Selecção, tradução e nota introdutória por Júlio Marques Mota
A Europa tem razão ao duvidar da liderança alemã sobre o Euro – I
Jakob Augstein
A maioria da Europa está cansada da liderança alemã
Pelo texto abaixo é bem claro que até os alemães têm medo que se libertem os fantasmas dos anos 30. Um texto de Março, a seguir ao golpe e ao saque que Berlim desencadeia sobre Chipre e que guardámos para ligar com a série de textos a Europa a caminho dos anos 30 , mas que não fica nada mal ligando-se agora à serie de textos que estamos a publicar sob o tema Morrer dentro, morrer fora do euro, ou qual é a outra saída.
Júlio Marques Mota
A Europa tem razão ao duvidar da liderança alemã sobre o Euro
O drama à volta Chipre mostrou claramente que a crise da zona euro está a transformar-se numa luta sobre a hegemonia alemã na Europa. Aparentemente, aos olhares da opinião pública, Merkel e Schäuble parecem estar a trabalhar para estabilizar a economia. Na realidade, eles estão a acorrentar os outros países com os grilhões da dívida.
Ao longo de toda a crise financeira em Chipre, o poder alemão tem estado bem evidente. Mas a Alemanha está a seguir objectivos errados, mostrando como é incapaz de exercer o seu poder correctamente. Os dirigentes cipriotas mantiveram a ideia de tornar os seus próprios pequenos aforradores os responsáveis pela falência dos grandes bancos..–com a aprovação da Alemanha– para se mostrarem fiéis aos princípios de crime e castigo.
Toda a Europa, de facto, todo o mundo, tomou conhecimento desta realidade. Apesar do seguro sobre os depósitos e das promessas da Chanceler Angela Merkel, ao fim e ao cabo, as pessoas comuns é que têm de suportar os efeitos? O plano foi retirado, e agora o fardo está a cair principalmente sobre os russos ricos. Mas o mal está feito, a confiança foi atingida. Qual é então o verdadeiro valor das palavras da Chanceler? Chipre mostrou mais uma vez que a Europa não pode apoiar-se ou confiar nos alemães.
Felizmente, o grupo Euro tomou agora a posição correcta. Aqueles com depósitos mais pequenos estão seguros, um banco pode ir à falência e outro será reduzido na sua dimensão. Mas o drama da semana passada mostrou bem aimagem que a Europa está a dar de si-mesma: banqueiros irresponsáveis deixam sair o dinheiro dos mais ricos e mais fortes no branqueamento de capitais, e os políticos ajudam ambos os grupos para se salvarem o melhor que podem… — à custa do povo comum, que não tem nem os recursos nem a influência para se colocar ao abrigo das medidas tomadas e ficar em segurança. E tudo isso ocorre sob o domínio alemão.
Isto foi um sinal. A Chanceler desculpa-se a si-mesma e aos alemães por se darem ao luxo de apenas verem o seu próprio umbigo. A memória histórica foi essencialmente reduzida a nada, boa apenas para pouco mais do que tornar confortáveis as noites quando nos embrulhamos em cobertores e vemos as falhas morais retratadas em dramas de TV sobre a segunda guerra mundial como, por exemplo, a mini série alemã recente “Our Mothers, Our Fathers.-Nossas mães, nossos pais.”
Mas isso não significa nada quanto ao presente. Tal como já se verificou duas vezes na nossa história recente, os alemães estão a caminhar cada vez mais e mais fundo para o conflito com os seus vizinhos..–independentemente do custo. É um caminho que poderia facilmente levar a temer a hegemonia política alemã no continente. Com efeito, a ideia de Merkel quanto à integração europeia é simplesmente a de que a Europa deve moldar-se à vontade política da Alemanha.

