CARTA DE VENEZA – 62 – por Sílvio Castro

– “Portugal na 55°. Bienal de Arte de Veneza – 2013

 

 

 Enquanto as poderosas caravelas portuguesas do Renascimento jamais entraram na laguna de Veneza, indo na direção do Arsenale, sede do poder marítimo da Sereníssima República, o ferry-boat  “Trafaria Praia“ agora o faz. E o faz para transformar-se no Pavilhão de Portugual na complexa edição de 2013 da Bienal de Veneza concebida por Massimiliano Gioni.  O velho cancilheiro aposentado, o mesmo que por longo tempo percorreu em modo incessante as águas do Tejo, transportando gente e variadas coisas, neste momento está ali, diante de uma cidade efervecente de movimentos.

Chegado a Veneza, o ferry do Tejo se comporta como o

seu semelhante veneziano, o “vaporetto”, e se liga aos muros da parada diante da entrada da área central da Bienal, os Giardini, começando uma experiência que procura ligar duas cidades mundias, Veneza e Lisboa, através de uma exaltação de tantos valores comuns, como  as águas, a navegação, o ferry-boat.

 Sob uma criativa curadoria do crítico português Miguel Amado (1973) o “Trafaria Praia“ se transforma no Pavilhão de Portugal, provocando a maior curiosidade das centenas e centenas de visitantes da Bienal Internacional de Arte-2013.

 Joana Vasconcelos (1971) é a artista que dá vida à barca que flutua sempre, mas que, lá pela metade da jornada, se desliga do cais e percorre longamente o interior da laguna, passa diante da Praça de San Marco, penetra no Canal da Giudecca, indo até a Igreja do Redentor – uma das três igrejas construídas por Palladio para Veneza – depois virando e retornando ao ponto de partida para cumprir definitivamente mais um dia de acolhimento de seu público.

 Joana Vasconcelos, uma artista crescida na realização de uma arte que se liga às lições da abstração-concreta de um Marcel Duchamp e que se encontra presente nas mais importantes coleções públicas internacionais da arte contemporânea, transformou o “Trafaria Praia“ num diversificado espaço para o encontro entre os tempos os mais diversos de Veneza e Portugal. Na parte externa do ferry está pintada uma ampla cena num painel de azulejos que repropõem um “Grande Panorama de Lisboa“, desde a Torre de Bugio até aquela outra de Vasco da Gama. Diante da entrada da Bienal uma preciosa vista aquática de Lisboa encontra uma sua ótima representação. Mais uma vez, mesmo diante de um painel, o público não poder ficar indiferente à força representativa do azulejo lusitano.

 No interior do ferry, num amplo espaço, uma compacta série de tecidos pintados com magnífica variação de temas, todos eles recobrindo volumes concretos das mais distintas dimensões, mostram uma Joana Vasconcelos capaz de constante criatividade. Aos volumes vem acrescentada uma feérica, mas controlada iluminação. Tudo demostrando as raízes barrocas da artista que sabe transportar toda essa imensa tradição positiva, transformada em importante recorrência, à realização de um produto artístico tipicamente novecentista. E com este, Joana Vasconcelos recolega idealmente dois grandes centros mundiais, Lisboa e Veneza.

 Esta é a surpreendente resposta com que o Pavilhão de Portugal, presente na 55ª. Bienal Internacional de Arte de Veneza-2013, responde à complexa curadoria central de Massimiliano Gioni.

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