EDITORIAL – ACTIVOS TÓXICOS

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A questão dos swaps invadiu o nosso dia a dia. Apanhou de surpresa os mentores dessa fórmula de operação financeira que agora se vêem obrigados a empreender campanhas na comunicação social para tentar convencer os simples cidadãos, que gostam de uma vida pacata e segura, uma zona de conforto bem definida, e de ter como risco máximo o resultado do futebol ao domingo (ou à quarta-feira, conforme), de que os swaps são formas legítimas de arranjar financiamento, etc. A responsabilidade pelos milhões que vão indo sucessivamente ao ar  atribui-se a fulano ou de cicrano, a Passos/Portas/MariaLuísAlbuquerque ou a  Sócrates & sus Muchachos, nunca aos responsáveis do sistema financeiro e bancário. Para tapar o buraco que fica, diz-se que a responsabilidade é de todos e lá vêm mais cortes nos salários, pensões, benefícios sociais, em resumo, a solução do costume.

A Lagoa dos Salgados, baluarte da biodiversidade e da qualidade de vida no Algarve, atractivo de monta para o turismo, sobre a qual aqui em A Viagem dos Argonautas publicámos hoje às 9.30m uma nota informativa, está ameaçada por um projecto turístico megalómano, sobre o qual alguém produziu um EIA – estudo de impacto ambiental altamente contestável e contestado. Parece que o(s) promotor(es) do referido projecto teve(tiveram) em tempos a ver com a SLN/BPN, Sociedade Lusa de Negócios/Banco Português de Negócios. São os do costume.

O funcionamento da sociedade e da economia no dia a dia faz-se através de operações que têm toda a vantagem em serem compreendidas e participadas por todos a quem afectam. Entretanto, volta e meia, o funcionamento é perturbado pela irrupção de manobras como as acima referidas, de alguém que procura utilizar esse funcionamento em proveito próprio, ou de grupos restritos, mesmo indo contra o interesse da grande maioria. O caso torna-se mais grave ainda quando são pessoas com posições privilegiadas, com influência sobre os poderes constituídos. Torna-se crítico quando são os próprios detentores do poder. Produtores de activos tóxicos. Podem ser abstracções financeiras, ou grandes construções em cimento e betão. São tóxicos  porque os seus efeitos vão muito mais além dos que inicialmente anunciados, atingem pessoas que, em princípio, com eles nada tinham a ver, e que terão de suportar os prejuízos resultantes. O trabalho maior dos seus promotores, normalmente, é tentar convencer os outros que também têm de os suportar. Suportar os prejuízos, não os benefícios, se é que os há.

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