Caro Paulo Rato
Considero a sua opinião crítica intelectualmente estimulante, porque permite um confronto de opiniões. Neste caso o confronto de opiniões pode ser positivo, embora neste meu comentário isso não pareça ser assim.
Começando pelo fim:
1ºQualificar o Comunicado do MDR como “ um curvar..respeitosamente” perante o discurso do PR leva-me a colocar as seguintes questões:
Concordar com alguém é curvarmo-nos ? Infelizmente este éum pensamento muito corrente, mas preocupante, conforme concluirei no fim!
A ser assim, então, por “precaução” (!) deveríamos à partida discordar de tudo e de todos, e só depois analisar as ideias e as propostas. Não é o que fazem normalmente o Bloco de Esquerda, o PCP ou a CGTP ?
Como é conhecido, o PCP discorda de toda e qualquer revisão constitucional, mas depois torna-se acérrimo defensor da constituição revista!!!
2º O facto de se discordar de alguém 99% das vezes significa que nunca será possível concordar? O que é exactamente um pensamento assim? Isso é o que fazem os fundamentalistas, em qualquer área!
O que é um fundamentalista nos dias que correm?!
É alguém que individualmente, ou em grupo, vive ou experimenta simultaneamente um sentimento de “revolta” e de “raiva”. A revolta pode serjusta, e nesse caso positiva nas suas consequências pelos contributos que pode dar para uma mudança indispensável. A raiva resulta de uma consciência, mais ou menos compreendida, perante uma insuficiência individual ou de grupo, uma incapacidade de estar noutra situação, noutro lugar, ou de atingir algo que outros alcançam, mas cujas causas são imputadas exclusivamente a outros, e que se tornam por essa via inimigos mortais. Mas é uma postura que normalmente se presta aos extremismos e absurdos. Raramente pode ter efeitos positivos
Esta mistura de revolta e de raiva encontramos em grupos religiosos ( não só islâmicos), em franjas sociais excluídas, étnicas ou outras.
A consciência social e política crescente, e que se generaliza, pelos menos em relação a determinadas causas sociais, leva-nos a falar na preocupação pela inclusão, mas não necessariamente apenas por causa da solidariedade como também do receio da reacção de quem se sente à margem e reage. Isto conduz a posicionamentos por vezes dúbios: por exemplo, somos a favor da liberdade de expressão, mas depois criticamos as reacções a que essa liberdade de expressão pode conduzir, como foi o caso relativamente aos cartoons que fizeram humor com o Profeta Maomé! Em que ficamos? Nestes casos o conjunto da sociedade pode ficar dividido, porque a liberdade de expressão para uns não deve ter mais valor do que a ofensa a valores de fé e consciência de outros.
Isto quer dizer que perante a reacção negativa e furiosa de milhares de islâmicos diante dos cartoonsde Maomé, nós entrincheirámo-nos atrás da liberdade de expressão. Em vez de debatermos os limites e as regras da liberdade individual de expressão num mundo cada vez mais interligado, optámos pelo mais fácil!
Na realidade, colocámo-nos num patamar de irracionalidadenão muito diferente daquele em que se registaram as manifestações em alguns países islâmicos, uma vez que colocámos esta forma de expressão da liberdade na categoria de um valor quase religioso e não sujeito a qualquer escrutínio!
Contudo, no fim do dia, tratou-se de uma atitude intelectualmente desonesta, e que se manifesta noutros domínios como se verá mais tarde.
Serve isto para dizer e enfatizar que no MDR deveremos esforçar-nos por agir e pensar um pouco fora da box, porque para pensar dentro da box já muitos e demasiados o fazem: os políticos, analistas e comentadores de profissão. Ou seja, ser igual ao que o País conhece seria, e é, o mais fácil.
Mas isto não quer dizer nem que o MDR se curva diante do PR, nem que concorda com ele em tudo. O que importa é saber se nesta comunicação ao País o MDR pode concordar no essencial, e se deve ou não manifestar isso.
Eu acho não só que deve concordar como manifestá-lo.
