Espuma dos dias — O que está por trás das recentes manobras de cessar-fogo de Zelensky? Por Lorenzo Maria Pacini

Seleção e tradução de Francisco Tavares

5 min de leitura

O que está por trás das recentes manobras de cessar-fogo de Zelensky?

 Por Lorenzo Maria Pacini

Publicado por  em 7 de Maio de 2026 (original aqui)

 

 

A guerra na Ucrânia entrou numa fase em que as tréguas já não se assemelham a uma ponte para a paz, mas sim a um campo de batalha paralelo.

 

Uma Trégua Táctica?

A guerra na Ucrânia entrou já há algum tempo numa fase em que as tréguas já não se assemelham a uma ponte para a paz, mas sim a um campo de batalha paralelo.

As palavras “cessar-fogo” já não evocam apenas o silêncio das armas: servem para medir o equilíbrio de poder, para testar os nervos, para produzir imagens e para impor interpretações políticas. Neste contexto, a proposta de trégua anunciada por Volodymyr Zelenskyy entre 5 e 6 de Maio de 2026, não deve ser interpretada como um mero gesto humanitário, mas como um movimento estratégico dentro de uma guerra que também está a ser travada na frente simbólica. Anteriormente, o presidente ilegítimo ucraniano tinha repetidamente feito com que as suas tropas violassem sistematicamente as tréguas que a Federação russa havia declarado nos feriados, razão pela qual a trégua deste mês parece altamente suspeita.

O gatilho, talvez, foi o calendário, não a paz. Moscovo anunciou um cessar-fogo de dois dias para 8 e 9 de Maio, coincidindo com as celebrações da vitória soviética na Segunda Guerra Mundial; Kiev respondeu adiantando a sua própria pausa em quase três dias, alegando que não havia recebido nenhum pedido oficial do lado russo e acusando o Kremlin de usar o cessar-fogo como cobertura de propaganda. Só isso é suficiente para deixar bem claro: não estamos a tratar de uma iniciativa neutra empreendida em prol do povo e dos seus soldados na frente, mas de um contra-movimento numa guerra de legitimidade em que Kiev se encontra encurralada em termos de credibilidade internacional.

A interpretação mais simples é também a mais incómoda: um breve cessar-fogo pode permitir a Kiev reorganizar as suas tropas, munições e cadeias de abastecimento sem ter de o admitir abertamente. Este ponto de vista está a circular entre analistas e observadores que vêem o cessar-fogo temporário não como um passo em direcção a um compromisso, mas como uma pausa operacional útil para recuperar o fôlego, realinhar as unidades e reduzir a pressão sobre as linhas de frente. Para ser honesto, esta não é uma ideia rebuscada, porque numa guerra de atrito, toda suspensão do fogo é também uma suspensão das despesas relacionadas com a guerra.

A contra-interpretação, no entanto, é igualmente sólida a nível político. Kiev afirma ter respondido a uma trégua russa percebida como manipuladora, apresentando-se assim como a parte “razoável” pronta para o diálogo, enquanto Moscovo parece estar a usar aniversários históricos para proteger a imagem do poder e o público do desfile. Por outras palavras, Zelensky não está apenas a procurar uma pausa, mas está a tentar ancorar o Kremlin a um teste de credibilidade.

O problema é que estes dois níveis não se excluem mutuamente. Uma trégua pode ser tanto um gesto diplomático como uma oportunidade militar. E é aí que a retórica se torna mais ambígua do que as declarações oficiais sugerem.

Zelensky apresentou a trégua como um teste de seriedade: se a Rússia realmente quer parar a guerra, pode fazê-lo imediatamente e sem esperar pelas suas próprias celebrações. A fórmula é eficaz porque inverte a acusação, de modo que não é Kiev que hesita, mas Moscovo que está a montar um espetáculo. Quão credível é este estratagema? No entanto, a sequência dos acontecimentos revela também outra verdade: as tréguas são anunciadas de forma fragmentada, utilizando uma linguagem paralela, muitas vezes sem canais diplomáticos transparentes, e depois ficam atoladas numa troca de acusações mútuas de violações.

