SOBRE “A ILHA DOS NÁUFRAGOS” DE LOUIS EVEN – por Júlio Marques Mota

Aceitei num momento um pouco complicado, à beira de férias,  fazer uma análise comentada da Ilha dos Náufragos, versão oposta, e de que maneira, às teses neoliberais do livro de Daniel Delfoe, a Ilha de Robinson Crusoé. Tomando como referência  estas duas  obras não poderei deixar de dedicar os trabalhos desta peça a todos os homens e mulheres que enquanto meninos e meninas  nem dinheiro, nem tempo,  nem disposição, nem conhecimentos,  tiveram para lerem estes livros “infantis”,  ou outros.

Li agora o texto a Ilha dos náufragos de Louis Even e considero que não precisa de comentários especiais. Seria de resto uma aventura bem perigosa, pois ao nível de exposição a mais simples possível  a que o texto se situa,  ser ainda mais simples exigiria saber bem mais que o próprio autor, o que de modo nenhum é este o caso.

Optámos por uma hipótese bem melhor, procurar em Louis Even textos que nos dêem a partir das noções expostas de forma primária em A Ilha dos Náufragos, uma melhor compreensão da realidade actual.

E para isso tomámos como  base o seu texto de referência ,  Sob o signo da abundância e é inegável  com muito prazer que em dada altura podemos aí ler:

“Quanto ás  barreiras puramente financeiras, estas deixariam de existir . Do endividamento para com os  investidores estrangeiros para as coisas que se  podem fazer no  próprio país, esse absurdo deixaria de existir . Os preços a subir quando a produção se torna mais fácil e mais abundante, esta contradição deixaria de ter  lugar com uma  organização monetária obrigada, pela lei, a fazer dos aspectos financeiros da economia, o reflexo  exacto da realidade. A procura de novos postos de trabalho, à medida em que a  máquina fornece produtos ao invés de homens, esta política absurda seria a história de um passado de submissão a um monstro. O desperdício astronómico feito com a   produção de coisas desnecessárias para as  necessidades humanas normais, com o único propósito de fornecer emprego, seria banido como uma falta de responsabilidade para as gerações que nos devem suceder.

E mil outras coisas ainda, com a imposição de um poder monetário de serviço e com o desaparecimento do regulamento insuportável que quer ligar o rendimento  apenas ao emprego, enquanto que o primeiro efeito de progresso deve ser o de querer  libertar o homem de tarefas económicas para lhe permitir entregar-se  livremente a actividades menos  materiais  e de maior enriquecimento cultural “.Nada distante de Marx, portanto, do Manifesto, sobretudo.

Aqui vos deixo a entrada para o seu livro, e mais ainda,  aqui vos deixo alguns excertos dessa apresentação:

  1. “a colecção em torno de O  crédito Social encontra o seu maior interesse enquanto que a cena política  e económica  do nosso país se vai tornando cada vez mais escura . Sobre as ruínas do comunismo, ocupadas por pessoas colocadas fora do  colapso do sistema, sobrepõe-se   uma vaga ela tão destrutiva  de  pós-modernismo vinda do  Ocidente, o capitalismo selvagem que rouba as pessoas e que se quer apropriar  do  poder e do dinheiro, não para a nação, mas para alguns deles sem escrúpulos. O Estado reduz-se cada vez mais  ainda mais, e os  poderes internacionais do  dinheiro tornam-se mais fortes. Portanto, o poder do Estado diminui continuamente para  benefício das forças de mercado”…

Não nos parece portanto que haja grande diferença entre a Polónia a ser assaltada por um capitalismo selvagem, global, sem rosto, sem pátria e o que se passa agora na Europa, sob a tutela de Bruxelas, Frankfurt e Berlim.

2.

“Pode-se dizer que a nossa nação se tornou semelhante ao “gigantesco desenvolvimento  da parábola bíblica do rico que festeja  e do pobre Lázaro. A magnitude do fenómeno envolve estruturas e mecanismos financeiros, monetários, produtivos e comerciais que, apoiados em diversas pressões políticas, regem a economia mundial: eles são incapazes de absorver as injustiças herdadas do passado e de enfrentar os desafios  urgentes e às exigências éticas do presente. ” (João Paulo II, RedemptorHominis, n. 16.)”

3.

Os banqueiros, que têm o poder de criar dinheiro; são os únicos depositários e gestores do capital financeiro e regem o crédito e administram de acordo com os seus próprios critérios. Eles querem nos levar até ao ponto onde, durante metade do ano, vivamos com este  crédito e a outra metade, a trabalhar  para pagar os impostos.

“Por aí,  de alguma forma eles distribuem o sangue para o corpo económico se que eles têm a vida  nas suas mãos se bem  que  sem  o seu consentimento  nenhuma pessoa já pode respirar”. (Pio XI, encíclica QuadragesimoAnno, n. 106.) “O Estado… caíu   na para a situação de escravo  e torna-se o instrumento dócil de todas as paixões e todas as ambições de interesses.” (QuadragesimoAnno, n. 109)

O poder do dinheiro ou, por outras palavras, o poder dos financeiros  internacionais, assenta  na ignorância do povo. Os financeiros  perderão o seu poder  somente quando as pessoas descobrirem as suas vigarices. O Estado reencontrará então a sua força, e a sociedade como um todo ir-se-á tornar cada vez mais forte . A força política provém da força pública . “

A partir daqui apresentaremos a introdução ao livro de Louis Even e depois alguns dos seus principais capítulos. Curiosamente, uma coisa é para nós certa, muitos dos princípios por aqui apresentados são hoje defendidos por muitos dos economistas que se opõem à morte lenta e trágica  a que a Europa está a ser submetida, e fazem-no sem qualquer conotação religiosa.

Boa leitura, portanto.

Coimbra, 22.07.2013

Júlio Marques Mota

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