A HISTÓRIA PODE DAR ALGUMA AJUDA -XV – por Carlos Leça da Veiga

 

Uma voz que não deve esquecer-se,

 Para os eruditos portugueses cuja formação política tem vivido, em exclusivo, da leitura repetida, porém, não muito critica, dos textos que – e muito bem – interpretavam, explicavam e respondiam às terríveis tormentas sociais do século XIX, os actuais acontecimentos políticos e sociais que fazem sentir-se na vida portuguesa – não vá atribuir-se-lhes algum desvio “direitista” – continuam a ser entendidos e combatidos pela repetição, à exaustão, das cartilhas políticas com que as confabulações das organizações a si mesmo chamadas de esquerda, repetidamente, têm ajudado a dar cabo da cabeça dos portugueses mas, também, lamente-se, têm dado alguma ajudado no fantasiar pouco edificante da Democracia. Onde estará ela?

Soluções políticas autênticas e dirigidas, directa e imediatamente, às dificuldades dos Cidadãos, essas, ninguém consegue ouvir-lhes já que, na falta de compromissos políticos indubitáveis tudo quanto anunciam não passa duma retórica eivada de academismo ou, noutras vestes, dum ritual parlamentarista, Chega a pedir-se um entendimento político-partidário que, todos o sabem, de “motu próprio”, jamais, será possível.

Na verdade o que tem sido ouvido proferir às oposições é demasiado vazio de conteúdo, um tanto falho de exequibilidade, não dá conta duma qualquer obrigação política e social perante o eleitorado e, sobretudo, nada diz sobre o a revogação rápida e imprescindível da conduta predatória do neoliberalismo. Comprometem-se a uma imediata reposição da situação contratual dos aposentados e dos pensionistas?

Aos oposicionistas dos neoliberais fica a dever-se-lhes a ajuda à manutenção da legitimidade e do regular funcionamento institucional do “statu quo” político de Portugal, instalados, como estão, na comodidade indigna e substancialmente inútil, dos lugares mantidos em São Bento. O que fazem por lá que possa dar vigor político e continuidade aos brados populares?

O colaboracionismo político – e doutra coisa não se trata – esse, nunca escapará ao seu momento da verdade.

Embora seja irrefutável que na origem da situação político-social portuguesa, hoje como outrora, esteja bem instalada a prepotência sem limites, sempre presente e sempre em crescendo, dos possidentes nacionais, outros males políticos têm de acrescentar-se à lista da violência e da exploração económica que esses mesmos, bem amparados pela finança internacional, têm imposto aos portugueses.

Não há indicador económico que consiga iludir o assustador retrocesso do trem de vida dos portugueses. De verdade, quinhentos mil portugueses estarão a viver melhor que nunca; dois ou três milhões suportam, sem transtornos de maior, os custos de vida mas os que restam – não são poucos – sentem na pele, dia a dia, as agruras terríveis dum viver mais ou menos carenciado que a muitos, a muitíssimos, chega sem qualquer amparo, sem réstia duma qualquer esperança e que, desdita nacional – desdita inaceitável – no seu conjunto já inclui mais de dois milhões de pobres.

A avidez, em crescendo, custe o que custar, por toda a espécie de mais valias, quantas delas ilegítimas e ilegais – mas, também, a demonstração inequívoca de muitos receios políticos e doutros tantos judiciais – fazem com que os possidentes deste nosso País tenham procurado colaboração, abrigo e protecção em forças políticas com sede no exterior. Foi, e é, a OTAN; foi, e é, a União Europeia.

O fenómeno da submissão política aos ianques e às potências continentais europeias – à dos hunos em principal – retratam bem como, em Portugal, a classe social dominante não só paga bem o prato de lentilhas recebido mas, também, extremamente grave, por força da sua cupidez e avareza, sujeita-se a abdicar da Independência e Soberania Nacionais. Que, com isso, os portugueses sofram um vexame e inconvenientes de ordem vária, isso mesmo, é-lhes indiferente. A traição existe e, na realidade, já é indisfarçável.

