Nestas divagações, que irei interromper em Agosto, tenho aflorado a questão que Antonio Gramsci aprofundou na sua obra Gli intellettuali e l’organizzazione della cultura- o tema dos intelectuais e da organização da cultura de que cada tipo de sociedade necessita. Há uma conclusão a que Gramsci chega e que é capital – a de que todos os homens são intelectuais (Homo sapiens), embora nem todos desempenhem na sociedade a função de intelectuais. O que transforma a classificação dos trabalhadores em “intelectuais” e “manuais” numa falácia. Falácia que vem da noite dos tempos – os feiticeiros tribais, cujo poder se acentuou no Neolítico, teriam já essa função de “explicar” o mundo à luz dos interesses instalados, função que seria assumida pelos eclesiásticos medievais em benefício da aristocracia fundiária. E, no Portugal de hoje, os intelectuais dos partidos do “arco do poder”, como funcionam?
Tenho seguido com alguma atenção o percurso da revista Finisterra onde parece sobreviver o que de mais válido subsiste no Partido Socialista – os seus intelectuais. Para mim constitui um mistério é o facto desses intelectuais conseguirem conciliar a sua lucidez com a permanência num partido onde, com o clientelismo em todo o seu esplendor, imperam raciocínios rasteiros, que funciona como agência de empregos e plataforma de negócios obscuros. Um partido ligado à teia mafiosa que o bloco central teceu. Um partido cuja figura tutelar, comprometida com o neoliberalismo e que lhe abriu a porta, se faz agora surpreendida pelo facto de o monstro que deixou fugir da jaula, semear a miséria. Como pode haver quem escreva textos que demonstram uma capacidade de raciocínio invulgar na classe política e permanecer ligado a um circo comprometido com tudo o que condena? Não perco a esperança de que um dia saiam com ruído, gritando a sua razão. Ainda mais correcto seria reivindicarem a posse da marca PS e expulsar os usurpadores.
No PSD as contradições são menores, pois prevalece a cultura do poder que trouxe do partido único da ditadura – é um partido que pode ser acusado de muitas coisas, menos de ter alguma vez produzido um discurso que valha a pena ouvir. Francisco Sá-Carneiro não nos deixou uma página que mereça ser lembrada – apenas demonstrou o raciocínio táctico, de um político hábil induzido pelas circunstâncias políticas. Cavaco Silva, o político mais em foco, é de uma pobreza chocante; Durão Barroso, um vácuo pastoso e formal. E José Pacheco Pereira? Tal como os homens da Finisterra nada tem a ver com o partido a que pertence. Como é que se compatibiliza tanta capacidade de análise para o exterior e tanta miopia para a pobreza de espírito que o rodeia? O CDS não justifica qualquer comentário. Mas voltemos à Finisterra.
Neste número recentemente publicado, entre textos muito interessantes de Guilherme d’Oliveira Martins, Paulo Ferreira da Cunha, Fernando Pereira Marques e de outros, destacamos o artigo de Eduardo Lourenço, director da revista – A América e Nós . Uma análise de uma grande acuidade sobre a sociedade norte-americana, sobre as causas profunda das singularidades de uma potência que continua a ser perspectivada pela Europa; a mentalidade europeia conduzida às últimas consequências.
Finisterra – revista de reflexão e crítica: A reflexão é límpida; a crítica nem por isso.