Este foi um comentário , publicado em 28 de Janeiro de 2012, de Josep Anton Vidal ao debate que sobre o rumo da democracia aqui levámos a cabo. Pela grande objectividade da análise, repetimos a sua publicação.
Neste debate vi atribuir responsabilidades a militares e a partidos, pelo curso que os acontecimentos assumiram. Porém a questão das responsabilidades é muito delicada e creio que devemos reparti-las por todos. Não sei onde li, não há muito tempo, acho que relativamente ao Egipto ou à Líbia, um cartoon humorístico em que uma personagem diz para a outra: “São insaciáveis! Não lhes basta acabar com o ditador… Também querem acabar com a ditadura!”.
Ao longo do debate surgiu por diversas vezes a alusão à “deterioração” da democracia… Porém, como é possível? Se assim é, e falando do que se passou no Estado Espanhol a partir de 1975, onde estava eu enquanto os meus compatriotas gozavam de uma “excelente democracia”? Porque, parece que a excelência – ou pelo menos um certo brilhantismo das qualidades de uma democracia é requisito indispensável para que se possa falar de deterioração…
Creio que, de uma maneira ou de outra, todos incorremos num um auto-engano. Para conseguir a democracia tinha de se acabar com a ditadura: era o pré – requisito necessário, e isso levou-nos a fundir os dois objectivos num só. Acabou-se com a ditadura e pareceu-nos que atingíamos a democracia… Era um espelhismo. Quando se derruba uma ditadura, porque algo ou alguém a faz cair, ou porque ela cai por si mesma, não nasce das suas ruínas um flamante edifício democrático. O que aparece é um terreno baldio, ou cheio de cadáveres. É nesse baldio que se tem de construir a democracia. Começa então o caminho para o objectivo real.
As nossas democracias, no começo eram baldios e nos terrenos baldios costumam reinar as ratazanas. As forças que estavam unidas contra a ditadura, já não o estavam em torno de um mesmo modelo de democracia.
A primeira consequência foi a fragmentação; ou seja, a perda da força. Na Catalunha, tanto as iniciativas políticas como as culturais ou as sociais deixaram de ter a coesão que tinham tido contra a ditadura. Pelo meio, havia estratégias, posicionamentos, pactos, conveniências políticas… Tinha que se deixar trabalhar os políticos, diziam. E os políticos não estavam já no mesmo lado, mas em grupos diferentes. A fragilização é o ambiente propicio à desmobilização. Em todas as revoluções, a primeira medida que adopta quem alcança o poder é desmobilizar ou desarmar os que o ajudaram a consegui-lo. E isso é assim mesmo que a via de acesso ao poder seja democrática. Fragmentação, divisão, confronto, desconfiança, receio, desarmamento ideológico, desmobilização, despolitização e demagogia.
Talvez não devamos lamentar a deterioração da democracia, mas sim o não termos sabido construir a democracia. O abandono prematuro, o esquecimento do nosso principal objectivo – isso é o que devemos lamentar.
É como os lavradores que, tendo conseguido a propriedade da terra que lhes permitiria mitigar a fome, não a lavraram e descuidaram a sementeira, porque confundiram na sua luta o meio com o objectivo ou fundiram dois objectivos num só e tendo a terra julgam ter conseguido, sem mais esforço, a colheita.
No caso espanhol, derrubado o aparelho franquista, alguns políticos mais ou menos hábeis, dedicaram-se a salvar o aparelho ideológico, negociando uma constituição ambígua, que tanto podia servir para uma coisa como para o seu contrário… Não era um quadro legal: era uma nuvem evanescente. Aproveitando logo a falta de coesão das forças democráticas – as quais deviam ter construído a democracia e zelado pela sua autenticidade, foram alimentando os medos, estabelecendo os seus álibis patrióticos, submetendo o poder político aos poderes fácticos e gerando um aparelho “democrático” simultaneamente inepto para uns e servil para outros.
E aquellos polvos trajeron estos lodos, como diz o ditado castelhano. Uma coisa levou à outra.

Pois é, derrubar uma ditadura não é construir uma democracia. Logo de seguida temos de criar condições para abrir as portas da educação e da cultura a todos, possibilitando as transformações qualitativas ao nível do consciente de que já falei várias vezes (escritos, colóquios, …). Conseguidas estas, então a construção de uma sociedade democrática tornar-se-á possível.Foi esta a leitura que fiz do excelente texto de Josep Anton Vidal.
Estou de acordo com o Josep . Mas isso foi o que, em Portugal, andámos a fazer durante dezoito meses ao fim dos quais nos interromperam o caminho, ou melhor, lhe fizeram a agulha, como já disse, mais para Ocidente. E não me digam que foi que foi por temerem, como alguns diziam, que se implantasse aqui um regime estalinista. Esse argumento é tão ingénuo que me faz rir. Tínhamos direito a escolher o nosso caminho sem ficarmos sob a alçada dos EUA e da NATO. Acredito em utopias? Já disse que sim, desde que lutemos por as alcançar.
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