A maioria coligada – mas não só – aceita, sem pingo de vergonha, antes porém, com manifesta satisfação, o poder despótico dos estados continentais do centro da Europa. Ao fazê-lo só fica responsável pela repetição do maior erro estratégico nacional como foi aquele cometido com a aceitação da ocupação castelhana. Para esse errar criminoso, nenhum dos doutrinadores nacionais – os epígonos do regime em curso – querem ter qualquer solução de recusa, não vá perder-se a protecção preciosa vinda do exterior cuja – é uma evidência – mantém-lhes um viver não só bem remunerado como, sobretudo, socialmente dominante.

Uma nação marítima, como é Portugal, não pode nem deve aceitar intimidades políticas comprometedoras, sobretudo multilaterais, com qualquer estado da Europa continental sem que, fruto desse gesto infeliz, consiga fugir a colher tempestades. A História, nunca deixou de confirmá-lo.

A fachada atlântica portuguesa, um bem inestimável, tem de considerar-se inexpugnável e, ponto assente, mantida a todo o custo sob controlo absoluto dos portugueses. Quem cobiça Sines, o único porto da Europa ocidental com águas profundas?

Exigem-se políticas inadiáveis e frontalmente antagónicas tanto da perda da Soberania Nacional como, por igual, adversárias decididas da ingerência prepotente dos hunos que, bem camuflada, com um desaforo constante, prossegue exercida, como tem sido, pela mão submissa e oportunista de Bruxelas.

Os transtornos consequentes dum abandono necessário e urgente da moeda única e, também, da multilateralidade política instalada na Europa – que só o terrorismo verbal dos neoliberais insiste em apontar e exorbitar – a ter de havê-los, não seriam maiores nem piores que os actuais mas, adivinha-se, seriam orgulhosamente assumidos e sustentados. Quase nove séculos de História com tantos contratempos já sentidos, porém ultrapassados, dão disso garantia.

Qual das correntes partidárias empenhadas – como dizem estar – numa política de esquerda é que não recusa, decidida e frontalmente, a inclusão forçada de Portugal na chamada união europeia. Todas elas – vergonha das vergonhas – estão presentes, no intitulado parlamento europeu onde vão buscar, para si, benefícios um tanto escandalosos e, para os portugueses, malefícios escandalosamente inaceitáveis.

Mais que repetidas reivindicações meramente sindicais dirigidas sempre a quem nunca nada retribuirá, aquilo que devia promover-se eram, muito activamente, as movimentações estritamente políticas e cometidas em favor da libertação portuguesa do jugo imperialista dos continentais do centro-europeu e das prepotências ianques consubstanciadas na doutrina absurda e muito velha do “Destino Manifesto”.

Será que essas organizações partidárias portuguesas, subsidiárias e subsidiadas pela dita união europeia – e que tanto gostam de fazer conhecer-se pelo seu acendrado democratismo – não conseguem reconhecer nesse organismo internacional federativo, um novo zolwerrein ou, talvez mesmo, um repetido anschluss? Na verdade, tudo tem estado a confirmá-lo e a união europeia, por agora, ainda é, tão-somente, um instrumento limitador das Soberanias nacionais. Leonid Brejnev, mesmo depois de morto, encontrou um espaço político para voltar a fazer doutrina!

A exibição fantasiosa, hipócrita quanto baste, duma anunciada solidariedade política entre os europeus ocidentais é, afinal, um disfarce da união europeia para com uma despudorada falta de democracia e o auxilio de todos os ardis da mais baixa política, melhor e mais facilmente, conseguir esmagar e colonizar os estados europeus mais débeis.

Que fazer?

