CARTA DE VENEZA – 63 – por Sílvio Castro

O Brasil na 55ª. Bienal de Arte de Veneza – 2013

O Pavilhão brasileiro dos Giardini da Bienal, mais do que nunca sofre de um problema, podemos chamá-la limitação, por nós tantas vezes denunciado nas muitas ocasiões de participação que tive com a Instituição artística veneziana: sua estruturação prescinde e algumas vezes se choca com as decisões do Diretor Geral da Bienal de Arte. Isto principalmente quando a curadoria central da

edição, como acontece com a presente 55ª., se baseia num projeto de ampla dimensão metodológica.
Por muitos anos, praticamente desde o início da década de 70, me integrei na vida das Bienais enquanto crítico militante. Tal integração resultou sempre de convites pessoais por mim recebidos para partecipar das reuniões preliminares da Comissão dirigente do Setor de Arte, no Palácio Giustinian. Então eu tomava conhecimento dos planos de ação para cada edição e procurava imediatamente transmiti-lo ao Departamento Cultural do Itamaraty, então órgão brasileiro delegado a organizar a possível representação nacional de cada momento. Nas minhas comunicações ao nosso Ministério do Exterior, em Brasília, eu então esclarecia o repetido perigo de total descontinuidade entre o Pavilhão estável do Brasil e o Pavilhão Central que traduzia as linhas de cada edição das Bienais. Assim fazendo, eu propunha ao Itamaraty de designar oficialmente um delegado brasileiro para acompanharssistir às reuniões formadoras das muitas Bienais, depois preparar um relatório que serviria a ele ou a outro qualquer crítivo que fosse nomeado como curador para a organização definitiva da representação do Brasil. Naturalmente, dizia que tal delegado deveria ser necessariamente um crítico de arte e propunha que esse poderia ser escolhido entre os membros da Associação Brasileira de Críticos de Arte – ABCA-, compartecipante da AICA – Associação Internacional dos Críticos de Arte, órgão oficial da UNESCO. Naquele período e por longo tempo, o presidente da ABCA era o crítico e historiador de arte, José Roberto Teixeira Leite. Naturalmente a minha partecipação às duas Associações eram uma realidade conhecida pelos dirigentes da Bienal de Veneza, bem como pelo setor cultural do Iramaraty. Mas a minha recomendação, repetida a cada nova Edição de Bienal, permaneceu sempre como uma autêntica pregação no deserto. Tudo isso se radicalizou ainda mais quando, a partir de determinado período, a responsabilidade de organização do Pavilhão brasileiro da Bienal de Veneza passou para a Direção da Bienal de Arte de São Paulo. Eu sempre louvara a modificação, porque naturalmene via nas magníficas perfomances da Bienal de Arte paulistana os números melhores para confluir não somente na escolha dos curadores, representantes e artistas brasileiros não somente para a Bienal veneziana, mas igualmente para todas aquelas outras de igual importância espalhadas pela Europa. Porém, nem mesmo então deixei de repetir sobre a necessidade de um delegado oficial brasileiro junto a Veneza, não necessariamente o próximo curador, no momento de cada nova preparação da grande festa artística veneziana. A resposta foi sempre muda, como se a Bienal de Arte de São Paulo não considerasse aquele um verdadeiro problema.

Mas o problema existia, como existe ainda hoje, e mais ainda exaltado positivamente pela grande conquista de Angola, uma das estreiantes na manifestação de Veneza de 2013 – como também o é o pavilhão do Vaticano – , que soube dar, pela sabedoria de seus dois curadores, uma lição de adequação às linhas do Pavilhão Central, e com isso conquistar brilhantemente o Prêmio de Melhor Pavilhão Estrangeiro da 55ª. Bienal. Trata-se de um excepcional testemunho do veloz progresso artístico e cultural que o grande país africano de colonização portuguesa soube dar-se, depois da Revolução dos Cravos, de 1974.

Em verdade, os resultados alcançados pela representação do atual Pavilhão brasileiro não colidem decididamente com as linhas gerais da curadoria Central, como acontece com a maioria dos pavilhões dos Giardini. A partir de um título que deseja ser igualmente definidor de uma linha condutora, a Insider/Outside, os curadores Luís Pérez-Oramas, Luis Terepins, mostram trabalhos de dois artistas contemporâneos, Hélio Fervenza e Odires Milászho que, em confronto com mestres de um passado recente como Lygia Clarck, Max Bill, Bruno Munari, formam um grande elo progressivo a partir do experimentarismo formal e diretamente artístico presentes no “Mőbius strip“, a estrutura estudada por Augusto Ferdinando Mőbius, em 1858. Porém, apesar de tudo, trata-se de muita arqueologia para a história da produção artística brasileira…

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