MINIBLOGOTEATRO – 6 – SOLO PARA COMPUTADOR – por Rachel Gutiérrez (II)

 

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SOLO PARA COMPUTADOR – II

MONÓLOGO EM UM ATO

Entra uma nova mensagem: o computador a anuncia.

Protagonista – Ah, meu amigo lindo! É você. Eu já estava preocupada. (Senta-se e começa a escrever, dizendo o que escreve.) Sim, obrigada. Estou bem. Só com saudades. (Com ela mesma, sem escrever) Não seria bom a gente dar um jeito de chegar na mesma hora naquele Ministério da Pouca Cultura e, finalmente, se conhecer ao som de um cafezinho? Ao som de um cafezinho! Estou maluca! Por que não? E o som das chicrinhas [xicrinhas], das colherinhas, cafezinho tem som… Mas era melhor como metáfora: não se brincava dizendo ao som de velas? Ah! Quando é que você vai vir para jantar, como um verdadeiro amigo, e aí, sim, ao som de velas, de boa música, um dos três pratos que eu sei fazer… ou não, mandava buscar alguma coisa pronta no Traiteurs de France… muito mais chic (pronuncia chic como francesa).

Essa coisa virtual me cansa, eu sou do tempo do abraço, do olho no olho, do som da voz com todas as suas sutilezas e nuances… Bom! Só vou dizer coisas amenas e (volta a escrever em silêncio, envia a mensagem e fala, agora voltada para a platéia [plateia]).

Protagonista – Onde estávamos? Ah, sim! Continuando a história: os restaurantes de Veneza estavam quase todos fechados naquela hora. (Continua lendo) “A noite fria e úmida não convidava muito a sair, mas o recepcionista do hotel havia indicado um restaurante ‘a poucas pontes daqui’ – (comenta) Oh! que maravilha se dizer simplesmente isto, “a poucas pontes daqui…”, e você saber que está em Veneza! “Era o Mário, ‘un buon ristorante!’. O marido achou que ia ser caro e rosnou qualquer coisa. Ela não deu bola e, pegando o casaco e a bolsa que estavam sobre uma poltrona, puxou carinhosamente o marido… Quando encontraram o restaurante, via-se logo que, no bom estilo rico italiano, era sóbrio e aristocrático, com dois tocheiros na porta de entrada, tinha uma escada em cascata, aquática, barroca, que descia para um elegantíssimo subsolo iluminado com luz baça. Sim, ia ser caro, pensou nervosa, mas disfarçando como pôde, deixou-se acomodar numa mesa de canto – mania dele! – para não se aborrecer. Ele olhou o cardápio no lado direito apenas e disse: – Não vou comer nada. Você, peça apenas uma entrada e um cafezinho. Depois, vamos logo embora! Horrorizada, encabulada, ela escolheu uma entrada, um rigatoni, e ainda insinuou: – Só uma taça de vinho… Mas ele, incisivo: – Não! Tome água mineral.

A tela do fundo mostra uma deslumbrante Veneza noturna.

E foi ali, naquele restaurante…”

O computador dá sinal de uma nova mensagem. Ela vai ler e se agita:

– Ah! Teresa, querida, minha “produtora executiva”! Será que a notícia é boa? …Qual nada! Só diz que já entregou nosso projeto a três possíveis patrocinadores. (Volta à posição anterior.)

– Continuemos! “Pois foi naquele restaurante, em Veneza, que a mulher finalmente se deu conta de que um homem incapaz de apreciar um bom jantar depois de ouvir Stravinsky no La Fenice de Veneza não sabe o que é viver, por mais inteligente que as pessoas pensem que ele seja… E foi ali…”

Toca o telefone. Ela atende.

– Não, não é aqui. Aqui não mora nenhuma Eulália!

Desliga e grita:

– Merda!