Embora, nas circunstâncias políticas mais actuais não precise da ajuda duma qualquer inspiração para poder alcançar e defender a minha conclusão política, não será por isso que fujo a querer insistir que, nos dias que correm, a História pode dar uma ajuda cuja, neste caso e neste momento, será a que vem dum histórico que continua a ser figura ímpar e ilustríssima do republicanismo nacional

Há uns bons anos, em 17 de Junho de 1866, nasceu o Dr. António José de Almeida, um Cidadão fortemente empenhado na instauração da República Portuguesa e que, de Outubro de 1919 até Outubro de 1923, haveria de ser o seu sexto Presidente.

Sem que venha ao caso dar-se conta da sua biografia, muito menos do seu percurso político – a dum respeitadíssimo tribuno republicano – há um episódio do seu tramite parlamentar cuja repetição, nos dias de hoje, haveria de dar animo novo aos portugueses, sujeitos como estão, a uma ditadura ideológica construída, por inteiro, na assumpção das determinações neoliberais do capital alienígena.

No dia 20 de Novembro de 1906, na sequência duma ordem emanada pela presidência das Cortes, foi dada ordem de expulsão a dois dos, então, quatro deputados republicanos sob a acusação de ofensas ao Rei. Nessas circunstâncias o deputado Dr. António José de Almeida, no seu discursar de indignação frente a esse acto de retaliação política, ao dirigiu-se aos militares que procediam à expulsão dos seus companheiros de bancada, deixou dito para a História, “ Soldados, com a minha voz e as vossas armas vamos fazer a Republica, vamos fazer uma Pátria nova”.

Quem, dentro os parlamentares de agora, seria capaz duma tal tirada?

Vai ser fora do hemiciclo, no avolumar previsível das manifestações de rua, que as vozes dos indignados e revoltados acabarão por proclamar: “Soldados com as nossas vozes de indignação e de revolta mas, também, com a ajuda preciosa das vossas armas, vamos fazer uma Pátria nova”.

Se não forem as Forças Armadas, quem conseguirá salvar o País e a sua População dos abutres que a todos sobrevoam e atacam?

Conduzir manifestações para São Bento ou para Belém é o mesmo disparate que muitos fizeram ao enviar abaixo-assinados a pedirem ao Tomás que demitisse o Salazar! Quantos, ainda, lembrar-se-ão dessas fantochadas?

Se à mais alta hierarquia da magistratura judicial, como é constitucional, assiste, e muito bem, o direito legitimo de julgar a validade constitucional das leis, que razão haverá para que a mais alta hierarquia das Forças Armadas, que juram defender a Constituição, não tenha o direito e sinta a obrigação patriótica de fazer alto aos atropelos constitucionais, ao delapidar continuo dos patrimónios nacionais, ao roubo dos réditos privados da segurança social, á indiferença manifesta – um pilar da sua ideologia – da chamada maioria parlamentar pelo problema social dum desemprego de proporções catastróficas, à aceitação desumana da ditadura dos interesses económicos ditados pelos mercados, á constante ingerência alienígena na governação nacional e, limite inaceitável, á perda evidentíssima da Soberania Nacional.

Quem pode dar continuidade política à vontade de 87,6% dos portugueses que, pelo menos, ao contrário dos propósitos da maioria parlamentar, querem a renegociação da divida?

Apelar à intervenção das Forças Armadas é um gesto político correcto, com acerto democrático e, reconheça-se, claramente útil. Face ao desenrolar da vida política nacional só resta aos Cidadãos dirigirem-se a quem tem responsabilidades acrescidas frente aos Homens que fizeram o 25 de Abril e de quem, necessariamente, têm de sentir-se herdeiros.

Quem conseguirá esquecer essa data notável da História de Portugal sem que, no seu íntimo, deseje vê-la repetir-se?

Antes doutra coisa mais, é fundamental dar-se destino – pôr com dono – toda a corja instalada,

                                                                                   Lisboa, 6 de Julho de 2013

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