Pergunta formulada por Júlio Marques Mota, que também fez a tradução da resposta.
Parte II
(conclusão)
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Face à urgência e à gravidade da situação, soluções boas e menos boas, foram projectadas. A de Nicolas Sarkozy, que queria fazer do FEEF um verdadeiro organismo de empréstimo ligado ao BCE, era uma ideia interessante. Fazer do BCE o último garante continua sem dúvida a ser a melhor maneira de acabar com os ataques especulativos contra a dívida soberana. Como escreveu recentemente Alain Frachon, “o Instituto de emissão ao poder criar moeda — é uma das suas funções —, torna os seus recursos, por definição, ilimitados. Se o BCE diz que será o refinanciador de última instância, isto dissuade a especulação. Os mercados ficarão calmos. Eles deixarão de estar a exigir taxas de juro exorbitantes para subscreverem a emissão de empréstimos de Estados mais endividados”. Este tipo de solução já foi comprovado nos Estados Unidos, onde o Federal Reserve (Fed) maciçamente compra títulos de dívida emitidos pelo Tesouro dos EUA. Infelizmente, a Chanceler Merkel com um simples movimento de mão afasta esta hipótese.
Agora florescem muitas ideias federalistas. É verdade que a moeda única já é um instrumento federal. Mas para que ela possa funcionar, terá que haver importantes transferências orçamentais para compensar a incapacidade de se desvalorizar. Será que alguém acredita que a Alemanha que já se opôs a essa outra ideia federal que eram os euro-obrigações, irá tolerar durante muito tempo estar a pagar para os seus parceiros? A sua reunificação custou-lhe caro. É ainda tanto menos provável que a República Federal concorde em pagar hoje para a Grécia, Itália ou Espanha assim como ela pagou para os seus Lander’s de Leste. Além disso, a Alemanha só pode ser sensível a deslocar-se para leste o centro de gravidade global. Assim, como nos diz Marie-France Garaud, “a inclinação para a Ásia é verdadeiramente patente, visível, sólida. Portanto, a Alemanha reencontra o seu tropismo histórico a leste”, e não quer mesmo preocupar-se mais com “os países do Club Med”.
A criação da nossa moeda europeia foi uma empresa irrealista, acompanhada por uma abordagem autoritária do nivelamento e da eliminação — ou mesmo de negação — das diferenças existentes entre os Estados-Membros. No entanto, o euro existe desde há dez anos e devemos aqui lembrar De Gaulle para quem não “ deve haver política fora das realidades”.
A realidade deve ela por tudo isto tornar-se um verdadeiro pesadelo? E será necessário prosseguir a actual política de remendos sucessivos até que o euro venha a explodir, deixando para trás uma Europa economicamente exangue? Deseja-se uma solução razoável e mediana e será isto ser-se eurocéptico?
Eis-nos pois chegados, parece-nos, ao fim das opções admissíveis para salvar o euro. Naturalmente, outras pistas são evocadas por economistas que, de Gérard Lafay a Jacques Sapir, desejam transformar o euro em simples “moeda comum”, válida somente para as transacções fora da zona euro. Esta solução mediana e razoável já retomada por alguns políticos exigiria no entanto uma forte vontade política, conduzida por líderes europeus sólidos.
A diferença em relação a uma moeda única? Permitir que os países com diferentes estruturas macroeconómicas possam amortecer os choques, ajustando de forma concertada a paridade das suas moedas nacionais. Ao mesmo tempo, manter o euro para as nossas transacções externas. Assim, pode-se de novo desvalorizar no interior da zona, continuando a pagar as nossas importações em euros. As dívidas soberanas também continuariam a ser denominadas em “moeda comum”, para evitar que a inflação as faça aumentar. Finalmente, em vez de forçar à saída de um qualquer Estado-membro, qualquer que ele seja, esta considerável flexibilidade permitiria, em vez disso, integrar na zona euro novas nações até lá muito fracas ou simplesmente relutantes. Tenhamos por certeza, pela nossa parte, que se trataria sobretudo da última maneira de ainda acreditar no euro e de poder ser optimista sem ser ingénuo.
Caso contrário e num momento em que vários países do continente trocam os seus representantes eleitos por banqueiros e outro “tecno’s”, onde o saber-fazer contabilístico substitui a legitimidade e onde as folhas de cálculo aparecem prontas para substituir qualquer visão política audaciosa, é muito improvável que um verdadeiro projecto alternativo possa estar em condições de ver a luz do dia.
Assim, nós iremos sair do euro, esgotados pelo rigor, pelas políticas de austeridade e desiludidos por termos estado demasiado tempo agarrados a um meio, (uma moeda), como se esta fosse um fim em si mesmo. Pelo facto de não termos sido outra coisa que não fosse os idólatras de novo bezerro de ouro, nós arriscamo-nos muito a sermos os penitentes de uma História que poderia muito bem ter continuado o seu curso sem esta realidade.
Coralie Delaume (tem um blogue (L’arène nue)), Euro: la mutation ou l’explosion- Moins on l’aime, plus il s’apprécie, disponível em www.causeur.fr/euro-la-mutation-ou-lexplosion,13241
Coralie Delaume, Crise de l’euro: la monnaie unique condamnée à disparaître?
Le Nouvel Observateur, 14 de Novembro de 2011 dispsonível em :
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A primeira parte deste texto saiu ontem, dia 18 de Julho, às 22 horas. Ver:
http://aviagemdosargonautas.net/2013/07/18/saida-do-euro-a-resposta-de-coralie-delaume/

