NOVAS VIAGENS NA MINHA TERRA – Série II – Capítulo 105 – por Manuela Degerine

Imagem1

Canícula

Acabamos o piquenique quando surgem dois italianos. Ele é alto, forte, ela baixa, miúda, aparentam cinquenta anos, mas dizem-se reformados; um bancário e uma professora de matemática. Só falam italiano, compreendem um pouco de inglês, ainda assim vamos conversar para o café. Implicam-se no voluntariado com deficientes, ele fazendo exercícios numa piscina para os ajudar a descontrair, a reaprender alguns movimentos; e ambos trabalharam em Calcutá no centro de acolhimento de Madre Teresa.

Vão para Santiago. Ora a meteorologia faz previsões acima dos quarenta graus nos próximos dias… Por ter atravessado o Ribatejo com temperaturas muito elevadas, tanto em setembro de 2009 como em outubro de 2011, sei o risco que eles correm. O Caminho de Santiago tem, por exemplo, antes de chegar a Santarém, um percurso de dez quilómetros através da planície, sem fontes nem sombras, duas horas e meia de transpiração abundante, permanente e portanto, por mais litros que levemos – uma água que escalda – não bastam para nos hidratar, para nos regular a temperatura do corpo. Os italianos não querem ouvir o que digo. Lembro que nada os obriga a caminhar aqui, podem apanhar o comboio, partir do Porto, região um pouco mais fresca, com mais fontes, com levadas, com ribeiros, com sombras; há até pedaços de caminho cobertos de vinha. Eles riem-se. Já percorreram o Caminho de Santiago e têm experiência suficiente. Pensam eles. (Um caminheiro é afoito, estóico, voluntarioso e acima de tudo: defende a sua liberdade.) Espero que, no dia seguinte, após a etapa de Alverca à Azambuja, eles tenham pensado duas vezes, no mínimo, antes de se lançarem ao caminho; mesmo partindo às cinco da manhã. Quando caminhamos ao sol vamos acumulando calor e, se a temperatura for superior a trinta, por mais água que bebamos e transpiremos, o corpo não consegue manter os vitais trinta e sete graus.

Em Portugal o Caminho de Santiago torna-se aprazível no fim do outono, no inverno e no início na primavera; os melhores meses costumam ser abril e maio por terem dias compridos, temperaturas ainda frescas, um pouco de chuva, certo, mas não demasiado contínua. No resto do ano a temperatura é excessiva para caminhar e há sempre incêndios: o risco máximo para quem atravessa florestas a pé. (Perguntarei daqui por um mês aos italianos como decorreu a viagem.)

Leave a Reply