POESIA AO AMANHECER – 234 – por Manuel Simões

poesiaamanhecer

JOSÉ SARAMAGO

( 1922 – 2010)

SALMO 136

Nem por abandonadas se calavam

As harpas dos salgueiros penduradas.

Se os dedos dos Hebreus as não tocavam,

O vento de Sião, nas cordas tensas,

A música da lembrança repetia.

Mas nesta Babilónia em que vivemos,

Na memória Sião e no futuro

Até o vento calou a melodia.

Tão rasos consentimos nos pusessem,

Mais do que os corpos, as almas e as vontades,

Que nem sentimos já o ferro

Se do que fomos nos deixam as vaidades.

Têm os povos os fados que merecem.

(de “Poesia Portuguesa do Pós-Guerra”)

Para além de  romancista, o Prémio Nobel da Literatura iniciou a sua carreira literária como poeta: “Os Poemas Possíveis” (1966, 3ª ed. revista 1984), “Provavelmente alegria” (1970) e “O Ano de 1993” (1975). O poema transcrito é mais uma glosa do conhecido Salmo 136, o do exílio do “Livro dos Salmos”.

Leave a Reply