O MDR é constituído por pessoas normais que querem dar um contributo diferente para que as coisas mudem neste país, sobretudo em termos de funcionamento do sistema político, porque estamos maioritariamente de acordo que é o mau funcionamento do sistema político que limita o potencial deste país. O MDR não pretende apresentar nenhum programa de governação, mas contribuir para que os portugueses forcem a mudança nas leis eleitorais. Forçar, porque só dessa forma os partidos poderão ceder o passo à verdadeira democracia. Voltarei a este ponto no final.
E quando olhamos para os partidos, em nenhum deles, repito, em nenhum deles, se vislumbra um funcionamento interno que se possa dizer democrático e que sirva de exemplo. Nenhum deles é visto como exemplar pela maioria dos portugueses.
2º O PR esteve bem?
Claro que esteve, mesmo que discordemos dele no resto da sua acção!
Mas porque concordámos com ele?
Pelas razões, aliás simples, que invocadas no Comunicado.
O caminho sugerido pelo PR é suficiente para garantir o fim da actual crise política?
Claro que não! Mas o mérito do PR, se assim se pode dizer, é que ele colocou o problema nas mãos dos líderes dos principais partidos. Não são eles a dizer que não há democracia sem partidos?! Os partidos servem apenas para irem a eleições? E no meio delas o que são capazes de fazer?
E como os partidos estão habituados a esperar que sejam os outros a resolver os problemas, agora não gostaram da posição do PR. Os partidos – e os preguiçosos da política – agora encontram todas as formas de antecipar um falhanço da proposta do PR. Muitos desejam e apostam nesse falhanço! Mas há aqui também um outro equívoco.
Dizer como disse ontem José Sócrates( liisso num jornal de hoje), que esta iniciativa do PR vai falhar porque nem o PS está disponível para avalizar um corte de mais de 4000 milhões de € nas despesas do Estado, nem o PSD e CDS vão concordar com eleições antecipadas em Junho de 2014, é um exercício que exibe a competência e a dimensão intelectual daquele ex-Primeiro-Ministro. Explica porque ele não quis fazer nenhum acordo com a oposição! Isto é o mesmo que dizer que amanhã não vai haver sol porque há nuvens! É de uma densidade científica esmagadora!!
O facto do apelo do PR poder não conduzir a nenhum compromisso político não significa falhanço do PR no sentido da correcção e justeza da sua iniciativa. Se não houver acordo, as mentes rápidas dirão naturalmente que o PR falhou. Mas é um equívoco. Quem falha não é ele, mas os partidos. Esta constatação não é compreensível para muitas pessoas, porque parece constituir uma subtileza intelectual ao alcance apenas dos mais diferenciados.Contudo, é uma questão basilar.
Este é um problema que ocorre relativamente também à apreciação da Troika e da crise actual. Nem toda gente, a começar pela maioria dos comentadores, analistas e os que geralmente se ficam pela espuma das coisas, atinge que a realidade é muito diferente.
Dou um exemplo:
Quem tem uma ideia do que sucedeu na Islândia lembrar-se-á de que aquele país faliu em 2008. Isto é, declarou oficialmente que não assumiria os compromissos financeiros internacionais dos seus bancos.
Para quem não tenha seguido depois alguns dos desenvolvimentos subsequentes, refiro que a moeda daquele pais se desvalorizou mais de vinte por cento, o desemprego aumentou e o PIB terá caído nos dois anos seguintes mais de 12%. Lembro que a Islândia não faz parte do Euronemda União Europeia, e não teve nenhuma Troika a impor-lhe cortes nem a ajudar a sua banca.
Portanto, todo este processo resultou do seu ajustamento forçado, isto é, da sua descida à realidade interna e externa. Ninguém lho impôs sob a forma de um Memorando.
Perceba-seentão que quando nos atiramos à Troika estamos apenas a fazer um exercício de fariseismo, um gesto intelectualmente irrelevante ou até pouco honesto, e que serve para branquearmos a nossa realidade.
Com isto não estou a dizer que a Comissão Europeia e o FMI estejam totalmente correctos na terapêutica aplicada a Portugal. O que é ridículo é nós pensarmos que os nossos problemas radicam na Troika!! Mais do que ridículo isso é perigoso!!
O que o Memorando assinado iria produzir seria sempre, repito, sempre, uma quebra profunda no consumo, consequentemente no PIB e no emprego. Porquê? Meu Deus! Porque uma parte do nosso PIB e do nosso emprego nas últimas décadas só existiu à custa de crédito. Porque parte da riqueza que tivemos e consumimos foi tomada de empréstimo de outros e não criada internamente!