A cena escurece e recomeça tudo igual à primeira cena: ela chegando em casa, carregada – desta vez pode ser com compras de supermercado… , –cansada, desanimada, e faz os mesmos gestos mecânicos: pendura a chave num gancho, coloca os pacotes sobre uma mesa, joga a bolsa numa cadeira e liga o computador – e ouvem-se logo os sons que indicam o contato com a internet!

Protagonista – Cláudio, Cláudio… quais as novidades? NADA! Bom! Ao menos o meu namorado eletrônico… Como é? Também nada? Que é que ele anda fazendo que não me escreve há… (olha para o relógio.) Coitado! Escreveu ontem de manhã e eu acho que faz dias que ele não escreve!

Como é que o tempo muda e nos muda diante dessa coisa! A saudade se agudiza, a ansiedade se multiplica, tudo é tão… irreal! Irreal coisa nenhuma: neurótico! Sim, neurótico. E neurótico é pra lá de real!…

Mas bem que ele podia ter respondido à pergunta que eu fiz sobre o menos conhecido livro da Jane Austen. Um homem que lê Jane Austen devia ser canonizado… Não! Canonizado não pode… transar… E correspondente transa? Sua boba… Estamos na era virtual, as transas são por telefone! (Dá uma gargalhada e atira-se numa poltrona. Depois dos barulhinhos característicos da entrada na Internet.)

Protagonista – Vamos ver quais são as notícias. (Entra na internet. O computador faz os barulhos característicos.) Protesto contra o ministro da Fazenda, protesto contra a Polícia Federal… protesto contra a corrupção… e pedem a minha preciosa assinatura! Não vou assinar mais nada… pra quê?… Mas e o Cláudio? Nenhuma notícia! Nada! Nada outra vez! Como diria Cecília Meireles… é a intransponível demora!… E que demora! (Longa pausa e sofrido suspiro.) Peço (digitando) notícias urgentes: quantas empresas já foram contatadas? Quais responderam?

Como é que estamos? Bom! Essa já foi!

O computador dá sinal de entrada de mensagem.

Ah! Entrou uma cartinha… Simpática! (Sorri e logo depois faz cara feia.) – Só que outro namoro por computador, meu caro, não me interessa!

No computador não acontece nada! O que acontece é esse não-acontecer-nada cheio de ilusões teimosamente renovadas quando a correspondência recomeça… Mas hoje não! Não! (Desconecta a internet, apanha uns papéis e suspira outra vez.)

– Ih! Hoje estou tão mortal!… Mais velha… Meu aniversário ainda está longe, mas de repente estou mais velha. É! Envelhecer é isto: é mor-ta-li-zar-se! Ficar cada dia mais mortal. Não, não é apenas mais vulnerável, mais frágil… É literalmente mais MORTAL. (Longo silêncio. Muda de tom.) Ah! deve ser por causa desta espera. Vamos trabalhar! (Pega os papéis da mesa do computador, mas, de repente, recomeça.) Ou porque vi um programa na TV a cabo sobre o fim da nossa galáxia? Mas antes da galáxia, estamos acabando é com o planeta… Ah! Fernando Pessoa, e a sua (saboreando a palavra) ta-bu-le-ta, a tabuleta do vizinho da rua, da rua onde havia uma tabuleta, o dono da tabacaria! – a tabuleta da tabacaria! (Recita.)

“Ele deixará a tabuleta, eu deixarei versos.

A certa altura morrerá a tabuleta também, e os versos também. Depois de certa altura morrerá a rua onde esteve a tabuleta, E a língua em que foram escritos os versos. Morrerá depois o planeta girante em que tudo isto se deu!” – Ah! P’ssoa, P‘ssoa, que já sabias tudo, mas antes de ti, o homem do Fogo, o grande Heráclito, que já sabia que tudo passa, só não passa o passar… PANTHA REI. (no tom de antes) – Só não passa o descaso com a cultura, merda! Só não passa esta agonia de esperar o financiamento!

A cena escurece e se ilumina outra vez.

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