Formulação da pergunta e tradução da resposta por Júlio Marques Mota
Depreciação ou dissolução do euro?
6 julho de 2013
Jacques Sapir
Um comentário após o debate sobre o futuro do Euro que tive com Jean-Luc Mélenchon 4 de julho em Arrêt sur Images.
(conclusão)
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Gráfico 2
Tendo em conta a taxa de inflação nos Estados Unidos (e nos outros parceiros comerciais que não da zona euro) a taxa de câmbio real (ou a preços constantes) começa a subir e, em seguida, desce quando a inflação dos países considerados repassa sob a inflação dos seus parceiros. Mas a vantagem da França é evidente em especial face aos países do Sul da Europa, que acumulam os efeitos de uma inflação mais alta do que a inflação no nosso país e na Alemanha. A competitividade-preço desses países agrava-se em grande parte e, logicamente, a sua balança comercial acumula um défice importante, o que os obriga a reagir. Mas, suponhamos que esta reacção não ocorre e olhemos então para o impacto directo no crescimento que resulta desta depreciação do Euro.
Gráfico 3
No que diz respeito os efeitos directos da desvalorização (sem ter em conta os efeitos induzidos sobre os ganhos de receitas fiscais), vemos que ambos os países estão realmente com vantagem, a França e a Grécia. A Alemanha vem logo a seguir, o que é lógico, dada a importância da sua indústria. Na verdade, a Alemanha poderia encontrar nesta depreciação um contrapeso para a depreciação do Iene porque o Japão e a Alemanha são concorrentes directos em muitos mercados. Por outro lado, para os países do “Sul” o balanço da depreciação é muito menos interessante. Se, agora, se incluiu na tabela a necessidade de compensar o desequilíbrio da competitividade que vimos antes que é importante, estes países verão cair ainda mais a sua procura interna e os efeitos desta baixa sobre o seu crescimento, dados os valores muito fortes do multiplicador de despesa pública (estimado em 1,7 para a Espanha e 2,2 para a Itália), anulariam os efeitos positivos da desvalorização do Euro.
Se agora compararmos os efeitos sobre 5 anos resultantes de uma depreciação do Euro com os efeitos de uma dissolução no caso da França, vemos que o resultado (que aqui inclui os efeitos indirectos da taxa de crescimento) é muito menos interessante.
Gráfico 4
No gráfico 4, a hipótese de uma única depreciação do Euro constitui a trajectória de H4. A dissolução ordenada (com desvalorização de 20% para a França, – 25% para Itália, – 30% para a Espanha e 40% para Portugal) caracteriza-se por H1. A trajectória de H2 simula uma divisão da zona euro em duas zonas, uma, com um Euro do Norte (Alemanha, Áustria, Finlândia e Países Baixos) e, a outra, um Euro do Sul (Espanha, Itália, Portugal, França, Bélgica). Esta hipótese também é caracterizada por movimentos de inflação que a tornam muito pouco provável [5]. A trajectória H3 representa o caso de uma dissolução desordenada da zona euro com maiores taxas de desvalorização do que em H1 e uma revalorização muito forte para a Alemanha. A diferença entre a trajectória de H4 e as outras três é significativa.
Em conclusão, a hipótese de uma desvalorização do euro é aceitável para a França e para a Alemanha, mas desastrosa para os países do Sul da Europa. Em alguns aspectos, é ainda pior para estes países que a hipótese de uma cisão do Euro em duas zonas, de que se disse que ela não seria provavelmente tolerável para esses países devido à inflação e aos movimentos das taxas de câmbio reais (e, portanto, da competitividade). É necessário pois que os governantes dos países do Sul da Europa (Espanha, Itália, Portugal) sejam suicidários para apoiar uma tal política, uma vez tomada a decisão de romper com o actual status quo. Se nós consideramos importante o futuro da Europa do Sul (e este é um ponto em que nós estávamos ambos de acordo, eu e Jean-Luc Mélenchon no debate de 4 de julho), a única solução razoável é a de se baterem por uma dissolução completa da zona do Euro.
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[1] Artus P., «Dévaluer en cas de besoin avait beaucoup d’avantages», Flash-Économie, Natixis, n° 365, 26 mai 2012.
[2] Cachia F., “Les effets de l’appréciation de l’Euro sur l’économie française”, in Note de Synthèse de l’INSEE, INSEE, Paris, 20 juin 2008.
[3] Artus P. (red.), «De combien faudrait-il dévaluer les monnaies des pays en difficulté de la zone euro ?», Flash-Économie, Natixis, n° 47, 17 janvier 2012.
[4] Esta emissão pode ser vista em http://www.arretsurimages.net/contenu.php?id=5976
[5] Referimo-nos ao estudo la Fondation Res-Publica a aparecer em julho.
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Ver a parte III, publicada ontem, em:
http://aviagemdosargonautas.net/2013/08/01/saida-do-euro-a-resposta-de-jacques-sapir-iii/