Um exemplo, para melhor fixar esta ideia, e que muitas vezes nem sequer nos passa pela cabeça: cada vez que nas últimas décadas uma obra pública derrapou ( e não vou escrever sobre isso porque seria um livro!), isso fez aumentar o nosso PIB! Isto é, quanto maior foi a desgraça na gestão e planeamento das nossa obras, melhor para o PIB!!!! Mas alguém pensou que isto um dia não teria que ser ajustado? E que foram dezenas de milhares de milhões de € desperdiçados, e que agora terão que ser pagos a quem os emprestou? Já se pensou nas consequências disto no desemprego, nos rendimentos disponíveis das famílias ?
Foi a Troika que criou esta realidade?
Eu não estou a defender a actual terapêutica, aliás tenho uma proposta diferente que publicamenteapresentei, em 2012, para a solução desta crise. O que eu não aceito é que me venham com demagogia sobre a democratização quando o que isso significa é branqueamento dos políticos e dos partidos no processo da actual crise, e fuga para a frente.
Como é óbvio, estou apenas a tentar expor o meu ponto de vista de que o tipo de discurso do Paulo Rato sobre democratização, sobre as falhas do PR, sobre a Troika, etc. têm apenas a ver com estereótipos, mas muito pouco com a realidade, e só ajudam a mistificá-la.
Quando o Paulo Rato qualifica o discurso do PR de hermético, paradoxal , pessimamente redigido, e delirante na proposta de negociações pré-eleitorais, eu confesso que não consigo perceber. É uma insuficiência minha.
A verdade é que os políticos que estavam à espera que a reconfiguração da coligação fosse validada podem encontrar todos esses defeitos, mas parecem ter percebido bem o significado do discurso.
Os que já esfregavam as mãos perante o cenário de eleições ( PS, PCP e BE),ficaram desiludidos. Pudera!
No entanto, o CDS e o PSD não mostraram publicamente azedume ( não o podem fazer) porque perceberam perfeitamente o alcance do discurso, e esse alcance não lhes agradou.
O PS não criticou fortemente o discurso porque o PR abre as portas a eleições antecipadas, seja em Junho de 2014 ou até antes se não houver entendimento entre os três maiores partidos.
Mas o PS tem consciência de que está numa encruzilhada. Não pode criticar o discurso nem embandeirar em arco. Se o compromisso falhar pela sua intransigência já deve ter percebido que após as eleições o espera uma descida aos infernos, por várias razões:
Em primeiro lugar, ou diz antes, e exactamente, o que vai fazer se ganhar as eleições e corre o risco de descrédito antes mesmo das eleições, ou se as ganha e não consegue que a Europa alinhe nas suas propostas, então depois não poderá ir pedir apoio aos outros partidos. E neste cenário será um inferno para o PS!
Sei que o comentário soa a sacrilégio, mas a posição do PR foi inteligente. Apressa a vida ( ou melhor a morte) a uns( PSD e CDS) , mas não oferece uma vida promissora ao terceiro ( PS). O PR foi tão inteligente como a maioria dos comentadores e politólogos foi “ BURRA” e ridícula !
Afinal, as suas análises eprevisões não são assim tão doutas, e foi aquele em que mais bateram ultimamente quem pôs a nu a sapiência dos nossos comentadores.
Penso que quem tem andado mais confuso são outros.
Hermético? Só quem não quer a solução da crise actual é que acha hermética a proposta de solução. Para o pessoal que se limita à cartilha da democracia é que a ida a eleições é que seria clara, aberta e transparente, pois servia para animar o País!!!!
Paradoxal? Tudo o que não acontece de acordo com as nossasprevisões é normalmente estranho ou paradoxal!
Proposta de negociações delirante? Sério é irmos para eleições como se a solução política e da crise viessem logo a seguir! Mas o Governo( do meu partido, por sinal) que precipitou ou acelerou o mergulho do País para esta crise não foi aquele que reduziu o IVA quando a crise se anunciava, e prometeu aumentos salariais quando a dívida continuava a subir, e não eraexactamente um governo com maioria absoluta?
