HISTÓRIAS DA CANTINA UNIVERSITÁRIA, PASSANDO PELA SUA CONSTRUÇÃO, À CRISE DE 1962 por clara castilho

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No livro M. Norberto Corrêa “ Arquitectura e Urbanismo”, o autor fala de uma das suas primeiras obras, a Cantina Universitária. No lançamento do livro referiu-se-lhe como tendo sido o “primeiro self-service em Portugal”.

 No livro podemos ler: “recebi convite para colaborar no projecto da “cantina” dos estudantes de Lisboa (…) Aceitei esse trabalho condicionado a que o edifício da Cantina fizesse parte de um centro de convívio de estudantes, com instalações para actividades culturais e associativas, e estivesse inserido numa zona para estudantes, devidamente estruturada, e esta por sua vez  integrada  num planeamento a realizar, para a construção da futura Cidade Universitária (…). O Ministro aceitou o meu desafio (…) e em Janeiro de 1955 (…) segundo a minha sugestão, (a cantina) deveria incluir um serviço de refeições diárias, defendendo o sistema de self-service (então uma novidade em Portugal) e o edifício englobaria, além de salas para convívio, instalações para várias actividades culturais e associativas.

Sabemos que nem tudo correu como planeado, que só parte se construiu de acordo com o projecto inicial. Não sei se M. Norberto Corrêa se congratulou com a utilização que os estudantes deram à cantina.

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No trabalho de Patrícia Santos Pedrosa – “Território e esquecimento: a Cidade Universitária de Lisboa e a memória(encontrado em (http://www.vitruvius.com.br/revistas/read/arquitextos/06.063/434) declara-se que o projecto da cidade universitária nasce em 1920  se manteve “entre dois possíveis futuros: bairro universitários dentro da cidade consolidada ou semi‑subúrbio numa zona de futuro desenvolvimento da cidade. Por detrás estavam duas ideias opostas sobre o modo de controlar o perigo que os estudantes representavam para o regime totalitário: controlar através da absorção na cidade consolidada ou através de um suposto isolamento urbano”.

De facto, uma análise certa quanto aos perigos que aquele espaço poderia significar. Lembremos, por exemplo a crise académica de 1962 que se tornou um dos principais momentos de conflito entre os estudantes universitários portugueses e o regime do Estado Novo. Em Fevereiro o governo de Salazar proibira uma vez mais as comemorações do Dia do Estudante. Em Lisboa, os alunos da Universidade Clássica de Lisboa tinham reagindo com a ocupação da cantina universitária. A reacção por parte do Estado foi a prevista e a repressão não se fez esperar. Em Coimbra iniciou-se o I Encontro Nacional de Estudantes, vindo ambas as Academias das duas cidades a decretar em conjunto o luto académico.

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O ano passado, o jornal Expresso reuniu alguns dos principais protagonistas e recriou os passos que se seguiram a um dos episódios mais dramáticos da crise académica de 1962: a detenção de 1500 estudantes na madrugada de 11 de maio. Da cantina da cidade universitária à prisão de Caxias, passando pela reitoria e pelo Governo Civil de Lisboa. Depoimentos podem ser encontrados em:

http://expresso.sapo.pt/a-noite-em-que-a-policia-prendeu-1500-estudantes)

 “De acordo com as Associações de Estudantes de Lisboa, “O 24 de Março de 1962 assinala um marco histórico da luta dos estudantes portugueses contra o fascismo e pela liberdade, pelo direito de reunião e de associação, pela autonomia da Universidade e a democratização do ensino. Durante meses, através de grandes plenários, concentrações, manifestações e greves, os estudantes enfrentaram corajosamente proibições, encerramento de associações e instalações académicas, cargas policiais, prisões em massa, processos disciplinares, expulsões, todo o arsenal da violência e repressão fascista, em jornadas memoráveis que contribuíram fortemente para desmascarar, isolar e enfraquecer o fascismo.” (http://www.crise62.net/)

 

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