NOVAS VIAGENS NA MINHA TERRA – Série II – Capítulo 104 – por Manuela Degerine

Reflexos dourados

No dia 2 de julho a meteorologia promete o máximo de vinte e cinco graus, por conseguinte proponho a um amigo o retorno a Alpriate; marcamos encontro junto à Torre Vasco da Gama. Saio de casa antes das sete: Rua do Forno do Tijolo, Sapadores, Rua do Vale de Santo António, Santa Apolónia, Madre de Deus, Beato, Marvila, Parque das Nações. Duas horas de caminhada muito rápida.

Uma farmácia indica 15 graus, frescura animadora se não exata e, às oito e quarenta a cinco, quando nos encontramos, corre uma tágica aragem… Um tempo perfeito para as nossas peregrinações.

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Os cavalos continuam a pastar no seu prado, as pernaltas movimentam-se nas zonas húmidas, há ainda flores azuis, brancas, amarelas, mas os verdes diversificaram-se, vão do dourado ao quase negro. A terra secou e, estalando com a perda de humidade, desenha labirintos pelo chão. O rebanho que pasta entre o caminho e o paul tem agora um cordeiro; uma íbis carraceira anda por ali a espreitar. Após o vale vemos uma rapariga e um homem, talvez pai dela, ambos com aparência citadina, a mondar o milho verde; ao lado cresce um batatal, mais adiante há colmeias, a seguir foi plantado um pomar. Atravessamos pelo meio de um rebanho de bovinos que interrompem a pastagem – e até a ruminação – para nos mirarem. Em quatro anos este espaço passou de abandonado a produtivo e habitado… O vento agita as gramíneas, agora quase imateriais, quase só reflexo dourado. E alcachofras azuis alinham-se à esquerda do caminho. Desde o dia 30 de abril sinto uma felicidade intensa quando penso neste campo; a alguns passos de Lisboa. (Faço o esforço de não voltar com excessiva frequência.)

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Chegamos depressa a Alpriate, parece-nos, tal o prazer da caminhada num espaço tão bucólico com mochilas leves e uma temperatura clemente. Apenas o estômago – não as pernas – indica a passagem do tempo.

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