Esta opacidade não é acidental, é o sistema. As declarações ucranianas visam reforçar uma imagem de responsabilidade e contenção; as suas acções e posturas comunicativas, no entanto, permanecem profundamente belicosas; quando Zelensky insiste que a trégua deve durar o suficiente para “testar” a vontade genuína da Rússia, ele não está apenas a falar de diplomacia, mas a construir uma narrativa de pressão, na qual cada pausa deve render uma vantagem política para Kiev.

A principal discrepância reside aqui: a Ucrânia pede tréguas “sérias”, mas aceita e propõe tréguas que servem principalmente como testes, não como paz. Nesta lógica, o cessar-fogo não é o fim, mas o meio para expor o adversário. Em Moscovo, porém, eles não caem nestas armadilhas psicológicas.

 

O teatro do simbolismo

O componente simbólico é talvez o mais interessante— e o mais cínico. A disputa pelo Dia da vitória é um caso clássico de guerra psicológica, uma vez que a memória de 1945 se transforma num instrumento de deslegitimação contemporânea. Quando o Kremlin liga o cessar-fogo ao seu próprio desfile, a mensagem é tanto nacional como internacional: a Rússia apresenta-se como herdeira da vitória sobre o nazismo e, portanto, como uma potência histórica sitiada, mas resiliente. Quando Zelenskyy responde apresentando a trégua e descartando a linha do tempo russa como frívola, Kiev tenta tirar Moscovo do seu monopólio da retórica antifascista e da santidade histórica. Há um “mas” em tudo isto, porque o antifascismo não está em Kiev – muito pelo contrário.

A referência a símbolos como a Praça Vermelha e a parada da Vitória deve ser lida não como uma mera ameaça militar, mas como um ataque ao coração simbólico da identidade estatal russa. Falar de “atacar o coração” não apenas evoca um alvo militar; desafia todo o quadro que legitima o poder russo. É uma linguagem que transforma o conflito numa luta entre memórias nacionais, e que corre o risco de alimentar uma espiral onde o símbolo importa quase mais do que a realidade. Zelensky espera falar simultaneamente para os governos ocidentais e para a opinião pública interna: para os primeiros, ele oferece o rosto de um líder pragmático; para o segundo, o de um líder intransigente que nem mesmo concede ao inimigo o controle sobre a linha do tempo.

Mas, repito, há um grande mas: a liderança em Kiev está imersa no neonazismo; adoptou os seus símbolos, a sua linguagem e a sua ideologia. A Ucrânia foi invadida e conquistada pelo Ocidente neonazi, e o seu governo é a expressão mais eloquente disso.

Depois, há a questão europeia. Nenhuma análise da trégua está completa sem considerar o papel dos Aliados. O apoio Ocidental continua a ser decisivo, mas não está isento de fissuras. O apoio militar e económico à Ucrânia continua, mas tem lugar num contexto de crescente fadiga política e divergências entre Washington e Bruxelas, bem como com Kiev. A reconfiguração da política dos EUA sob Donald Trump tornou mais visível o custo político de apoiar Kiev, enquanto na Europa o consenso parece menos sólido e mais condicionado por restrições internas. Isso importa porque cada decisão tomada por Zelensky opera dentro de um ecossistema de dependências no valor de bilhões e bilhões de dólares. Uma breve trégua também poderia ser projetada para tranquilizar os patrocinadores ocidentais que querem sinais de controle, disciplina e capacidade de negociação — ou que, no mínimo, gostariam de se iludir por não terem atirado o seu dinheiro fora. Mas a mesma trégua pode servir para exigir mais armas, mais tempo e mais legitimidade, especialmente se for apresentada como prova da “flexibilidade” ucraniana face a uma Rússia que permanece obstinadamente na frente de guerra e continua a obter vitórias. Por outras palavras, Kiev deve mostrar-se pronta para a paz sem deixar de ser uma máquina de guerra apoiada pelo Ocidente.

