(Continuação)
Estamos em Maio de 1384. No Alentejo há levantamentos populares. Têm a ver com as devastações provocadas pelos exércitos castelhanos, mas terão também alguma relação com as revoltas que, sobretudo nas comunidades rurais, vão eclodindo por toda a Europa. Nuno Álvares Pereira sabe que está em luta contra o tempo e que tem de organizar as forças militares para embates decisivos. A Batalha dos Atoleiros foi uma vitória moralizadora, mas Nuno sabe que o que falta fazer é quase tudo. Na sua incessante actividade, entra Castela adentro, em surtidas arriscadas, toma os castelos de Arronches e de Alegrete que estavam contra o Mestre… A armada castelhana dirige-se para Lisboa. Enquanto os castelhanos não chegam, reforçam-se muralhas, armazenam-se víveres. A frota chega a 26 de Maio e o exército chega em 29 e completa o cerco, criando um anel de ferro em torno da cidade. Juan I estabelece o quartel-general em Santos-o-Velho.
Também em Maio, um exército a mando do arcebispo de Santiago de Compostela ameaçou cercar o Porto, Os portuenses anteciparam-se ao assédio e atacaram o inimigo em campo aberto nos arrabaldes da cidade. A frota portuguesa, entrou no Douro e pôs os castelhanos em fuga. O irmão de Leonor Teles, Gonçalo, foi convidado a comandar a armada que, tendo obrigado os castelhanos a retirar, se reorganizava no Porto. D. Gonçalo aceitou e a sua adesão ao partido do Mestre de Avis arrastou outras adesões. Nuno Álvares Pereira, em Évora, recebeu instruções para se dirigir para o Porto com as suas tropas, embarcando-as na frota que ali se organizava – 17 naus e 17 galés que, em 18 de Julho de 1384, entraram no Tejo e atacaram a armada castelhana composta por 61 naus, 16 galés, 1 galeota e algumas carracas. Embora perdendo três naus e sofrendo baixas, os portugueses romperam o cerco, descarregando em Lisboa víveres, soldados e armamento. Mas houve reveses – Em 30 de Julho, por falta de água, Almada rendeu-se aos castelhanos e, já em Agosto, foi desmantelada uma conspiração para se abrirem as portas de Lisboa ao inimigo. Nuno, de novo no Alentejo, conquistou o castelo de Monsaraz. E travou escaramuças com forças inimigas, das quais saiu vitorioso.
Em 27 de Agosto, os navios castelhanos atacaram Lisboa de surpresa, acção articulada com um ataque á porta de Santa Catarina. O Mestre comandou pessoalmente a defesa e os castelhanos debandaram. Mas a situação era difícil, sobretudo pela falta de mantimentos..Quando se estudava a maneira de romper o cerco, o rei de Castela, em 3 de Setembro, decidiu pôr termo ao assédio por duas razões – a determinação dos defensores e um surto de peste que irrompeu entre o exército castelhano e que, agudizando-se, estava a matar duas centenas de homens por dia. Em Lisboa fez-se uma grande procissão em acção de graças pela vitória. Em 10 de Dezembro de 1384, o Mestre de Avis cercou Torres Vedras, fiel a Beatriz. Foi descoberta outra conspiração contra a vida do Mestre. Os conspiradores foram presos uns, fugindo os outros. Militarmente as coisas não corriam mal. Mas a componente política tinha também de ser contemplada.
A frente política
Entre 3 de Março e 6 de Abril de 1385 reúniram-se Cortes em Coimbra.
Dois temas centrais – como fazer face ás despesas de guerra e decidir quem deveria ocupar o trono. As duas correntes principais enfrentaram-se: a do infante D. João de Castro e a do Mestre de Avi. Em evidente minoria estavam os defensores de Juan de Castela ou de Beatriz.
Foi então que se viu que além de um braço militar poderoso, como o era Nuno Álvares Pereira, o Mestre de Avis dispunha deuma voz jurídica de grande saber e poder de argumentação. E, mercê, dessa argumentação, em 6 de Abril as Cortes proclamaram D. João rei de Portugal. E D, João I logo nomeou Nuno Álvares Pereira o cargo de Condestável, comandante supremo do dispositivo militar português. A frota castelhana, no princípio de Abril de 1385 estacionava em frente a Lisboa. D. João I enviou um embaixador a Inglaterra com o duplo objectivo de ser reconhecido como Rei, e de obter ajuda militar. Ao mesmo tempo que envia embaixadores a Roma e às Cortes europeias, faz um périplo pelo País, sendo aclamado nas cidades que visita. Em quase todas, pois em Guimarães e em Braga houve reacções negativas. O alcaide de Guimarães pediu mesmo reforços ao rei de Castela. Guimarães é tomada de assalto pela hoste do Condestável e Braga rende-se ao cabo de um assédio posto pelas tropas fiéis ao novo monarca.
Juan I volta a invadir o País, pondo cerco a Elvas em 1 de Junho de 1385. Outras forças invasoras entram pela Beira, procurando dividir os magros efectivos portugueses. Mas a incurão pela Beira é duramente esmagada em S. Marcos, junto a Trancoso, no embate que ficou conhecido como Batalha de Trancoso. Foi no dia 29 de Maio de 1385. Com Elvas a resistir ao cerco, o rei de Castela retirou Ciudad Rodrigo. Em 8 de Julho de 1385, D. Juan I, invadiu de novo Portugal. Entrou por Almeida, com um numeroso exército e desceu até Leiria por Trancoso, Celorico da Beira, Coimbra, Soure… A esquadra castelhana barrava a saída de barcos pela foz do Tejo. A 10 de Julho D. João I sai de Alenquer e dirige-se para Abrantes, onde chega a cerca de 15 de Julho. O Condestável e os seus homens chegam no dia 3 de Agosto a Abrantes. E é aís que, em 6 de Agosto, se reúniu-se o Conselho de Guerra, com a presença do Rei e do Condestável. Duas propostas são colocadas – dar batalha ao inimigo, ou enveredar pela guerrilha, considerando a desproporção entre os dois exércitos. D. João I defende o desgaste pela guerrilha e propõe uma incursão punitiva em Castela, obrigando as tropas castelhanas a regressar ao seu território. Nuno Álvares Pereira opõe-se com toda a convicção a esta hipótese e defende a solução mais radical – dar batalha ao rei de Castela. Na sua opinião é a única forma de salvar Lisboa e, argumenta que, se LIsboa cair, todo o reino se perderá. Sem se chegar a acordo, D. Nuno parte no dia seguinte sozinho com a sua reduzida hoste para Tomar. D. João I, após meditar, muda de opinião, e vai juntar-se com o seu exército a Nuno Álvares Pereira em Tomar, em 8 de Agosto. Entre 10 e 13 de Agosto, o Condestável expede estafetas que procedem ao reconhecimento do exército castelhano. No dia 13 de Agosto, Nuno Álvares Pereira, vai com um grupo de cavaleiros às imediações de Leiria, onde estaciona o inimigo. E escolhe o terreno onde, no dia seguinte, 14 de Agosto, se irá travar a batalha decisiva.
(Continua)
