A Batalha de Aljubarrota, momento da História para o qual convergem estes pequenos textos que têm aqui a sua conclusão, foi e continua a ser desvalorizada no Estado espanhol, por razões óbvias. Mas não o devia ser entre nós.
Numa encruzilhada da História, hoje relativamente fácil de interpretar, mas confusa para quem a vivia, essa bataaaalha permitiu que a independência de dois séculos se mantivesse. E quando, dois séculos depois, a independência se perdeu, Aljubarrota foi uma âncora da memória que permitiu conservar a identidade nacional durante os sessenta anos de ocupação estrangeira e serviu de exemplo, dando forças para reafirmar a independência e a defender numa prolongada guerra.
Não se deve a um mero acaso o facto de Portugal ser hoje a única nação peninsular que escapa à hegemonia castelhana. Não somos melhores, não somos piores – somos diferentes de bascos, catalães ou galegos. E tivemos razão em não querer aceitar o domínio de Madrid. Nas três nasções subjugadas, os movimentos em prol da libertação, constituem a prova da razão que tínhamos Para além de todos os problemas que enfrentamos (e não são poucos), haveria o da submissão aos ditames de Madrid,
A grande vitória de Aljubarrota foi a de ter aberto a Portugal as portas do futuro. Foi essa vitória que permitiu a consolidação do idioma, a criação de um corpus literário, os Descobrimentos e todas consequências que tiveram no desenvolvimento científico de Portugal e da Europa.
Os aspectos militares, tão bem estudados pela equipa especializada da Fundação Batalha de Aljubarrota, coordenada pelo Professor Mário Jorge Barroca, de que ontem publicámos excertos, tiveram repercussões na arte da guerra da época. No 1º volume da “Nova História Militar de Portugal”, dirigida por Manuel Themudo Barata e por Nuno Severiano Teixeira, com coordenação de José Mattoso (Círculo de Leitores, Lisboa, 2003), existe uma informação pormenorizada sobre as tácticas inovadoras e o armamento utilizados em Aljubarrota. Para quem pretenda inteirar-se com rigor sobre o que aconteceu, recomendo, além dos dois trabalhos já referidos, alguns dos capítulos do 3º volume da História de Portugal editada em 1983 por Publicações Alfa, capítulos da autoria de José Mattoso e de Armando de Castro e que permitem uma compreensão mais abrangente do período hisórico em causa, sobretudo nas vertentes sociais e económicas. António Borges Coelho tem diversós trabalhos de consulta indispensável. A “Crónica de D. João I”, do grande Fernão Lopes, não sendo isenta nem objectiva, fornece-nos uma visão mais próxima no tempo.
A Castela terá sido fatal a arrogãncia, o sentimento de superioridade que levou Juan I e o seu estado-maior a desprezar regras básicas de segurança. Já ouvi a versão de que muita da peonagem portuguesa foi recrutada por Nuno Álvares Pereira nas prisões – criminosos a quem foi prometida a liberdade se combatessem bem. Diz-se que sempre que um cavaleiro castelhano caía da montada, com a pesada armadura a imnpedir-lhe que se erguesse, logo era rodeado por facínoras que lhe erguiam a viseira e lhe cortavam as carótidas. E concluía o tal amigo espanhol que isto ia contra todas aas regras da cavalaria, regras que ainda vigoravam. Um amigo português, como eu, envolvido na discussão, perguntou então se os trons, disparando pelouros de pedra com cerca de 20 quilos, respeitavam as regras da cavalaria.
Aljubarrota demonstrou aos portugueses e à Europa em geral que os castelhanos podiam ser vencidos. Coisa que em Castela se sentiu – durante mais de dois anos, até ao Natal de 1387, o luto foi bem carregado. Foi uma encruzilhada em que, hesitantes entre aceitar a submissão ou lutar, se optou pelo caminho mais difícil, Uma lição útil para a encruzilhada em que mais de seis séculos depois nos encontramos.