EDITORIAL – FASCISMO, NUNCA MAIS!

Imagem2As notícias sobre os novos cortes nas pensões e outras que afirmam que os políticos de carreira não serão atingidos por essas novas medidas de austeridade, seriam alarmantes  se, seguindo uma táctica muito usual, a opinião pública não estivesse devidamente anestesiada pelo aluvião de informações que a comunicação social lhe despeja em cima todos os dias. Há 38 anos, estávamos em pleno «Verão quente», um calor que incendiava paixões, e tínhamos a estulta ilusão de que «fascismo nunca mais».

Era uma fogueira, uma seara em chamas – a cada momento o fogo era alimentado por achas que, de todos os quadrantes, eram lançadas. À esquerda, duas grandes tendências procuravam hegemonizar o «processo revolucionário em curso» – o PCP, preconizando «reformas revolucionárias» e uma esquerda que se autodenominava «revolucionária» e que defendia a Revolução. Por sua vez, dentro destes dois segmentos da esquerda, havia divisões – no PCP, a disciplina interna, escamoteava essas diferenças entre gente mais conservadora, controlada a cem por cento pela hierarquia, e outra que, principalmente nas bases, se unia pontualmente aos «esquerdistas». Mas era na chamada «esquerda revolucionária» que a desunião era mais flagrante.

 Um MES, aparentemente mais sensato e defensor de um Poder Popular que se atingiria sem violência, sob a protecção da esquerda militar; uma UDP que usava como paradigma a revolução albanesa, o que só não fazia rir os militantes udepistas que citavam Enver Hodja com a unção de quem revela em primeira mão as tábuas da lei; um PRP, organizado segundo os moldes pecepistas, mas defendendo uma revolução socialista que se apoiaria em conselhos, em sovietes – Anton Pannekoek, Rosa Luxemburgo, Castoriadis… Nas bases, comissões de trabalhadores e de moradores, principalmente, as teses peerrepistas colhiam aceitação, pelo menos por parte dos militantes do PCP.No  interior do MFA estas divisões da esquerda encontravam eco, ou seja, provocavam divisões – otelistas, apoiantes da fragmentada hoste «revolucionária», gonçalvistas, dominados pela lógica «reformista». Gestos insensatos vinham de ambos os sectores.

A direita, tinha as suas nuances, mas no essencial entendia-se e diga-se que o PS foi neste momento crucial uma força de direita. Quando as eleições de 25 de Abril de 1975 ,  resultaram numa «maioria de esquerda» -116 deputados do PS, 30 do PCP e 5 do MDP, contra 81 do PPD e 16 do CDS, ou seja 151 contra 96, as contas foram mal feitas – o PS (contra a vontade de alguns socialistas) estava ligado ao PPD e ao CDS, à Igreja e à CIA. Os fins do sistema capitalista, uniam mais do que os múltiplos e contraditórios princípios da esquerda.

«Fascismo nunca mais». Com esse nome, provavelmente não.

O sistema oligárquico, classista, brutal – que provoca holocaustos sem usar fornos crematórios, com medidas «de austeridade selectiva», conservando os privilégios a políticos e juízes, matando velhos, por falta de alimentaçãao e de medicação, e lançando famílias na miséria, não usa camisas negras, azuis ou verdes; não faz a saudação romana, nem precisa de sinistras pides ou de gestapos – não precisa de lideres carismáticos que produzam discursos empolados – qualquer atrasado mental, corrupto, iletrado (mas diplomado) serve. As camisas são da Giorgio Armani, da Gucci, da Dolce & Gabanna…Não se chama fascismo, nazismo, nem nacionalismo ou corporativismo – chama-se «democracia representativa».

Fascismo?

Fascismo, nunca mais!

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