EDITORIAL – O DISCURSO PREVISÍVEL NO “PAÍS IMPREVISÍVEL”

Imagem2No País imprevisível, foi o discurso previsível de um presidente democraticamente improvável. Cavaco Silva é o avesso daquilo que durante a ditadura, com um presidente como Américo Tomás, esperávamos de um supremo magistrado da Nação logo que o sistema democrático imperasse. Cavaco Silva seria perfeitamente compatível com Salazar e talvez fosse ultrapassado pela esquerda por Marcelo Caetano. Ontem, na sua declaração ao País, gastou uma boa parte do tempo a explicar por que é que a sua proposta para ultrapassar a actual crise seria a solução «melhor numa perspectiva imediata e num horizonte de médio prazo». Se aceitarmos as condicionantes, se validarmos as premissas do silogismo em que a direita encerra o seu conceito de democracia, naturalmente, o presidente tem razão. Mas…

Embora «Um acordo entre as três forças políticas reforçaria a nossa capacidade negocial» e «melhoraria as condições de crescimento e emprego», sendo útil para mostrar um país com “estabilidade política” à Europa»… embora tudo isto fosse verdade se os partidos do chamado “arco do poder” tivessem como objectivo o bem dos cidadãos, a estabilidade da democracia, essas figuras de retórica que ornamentam discursos, mas que todos sabemos não passsarem de adereços sem significado prático. E Cavaco Silva, que encabeçou governos ruinosos e que destruiram a  frágil estrutura democrática herdada de Abril, bem sabe que assim é. Bem sabe que, competidores pela posse do poleiro de onde se distribuem empregos e se organizam cambalachos, nem seis dias, nem em seis anos, PSD e PS chegariam a acordo. Não sabemos a que sementes o presidente se refere nem em que futuro irão frutificar. O PS quer as eleições que lhe permitirão ascender ao desejado poder. O PSD só sairá à força – e o presidente parece ter a sua sorte ligada à do seu partido. Partido que tem protegido ultrapassando os limites do que é razoável. Toda a aparente lógica da comunicação presidencial, assenta em pressupostos que nada têm a ver com a reaalidade – este governo, este presidente, em nada se relacionam com os princípios democráticos .

 Em democracia «existem sempre soluções para as crises políticas» é uma afirmação bem sonante, mas falsa – certas democracias envolvem-se em crises políticas cuja porta de saída deita para ditaduras. Que eleições antecipadas não são solução para os nossos problemas é verdade. Embora numa situação semelhante, com José Sócrates, Cavaco Silva tenha pensado de forma diferente. As eleições antecipadas, muito provavelmente, porão António José Seguro na frente do executivo. O que é tudo menos tranquilizador. É espúria a esperança da esquerda em eleições – o que ganhará a democracia se as representações parlamentares de PCP e BE forem ligeiramente aumentadas?

 Também somos da opinião de que Portugal é um país governável. Mas não por este governo nem com este presidente da República. Nem com os que, seguindo a lógica instalada, presumivelmente os substituirão. Com estes actores, a farsa continuará – agora com o governo a «solicitar à Assembleia da República uma moção de confiança». E com a ameaça esfíngica de que o presidente da República «nunca abdicará de nenhum dos poderes que a Constituição lhe atribui».

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