NO 84º ANIVERSÁRIO DE JOSÉ AFONSO, RECORDA-SE A 1ª EDIÇÃO DE “CANTARES” – por MANUEL SIMÕES

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MEMÓRIA BREVE DE CANTARES: MANUEL SIMÕES   Prefácio às 3ª e 4ª edições 

Cantares, de José Afonso, publica-se exactamente em 1966 e caracteriza-se, desde logo, por uma dupla novidade cultural: representa, em termos absolutos, aImagem1 primeira recolha de textos cantados por esse grande renovador da expressão musical portuguesa; e o primeiro volume da que viria a ser uma colecção histórica (a «Nova Realidade», de Tomar), antecipadora, em certo sentido, de algumas iniciativas corajosas que foi possível avançar antes de 1974: recordem-se, entre outras, as antologias poéticas Hiroxima (1967) e Vietname (1970) e a primeira edição de O Canto e as Armas (1967), de Manuel Alegre.

A ideia de reunir em volume as canções de José Afonso nasceu no âmbito do grupo da pastelaria Sírius, da rua da Sofia, em Coimbra, onde chegavam ecos da colecção projectada em Tomar. Foi o Rui Mendes quem a lançou, com o ar de coisa espontânea, mas sentia-se que se tratava de um plano arquitectado e cultivado há algum tempo, à espera de concretização. Pedido o consenso ao autor, então a leccionar na Beira, em Moçambique, a quem se tinha mandado, para eventuais correcções, a transcrição dos textos gravados a que era possível ter acesso, a sua plena adesão ao projecto constituiu uma motivação ainda mais encorajadora, sobretudo pelo envio de materiais inéditos, só mais tarde revelados entre nós, o que significava uma sintonia de opiniões quanto à validade da proposta e quanto à autonomia poética dos textos, recebidos e “actualizados” pelo leitor com a sobreposição da parte musical, desse som inesperado e puro que irrompia contra o artifício de uma tradição diluída por anos e anos de usura cultural. Tal como se exprimiria mais tarde José Afonso com a transparência e a limpidez que lhe eram habituais: «Designei as minhas primeiras canções por baladas […] para as distinguir do fado de Coimbra que comecei por cantar e que, quanto a mim, atingira uma fase de saturação».

Recordo aqui, já agora, que a «Nova Realidade» voltou a propor os poemas de Cantares, juntamente como novos textos, no volume Cantar de Novo (1971), livro que inclui um estudo do poeta e crítico António Cabral, porventura um dos melhores ensaios que se escreveram sobre os arquétipos e os processos criativo-estilísticos das canções de José Afonso. Cantares, ficará, porém, como o limiar de um processo, como o livro que faltava, fórmula depois transposta por outros editores para reapresentação do próprio José Afonso. Talvez por isso António Cabral o tenha definido como «livro comovente», expressão que, a esta distância temporal, adquire uma valência de impacto ainda mais emotivo até pela dimensão maior do saudoso cantor.

A primeira edição, correspondendo à fase artesanal da «Nova Realidade» (a mais estimulante e rica de experiências pelo contacto directo com o leitor), foi vendida de mão em mão esgotou-se num curto lapso de tempo. O texto de Rui Mendes, previamente anunciado, extraviou-se algures e só saiu na segunda edição, em 1967; com a evolução do tempo, a semântica do gosto e da legítima insatisfação do criador artístico, ei-lo agora reescrito, numa versão que, segundo o poeta, está mais de acordo com as intenções do seu discurso, já naquele momento.

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AFONSO, jOSÉ     –   CANTARES Coordenação e textos de Manuel Simões e Rui Mendes; 1ª e 2ª edições, Nova Realidade, Tomar, 1966 e 1967  

–  3ª e 4ª edições, Fora do Texto, Coimbra, 1994 e 1995

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