POESIA AO AMANHECER – 246 – por Manuel Simões

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  DAVID MOURÃO-FERREIRA

    ( 1927 – 1996 )

            É TERRÍVEL O VENTO

            É terrível o vento no planalto

            quando não é do vento que se trata

            Com plátanos à volta és um palácio

            Com sombra de pinheiros uma casa

            Mas se penso habitar-te nunca passo

            de navio solúvel dentro de água

 

            É terrível o vento no deserto

            se não vemos deserto que se veja

            Despertíssima assistes ao mistério

            da água que na água fica presa

            O brilho da platina é mais concreto

            quando a prata lhe pede que adormeça

 

            É terrível o vento nas campinas

            trazidas pelo mar aos seus domínios

            E atingimos as plagas mais antigas

            o palco dos desastres mais ambíguos

            E gritas  E não gritas  E suplicas

            por dentro da represa dos suplícios

 

            É terrível o vento na memória

            quando nos despegamos um do outro

            e quando na plateia está a morte

            seguindo atentamente o nosso jogo

            Ah  Como sopra o vento que não sopra

            que deixou de repente de ter boca

 

            É terrível o vento que no escuro

            nos marcou de antemão com algum número

            Mais terrível ainda no soluço

            com que nós aguardamos o seu gume

            É terrível  Terrível  Sobretudo

            quando não é ao vento que se alude

 

            (de “Matura Idade”)

Foi um dos fundadores das folhas de poesia “Távola Redonda” (1953-1954) e redactor de “Graal” (1956-1957). Foi director da “A Capital” e da revista “Colóquio/Letras”. Obra poética (entre outros títulos): “A Secreta Viagem” (1950), “Tempestade de Verão” (1954), “Infinito Pessoal ou A Arte de Amar” (1962), “Do Tempo ao Coração” (1966), “Matura Idade” (1973), “Entre a Sombra e o Corpo” (1980), “O Corpo Iluminado” (1987). Escreveu alguns textos para fados de Amália Rodrigues, como “Abandono ou Fado de Peniche”, “Madrugada de Alfama” ou “Maria Lisboa”.

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