Estamos à espera que a nossa democracia e os seus rituais conhecidos produzam agora algo de diferente? Julgo que foi Einstein que terá dito um dia que insanidade é alguém repetir os erros à espera que um dia dê certo! Sem um funcionamento diferente do sistema político a nossa democracia repetirá o mesmo tipo de resultados, se não for forçada a alteração do seu funcionamento!
3º Na cultura que se cristalizou entre nós, a afirmação individual e de grupo ( umpartido por exemplo) é muito mais fácil na crítica do que na concordância.
Quando criticamos estamos intuitivamente a pedir que ouçam ou leiam o que achamos sobre alguém ( uma pessoa, um partido , ou um governo) e esperamos nós próprios sermos avaliados positivamente.
Quando concordamos com alguém, estamos a atrair mais a atenção para algo que alguém defende, mais do que para nós! Mais, estamos a dizer que partilhamos e valorizamos algo que não é nosso.
O Paulo Rato viu todos os defeitos e perversão democrática na intervenção do PR e pelo caminho concluiu pela inutilidade do MDR.
Julgo que fez o mais fácil e óbvio! Mas não me parece que tenha acertado.
Não nos privilegiou com a sua visão de como se deve sair da actual crise política, económica e social, e que seja uma solução que possa ser abraçada pela maioria dos portugueses. Sim, porque uma solução eficaz terá que ser mobilizadora ,ou pelo menos compreendida e tolerada pelos portugueses, pois de contrário será uma brincadeira. Não acredito que o Paulo Rato esteja a brincar neste caso, mas seria interessante conhecer a sua visão sobre a solução, e não apenas a sua crítica.
4º Mas, façamos um pequeno exercício:
Deveria o PR ter aceite a proposta de reconfiguração da coligação e da remodelação consequente do governo? Alguns portugueses achavam que sim, porque haveria este e mais aquele ministro, blá, blá, blá! Ou porque os mercados acalmariam um pouco! O que diria o MDR? Aplaudia? Ficava indiferente?
Deveria o PR ter convocado eleições antecipadas? Claro que uma parte democraticamente relevante da população aceitaria. Mas a avaliar pelas sondagens a maioria dos portugueses não apontava para esse cenário! O que dizia o MDR? Aplaudia as eleições antecipadas? Porquê? Iam surgir mudanças como as que defende? Algum partido as iria incorporar no seu programa eleitoral?O BE, o PCP e o CDS nem sequer se dignaram receber o MDR!!!! Que campanha eleitoral iríamoster? Iríamos ouvir algum compromisso sério sobre a solução da crise? Ou iríamos entrar numa campanha de recriminações como as que temos tido?
O que se poderia verdadeiramente esperar? O Paulo Rato poderia dar-nos a sua visão?
O MDR revelou neste Comunicado a sua inutilidade?
Se for inútil não o será por estar de acordo com a posição do PR, mas por razões que se prendem com o que se disse atrás. O País está ainda numa fase em que a crise ainda só foi apenas sentida nos seus efeitos, alguns bem dramáticos quando pensamos na área social, mas não nas suas origens e nas suas implicações reais para muitos anos. Diria que para as próximas gerações.
O discurso equívoco de muita gente, de que o texto do Paulo Rato é um exemplo, apenas arranha a superfície dos acontecimentos, faz ruído, mas nada mais do que isso. O centro da questão permanece intocado, e isso só mudará quando a crise e o seu cortejo de desgraça atingir ainda mais milhões de portugueses.
Se prestarmos atenção aos debates na Assembleia da República percebemos quão longe estamos de uma posição responsável por parte dos partidos, todos, do CDS ao BE.
Os partidos, esses sim, tornam-se cada vez mais inúteis, servindo-se em primeiro lugar a si próprios.
A posição do Paulo Rato é compreensível, corresponde a um pensamento bastante generalizado, mas não contribui para nada de concreto. Lamento que o MDR o desiluda por este comunicado, mas julgo que se não fosse agora seria mais adiante.
Na sua fase inicial o MDR perderá mais aderentes do que conquistará novos, porque muitos dos que aderiram esperam o que não pode ser dado pelo MDR, nem agora nem no futuro.
O MDR será aquilo que conseguir transmitir aos cidadãos e despertar neles. Mas não será pela sua posição crítica sistemática sobre os actuais partidos. Isso é feito diariamente por outros , e com os resultados que estão à vista!
