ÁNGEL CRESPO, POETA DE LÍNGUA CASTELHANA E TRADUTOR DE PESSOA – por Carlos Loures

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Já aqui falei de tradutores e do que representam na difusão de obras literárias. Do papel discreto que devem assumir – como um vidro limpído que ao interpor-se entre a língua de partida e a de chegada não adultere, não piore, não melhore… Fernando Pessoa é um autor fulcral da língua portuguesa e teve como tradutor para o castelhano um poeta de elevada qualidade – Ángel Crespo.

Ángel Crespo nasceu em Ciudad Real em 1926 e morreu em Barcelona em 1995, conhecido no mundo das letras, dispensa grandesImagem1 apresentações, foi um poeta castelhano que traduziu para o seu idioma uma boa parte do nosso Fernando Pessoa – Poemas de Alberto Caeiro, Madrid: Adonais, 1957; El poeta es un fingidor (antología poética), Madrid: Espasa Calpe, 1982..Libro del desasosiego, Barcelona: Seix-Barral, 1984. El regreso de los dioses, Barcelona: Seix-Barral, 1986.Cartas de amor a Ofelia, Barcelona: Ediciones B, 1988; Fausto, Madrid: Tecnos, 1989. Mas traduziu outros escritores portugueses e brasileiros – <joão Guimarães Rosa, Gran Sertón: veredas. Barcelona: Seix-Barral, 1963.Antología de la nueva poesía portuguesa, Madrid, Rialp, 1961.Ocho poetas brasileños, Carboneras de Guadazón: Antología de poesía brasileña, Barcelona: Seix-Barral, 1973. Dinis Machado, Lo que dice Molero, Madrid: Alfaguara, Antología de la poesía portuguesa contemporánea, Madrid: Júcar, 1982. António Osório, Antología poética, Zaragoza, Olifante, 1986.

Quando o conheci era já um poeta consagrado, com uma dúzia de livros publicados – encontrámo-nos nas voltas da política, ambos implicados na luta contra as ditaduras que, os Aliados se tinham esquecido de varrer da nossa Península – traduzira já o Caeiro. Marxista na política, recusava a estética marxista, mas escrevia uma poesia que não agradava lá muito aos estetas do franquismo. Quando em 1960 lhe pedi um poema para a Pirâmide, logo enviou  um inédito que, presumo, terá depois incluído numa das suas colectâneas – Voime yendo.

Em 1962 fundou a Revista de Cultura Brasileña, patrocinada pela Embaixada do Brasil em Madrid onde deu a conhecer aos leitores de língua castelhana os aspectos mais vanguardistas da cultura do Brasil. Fomo-nos correspondendo. Em 1967 convidado pela Universidade de Porto Rico foi para aquele país onde ficou ensinando Literatura Comparada. Não voltou até a ditadura cair em Espanha, em 1975. Mas só em 1988 regressou em definitivo. Instalou-se em Barcelona e ocupou o lugar de Professor Convidado na Universidade Central, sendo depois nomeado Professor Emérito na Pompeu Fabra. Em 1990 ou 1991, encontrámo-nos por acaso na Liber em Barcelona, a feira de livros espanhola – um colega editor, apresentou-nos com alguma cerimónia e ficou muito surpreendido quando nos viu abraçar-nos e tratarmo-nos por tu. Prometemos visitarmo-nos e escrevermo-nos. Coisa que não fizemos. Poucos anos depois soube da sua morte. Conservo, entre outros livros seus, um pequeno opúsculo   – Versos de Alcolea – Na dedicatória, excluindo as referências a um livro meu que lhe enviara, pôs Para Carlos Loures (…), con la luz de la amistad... “Com a luz da amizade”, passou a ser uma fórmula que uso com frequência nas minhas dedicatórias. Pequena homenagem que presto a Ángel Crespo.

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