UMA HISTÓRIA – por Rachel Gutiérrez

Um Café na Internet

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                                                                          O mundo é mágico.

                                                                                                                                                                                                                                                                                                                     João Guimarães Rosa

 

 

Friedrich Gulda morreu”, contou-me o amigo antes do espetáculo começar. Fiquei tão abalada com a notícia que não  consegui  me interessar pela peça,  mas  foi só mais tarde, em casa, que me deixei habitar pelas lembranças. O rosto do pianista, nítido como uma fotografia,  suas estranhas sobrancelhas caídas, seus olhos miúdos e muito azuis, seu jeito de bruxo curvado sobre o teclado ao fazer os pianissimi da 111 de Beethoven, seu som inigualável e a exatidão rítmica, a elegância de sua mão esquerda ferindo vigorosamente os graves e, às vezes, como que regendo a mão direita. Voltou-me inteira uma cena em São Paulo, quando começou a Ondine de Ravel e logo a interrompeu porque havia esbarrado em uma nota  na  entrada da melodia, aquele belíssimo canto de sereia após os trêmulos aquáticos iniciais. Cuanto lo siento! disse, em alto e bom espanhol. Durante segundos, só o silêncio assustado da platéia. Então tocou magistralmente até o fim,  límpido, poético,  seu inigualável Gaspard de la Nuit. Lembrei ainda o  ciclo (completo!) das Sonatas de Beethoven, que ouvi em Porto Alegre e  a aura de magia que o circundava, sua tão precoce maturidade artística.

“Gulda estava com 68 anos”, disse o meu amigo. Não, Gulda tem 25 anos e eu ainda sou uma adolescente. Ele está no Rio, toca  outra vez Beethoven no Municipal  e eu vou ouvi-lo. Aplaudidíssimo, ovacionado!  Corro para a coxia e procuro o  seu camarim. É uma sala bastante ampla com móveis que lembram o estilo  Luís XVI. Ele está assinando autógrafos.  Procuro na bolsa uma foto minúscula, a prova de um retrato dele ao piano no Teatro São Pedro,  que um repórter amigo me dera em Porto Alegre. Entro na fila, comovida, e entrego-lhe a pequena foto quando chega a minha vez.  Gulda me olha surpreso, não muito cordial. De onde eu teria tirado aquele retratinho clandestino? Contrafeito, assina no verso.

 A cena está sendo apreciada por um misterioso senhor  de  capa de chuva e chapéu, coisa rara entre nós. Sorrindo, este vem até mim , estende-me a mão e se apresenta: Georg Wassermann. Em seguida,  pergunta com simpatia:

 – Você gosta muito dele, não é? E acrescenta  com seu forte sotaque austríaco:

– Gulda vai jantar em minha casa com Jacques Klein e mais alguns amigos. Você quer vir? Meu coração bate forte e eu …

–  Sim, com prazer! Obrigada!

 A casa ficava no Alto Leblon, ou em Ipanema,  não sei mais. Só lembro de um amplo jardim com arbustos exuberantes, tudo muito iluminado e  móveis de linhas modernas laqueados de branco. No interior, à espera dos artistas, naturalmente, um piano de cauda.

Depois do jantar assisti, encantada,  às brincadeiras de Klein e Gulda tocando jazz a quatro mãos.   Klein ainda tentou voltar às sonatas de  Beethoven, arriscando-se nos primeiros compassos da 111, mas Gulda só queria improvisar e brincar.

Eu não tirava os olhos dele. Mais tarde sentei-me ao seu lado, no jardim, e contei-lhe que pretendia estudar em Viena –  com o seu professor ,  o grande Bruno Seidlhofer . E para mostrar-lhe que já sabia alguma coisa de alemão, tentei recitar alguns versos da Nona Elegia de Duino, de Rilke :

 Erde, du liebe, ich will.

… … …

Namenlos bin ich zu dir entschlossen, von weit her.

 (Terra, ó minha amada, assim o quero.

…. … . …

De obscuras distâncias consagrei-me todo a ti.)*

 *tradução de Dora Ferreira da Silva

Não acredito que Gulda tenha reconhecido os versos. E se  reconheceu, provavelmente  os achou inadequados e mórbidos para aquela ocasião. Voltou-se para conversar com outra pessoa…

Nunca mais o vi , a não ser no palco,  naquele concerto em São Paulo nos anos 60.  Em Viena, Guldote, como o chamava sua única aluna Martha Argerich, não costumava ir a teatros ou concertos e raramente se apresentava em sua própria cidade.

De novo no Rio, revi, sim, Georg Wassermann, em concertos ou nos saraus em casa de Marco Aurélio Matos, onde aparecia com sua silenciosa esposa  japonesa e sua aluna predileta,  a pianista Velma Richter, de quem me tornei amiga desde então. Marco Aurélio, que possuía um extraordinário senso de humor, dizia que o austríaco tinha de carregar um triplo peso: o  de ser filho de um grande escritor; o de ter recebido de presente, em criança, um  patinete,  de Thomas Mann;  e  o de  ter visto muitas vezes,   entre os convidados de seu pai,  ninguém menos do que o poeta Rainer Maria Rilke.  Georg era filho do escritor Jakob Wassermann (autor entre  muitos livros  de  O enigma de Kaspar Hauser e de O caso Maurizius, grande sucesso do início do século XX ).

Passados muitos anos, quando comecei a pesquisa sobre  a vida e a obra da  mulher que encarna  o espírito da Belle Époque, onde se enraízam as origens da nossa  modernidade,  li em sua autobiografia que em Munique, em certa noite da primavera de 1897,  durante uma soirée de teatro , foi Jakob Wassermann quem  apresentou o jovem poeta Rainer Maria Rilke à Lou  Andreas – Salomé.

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