Uma coisa é certa aqui sentado na margem deste regato debruado a pedaços de neve o avesso do pensamento já não incomoda
O silêncio acorda os olhos de pó e a melodia há muito perdida nas encostas nevadas renasce na canção deste rio
Não importa ser-se aqui planta ou pedra ou torvelinho de água brincando à roda do abismo
Os soluços são apenas o cantar da água e o tempo de recordar há muito se deslembrou
A montanha despiu a neve a saudade deixou de respirar tristezas a angústia tem o tamanho da neve e o abraço do sol o tamanho da angústia
Os lábios rasgados do sexo cósmico devoram os beijos que não têm como a neve a força de um regresso
O tempo de sorrir não morreu no naufrágio das flores das noites nuas por isso não importa não saber cantar se a música dos teus dedos nasce nos cabelos de hoje
(in Vai o Rio no Estuário)
Ilustração. reprodução de quadro de Adão Cruz

