POESIA AO AMANHECER – 233 – por Manuel Simões

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VASCO MIRANDA

( 1922 )

INCÊNDIO

Deixai-me apertar, nas mãos, as mãos de todos os homens

E vibrar, na alma, a alma de todos os homens

E cantar, na boca, a boca de todos os homens.

Impossível ficar aqui, no silêncio, – voz sozinha e dispersa.

Impossível andar errante ao sabor duma fantasia inútil

Feita de sonhos estéreis e cometimentos inglórios.

Os meus lábios abrem-se para mais um desejo de sacrifício,

As minhas mãos estendem-se para mais um corpo chagado,

Os meus soluços traduzem-se em mais um cântico de esperança…

… E a língua salga porque anda cheia de mar

E o coração dá-se porque ama e sofre…

– Vida!: Sê toda minha!

Amanhã saberás que não foste a figueira brava tocada de esterilidade.

(de “Luz na sombra”)

Poeta e padre. Colaborou em “Cadernos do Meio-Dia” e  em “Árvore”. Obra poética: “Luz na sombra” (1946), “Alfa e Ómega” (1951), “A Vida Suspensa” (1953), “Invenção da Manhã” (1963). “Dizer, Amar” (1971) inclui os livros anteriores e o inédito “O Ciclo de Elsa”.

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