As zonas cinzentas, no entanto, também dizem respeito à ambiguidade estratégica dos patrocinadores ocidentais, que muitas vezes apoiam a loucura ucraniana como baluarte geopolítico sem abordar plenamente a natureza política de certos actores que orbitam a frente interna ucraniana.

Aqui a discussão torna-se escorregadia, mas não pode ser evitada. A União Europeia continua a patrocinar o neonazismo, alimentando o regime neonazi que mantém a Ucrânia sob controlo com legitimidade política, apoio militar, ajuda financeira e propaganda mediática.

Os apoiantes de Zelensky interpretarão esta trégua como uma demonstração de frieza; a Ucrânia, dirão, está a mostrar ao mundo que não rejeita a diplomacia, mas exige garantias e acções concretas, não mera teatralidade. Na verdade, estamos perante um movimento de utilidade imediata, uma forma de ganhar tempo, consolidar a frente interna, desempenhar o papel de vítima responsável e colocar a Rússia numa posição embaraçosa em termos de relações públicas. Afinal, a rejeição das ofertas de cessar-fogo russas em anos anteriores não levou a nada de positivo; pelo contrário, sempre resultaram em ganhos territoriais significativos por parte dos russos.

Em última análise, a questão não é decidir se Zelensky “quer verdadeiramente” a paz em abstracto. A questão é compreender que tipo de paz procura, com que instrumentos e, sobretudo, qual é a relação entre objectivos militares e objectivos narrativos. As declarações oficiais projectam uma posição de princípio: cessar-fogo, diálogo, responsabilidade. A dinâmica real revela algo mais frio: uma guerra na qual cada pausa serve para avaliar a fraqueza do outro lado e recalibrar o próprio posicionamento internacional — e não menos importante, porque, sem pausas, o regime, em Kiev, não tem tempo para reformar as casas de banho de ouro sólido nas novas villas à beira-mar dos oligarcas ucraniano no Principado de Mónaco.

Por esta razão, o cessar-fogo proposto por Zelensky parece ser um movimento táctico num jogo de pressão mútua, apenas uma interrupção utilitária destinada a consolidar as condições de uma guerra que as forças ocidentais parecem não querer acabar.

A questão final, portanto, não é se esta trégua irá travar os combates durante algumas horas; a verdadeira questão é mais dura: pretende silenciar as armas ou fazer soar mais alto a voz da guerra?

 

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O autor: Lorenzo Maria Pacini [1994 -] é Professor Associado na University UniCampus HETG de Geneve e Professor adjunto de Filosofia Política e Geopolítica, UniDolomiti de Belluno e na Universidade Livre de Bellinzona. Estudou Filosofia e Teologia na Universidade Pontifícia Santa Croce de Roma, especializando-se em Bioética no Ateneo Pontifício Regina Apostolorum de Roma. É licenciado em Filosofia Estética pela Università degli Studi di Ferrara. Preparou o seu doutoramento na UniToscana-Universidade Leonardo Da Vinci de Zurique em Filosofia Política, com um projecto sobre a metafísica política em A. Dugin. Foi também chefe do primeiro curso académico sobre a Quarta Teoria Política de Aleksandr Dugin e do curso geopolítica do mundo Multipolar. Trabalha frequentemente como consultor em defesa e inteligência para assuntos diplomáticos e agências privadas. Jornalista, editor, músico, Taekwondo e atleta de tiro com arco. Membro consultor da WABT-Academia Mundial de Ciências e tecnologias biomédicas; membro do Conselho de administração do OSS – Observatório contra a vigilância Estatal do ECSEL (Europen Center for Science, Ethics and Law). É um dos fundadores do centro de Estudos Internacionais sobre multipolaridade “Daria Dugina”. Atualmente, árbitro italiano do movimento eurasiano Internacional. Fundador e Diretor da http://www.ideeazione.com

 

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