Os cidadãos é que serão os actores principais da mudança, e para os mobilizar ejuntar é preciso que nos entendamos no essencial.
E no caso em apreço, isto é, a intervenção do PR, o essencial não era nem a validação da coligação nem eleições antecipadas. Quem esperava uma destas duas coisas está hoje contra o Presidente. O que significa que estamos ainda em tempo de destilar raivas, ou deitar cá para fora frustrações e egoísmos, mas distantes de dias de alguma luz, de algum compromisso, em suma de mobilização nacional e patriótica.
São dias assim que muitas vezes levaram os portugueses a suspirarem por D. Sebastião, ou modernamente por um novo 25 de Abril, ou mais recentemente ainda por um novo Salazar. Alguém que nos governe, porque de contrário cada um puxa para seu lado.
Os argumentos de Paulo Rato são uma ajuda para aumentar a descrença dos portugueses em si próprios, e na própria democracia, porque nada adianta apelar a uma democracia que não oferece soluções quando os partidos colocam as suas agendas em primeiro lugar. Não vale a pena repetir eleições atrás de eleições à espera que se faça luz nos partidos. Isso não vai acontecer. Ou eles têm capacidade de assumirem compromissos patrióticos quando o País o exige, ou andam a brincar com a democracia!
O MDR deve submeter à validação dos portugueses um caderno reivindicativo a submeter aos partidos antes das próximas eleições legislativas. Se o conseguir, estará a cumprir uma tarefa importante, e a passar a bola para os partidos como agora fez o PR.
Tal como disse o PR sobre a reacção dos portugueses ao desafio agora colocado aos partidos, o MDR deverá dizer ao portugueses que julguem os partidos pelo seu compromisso eleitoral relativamente à alteração das leis eleitorais, e que os penalizem pela sua recusa em tornar o sistema político mais democrático. Isto é o que na minha modesta avaliação definirá a relevância ou não da acção do MDR.
Espero que o Paulo Rato avalie o MDR lá mais para a frente, e entretanto dê o seu contributo, sem perder a sua visão crítica.
Cumprimentos
Ventura Leite

CConfesso que li um pouco em diagonal o seu texto: no essencial, não me transmite nada de novo nem me leva a rever a posição que assumi.
No entanto, e não será por acaso, revejo-me em praticamente tudo o que diz, quando se refere ao modo como encaramos e vivemos determinados princípios, como o da liberdade de expressão: ainda são vários parágrafos de concordância.
O problema surge sempre quando cada um de nós tenta pôr em prática aquilo em que acredita.
Referir-me-ei, como exemplo, à banalizada (e puidinha) referência ao “imobilismo” do BE, do PCP e da CGTP. Tal surrada referência traduz a negação do direito de estas entidades serem coerentes nas suas ideias e nas análises que fazem de uma situação política e social que, por muito que custe a alguns aceitar, tem vindo a piorar paulatinamente, com a “condução” dos partidos do impropriamente (e anti-democraticamente, insisto) chamado “arco da governação”.
De facto, há quem, de fora, considerando-se dotado, por certo, de mui superiores capacidades intelectuais, se permita decidir que essas entidades têm de mudar as suas ideias e análises, pois o mesmo “quem” superiormente concluiu que a realidade, não só mudou, mas mudou num sentido que obriga a essa alteração, não admitindo sequer como possível que tenha mudado no sentido oposto, o que justificaria, precisamente, que se reafirmassem, com maior intensidade, ideias cuja validade saía reforçada e análises que nelas continuariam a apoiar-se.
Considera-se, pois, imobilismo a mera – mas rara, é certo – coerência, face à (legítima) deriva das ideias e análise de quem “considera”… É inegável que há aqui quem, talvez distraidamente, se assuma como detentor da Verdade Verdadeira, quiçá de divina inspiração!
Se essas entidades consideram que a origem dos problemas reside na degradação do próprio sistema político e económico; se nada do que sucede contribui para uma alteração da sua análise, bem pelo contrário; por que diabo hão-de deixar de continuar a opor-se ao que consideram estar errado? O erro corrige-se com a persistência nele? Ou torna-se menos grave com a continuação, porque a gente habitua-se?
