise apenas através da política monetária. Tal não constitui solução para as mudanças e reformas estruturais que se impõem, mas asseguram tempo para que os governos se decidam. Se não o fizerem, então nessa altura os bancos centrais das principais economias terão apenas comprado tempo antes de uma nova depressão mundial se abater sobre a economia mundial, com o inevitável colapso do sistema financeiro, desvalorização caótica das principais moedas numa guerra cambial difícil de controlar, até que se faça luz e se estabeleçam novas regras mundiais. Haverá um recuo significativo do comércio mundial.
Foi este tipo de razões e previsões que eu defendi no meu livro, em Julho de 2012, uma solução monetária que permitisse ao nosso País uma processo transitório para um relançamento da economia. Naturalmente que é uma solução não convencional, que combina uma segunda moeda com a manutenção do Euro, por forma a dispor-se temporariamente de um instrumento monetário próprio. É difícil a União aceitar? Bem, se não a aceitar então a alternativa será muito pior, pois um abandono do Euro por parte de Portugal será mais uma complicação para o EURO e para o Projecto Europeu, além de que nesse caso a dívida pública se tornará definitivamente impagável e os bancos nacionais irão à falência.
Assim, sem um instrumento para se recuperar a economia nacional a saída do Euro não é uma mera hipótese. É uma situação que a cada dia se torna mais provável, e catastrófica, portanto.
Mas isso não poria directamente em causa a sobrevivência do Euro? Não necessariamente! Nem é preciso, uma vez que o Euro está a caminho do colapso pelo seu próprio pé! Não é a Grécia, Portugal e a Irlanda que ameaçam o Euro ( representando cerca de 6% do PIB europeu). É a Espanha, a Itália e a França!
Nesta altura estima-se que os maus empréstimos no sistema bancário europeu atinjam uma magnitude da ordem do trilião de € ( Um milhão de milhões de €). Mas especula-se que seja ainda mais do que isso, e que só com testes de stress a sério se pode concluir sobre o estado real dos bancos europeus.
Esta é, na realidade, a maior ameaça ao Euro. Não é o défice público, nem o défice comercial ( que é nesta altura um… superavit!).
Não é por acaso que se fala em União bancária no seio da União, mas também não é por acaso que ela é difícil de se concretizar. Não é por acaso que se fala que eventualmente os depositantes terão que suportar uma parte do saneamento dos bancos, que alguns políticos insistem que está fora de causa, e outros admitam que isso poderá ocorrer para os depósitos acima dos 100 000€.
A questão é simples de se equacionar: quem vai assegurar a sobrevivência do sistema bancário europeu? Os governos? Mas onde é que os governos vão buscar os recursos?
O BCE ? Mas como pode o BCE intervir ( e poderá fazê-lo num contexto de consenso europeu) sem regras para o sistema bancário que sejam respeitadas e controladas acima dos países? Como pode isto evoluir sem transferência de mais poderes para Bruxelas? E quem quer ouvir falar disso?
Portanto, quem quiser fazer previsões sobre matérias relevantes não deve, num contexto como o actual, perder muito tempo a prever as décimas de evolução do PIB, do défice orçamental ou do desemprego, por muito sensível que isso possa ser no plano social e da política interna, mas sobre a capacidade ou incapacidade de resposta política e atempada da União Europeia.
Na realidade, a nossa crise não é a da Troika. Ela, a Troika, é consequência de uma crise que foi sempre negada e ainda hoje é mal interpretada, e consequência de uma instância política incompetente, ou desonesta.
Diz-se que nos momentos mais críticos a União Europeia tem sido capaz de tomar as decisões necessárias ( mesmo que já de madrugada, e por enfraquecimento físico e mental dos líderes europeus). Isso parece-me um dado, mas tais decisões não têm normalmente efeitos negativos directos sobre as pessoas e representam muitas vezes apenas um adiamento das soluções. Só que desta vez estamos perante um cenário que exige ajustamento para trás, isto é, nas condições de vida dadas como adquiridas, e num cenário em que as decisões europeias têm que ter em conta não apenas questões orçamentais internas à Europa, mas questões demográficas e de competitividade à escala global.
Estamos a caminho da tomada de decisões desse tipo? Estar, estamos, mas apenas porque não há outro caminho pela frente. Mas temo que a Europa não consiga agir a tempo de evitar o colapso do Euro pelas razões da magnitude dos ajustamentos que têm que ser efectuados diante dum modelo de crescimento económico assente no consumo e financiado a crédito. E porque fazer esse ajustamento num contexto em que cada país quer perder o mínimo torna-se tarefa absolutamente ciclópica no plano político.
A previsão mais certa e segura é a de que iremos todos continuar a perder e que temos que nos preparar para isso. Não há volta a dar quando uma sociedade consumiu o que produziu, consumiu ainda a herança acumulada pelos pais e mesmo os avós, e, finalmente, consumiu por antecipação o que terá que ser produzido ainda no futuro. Isto não tem nenhuma solução que não seja um ajustamento duro e prolongado. Não vale a pena discutir se isto pode ser de outra forma. Não pode!
A única questão que importa saber é se os políticos entendem isto e se são capazes de assegurar um ajustamento justo e equilibrado que facilite o regresso mais rápido a um crescimento baseado em novos motores e dinâmicas. Tudo o que pareça ser uma solução que evite este ajustamento é pura mentira!
Resumindo e concluindo;
Principais razões para as previsões económicas falhadas:
- São necessários novos indicadores, metodologias e modelos para a elaboração de previsões num quadro económico cada vez mais complexo e integrado à escala global.
Por outro lado, são necessários novos instrumentos de intervenção a nível fiscal, monetário, financeiro e económico.
- Há demasiada incompetência e desonestidade ao nível da instância política para lidar com sociedades social, tecnológica e economicamente mais complexas , mais informadas e activas. Estão a acompanhar os últimos avisos da sociedade brasileira?
- Num mundo cada vez mais veloz e que nos empurra para escolhas sob pressão criou-se uma necessidade quase doentia por previsões. E elas são produzidas algumas vezes com seriedade, mas também como instrumentos para a manipulação de comportamentos e decisões.
Exigimos cada vez mais que se façam previsões. Quando alguma coisa acontece penalizamos alguém porque não previu e preveniu o que podia acontecer. Mas também ficamos em dúvida quando se fazem previsões negativas que não são confirmadas pela realidade.
Como nota final, a crise nacional não é pior porque as previsões do Governo falham sistematicamente. As previsões falhadas constituem um fenómeno grave, sem dúvida, mas acima de tudo porque revelam que não capturamos a essência da actual crise, e por isso somos confrontados com notícias sempre piores da realidade. Essa perda de confiança é mais assustadora e destruidora do ânimo das pessoas do que a dureza crua da realidade.
Saudações
Ventura Leite