Do mesmo modo, a referência pretensamente irónica à defesa, pelo PC, de sucessivos estádios de uma Constituição, sempre revista para pior, é uma falácia: o PC, não conseguindo, naturalmente dentro das instituições da democracia representativa, apoio para impedir uma má revisão, logicamente tentará impedir que nova revisão torne a Lei Fundamental ainda pior. Ou será que, se alguma potência estrangeira nos invadir, pelo Norte, e não conseguirmos conservar o Minho, somos parvos, burros e teimosos, se defendermos com unhas e dentes o resto do território e sempre assim procedermos, até ao último pedaço de terra e – como por cá sempre aconteceu – até à reconquista integral? O que me espanta é que tão pouca gente se aperceba da inconsistência de chavões deste tipo…
Em relação à CGTP, reconheço que é, de facto, uma chata, nunca percebe que as coisas evoluem e os direitos dos trabalhadores, adquiridos com greves, mortes, prisões (se não se portassem mal, não eram presos nem mortos..) e outros meios ilegalíssimos, desrespeitadores dos bons costumes e ó!… rrendos, são abusivos, perfeitamente dispensáveis e têm de se adaptar à necessidade de os empreendedores terem cada vez mais lucros (ou é mentira que, em plena crise, os mais ricos dos portugueses – para falarmos só de cá – conseguiram, decerto por milagre da Senhora de Fátima, ficar ainda mais ricos?), ao invés da UGT que, até agora, tem sido sempre responsável, subscrevendo obedientemente os Acordos de Concertação Social, cada vez mais desfavoráveis aos trabalhadores, “porque senão ainda era pior”. Acontece que analiso a tão fofa e prudente atitude da UGT da mesma perspectiva alegórica. Imaginemos que um invasor ameaça ocupar toda a Pátria, se não consentirmos em entregar-lhe “apenas” o Algarve: uma parte, mais responsável e realista, do exército, em nome de um mal menor, concorda, recuando as linhas de pretensa defesa territorial; no ano seguinte, o mesmo invasor exige a entrega do Baixo Alentejo: e a mesma parte do exército, talvez suportada pelo acrescido apoio de populações desmoralizadas, repete a heróica atitude antecedente; e por aí fora, já que o invasor se sentirá cada vez mais forte, animado com a “compreensão” de tais heróis… Enfim, tal como em França, em meados do século passado, valer-nos-ia que, a um compreensivo “regime de Vichy” se oporiam sempre uns chatos de uns tais “maquisards”…
Como vê, manter uma atitude efectivamente coerente com o que defendemos, recusando os preconceitos, as ideias feitas e as falsas evidências, não é tarefa fácil e exige uma atenção permanente.
Coerentemente, não passei a ter preconceitos em relação ao MDR. Analisei, não apenas o apoio dado à proposta do PR, mas o texto que o justificava e concluí, perante as provas recolhidas, que este movimento se confinava a um sector ideológico que nunca coincidirá com o meu. Terei expressado essa conclusão com alguma rudeza? Talvez. Desde sempre, muito humanamente, reagi mal a este tipo de desilusões. Situava o MDR numa faixa ideológica mais ampla e diversificada, que nunca conseguiria coincidir numa posição como esta. Enganei-me. E fiquei aborrecido, eventualmente com a minha ingenuidade. Mas não retiro nada do que escrevi. É importante saber com o que se conta e em que terreno, mais ou menos vasto. A dimensão do terreno em que passei a saber poder contar com o MDR reduziu-se substancialmente: só posso agradecer o acesso a tal afinação de conhecimento. E se, do meu ponto de vista, a proposta do PR é prejudicial ao País, é óbvia a conclusão de que a acção do MDR é inútil para reverter o caminho para o abismo que, deste modo – na minha opinião! – se intensifica. E foi o que transmiti.
Quanto às particularidades das nossas divergências, que expliquei mais longamente ao António Gomes Marques, em correio particular, a questão primordial é a de partirmos de bases ideológicas muito diversas, que influenciam decisivamente a análise da situação e a elaboração das medidas necessárias para reparar os danos, em cuja delimitação também, evidentemente, não coincidimos.
Mas nada acrescentaria a quanto já foi dito por diversos comentadores e cronistas, sem dúvida minoritários, mas não tão poucos como isso.