POESIA AO AMANHECER – 266 – por Manuel Simões

poesiaamanhecer

JOSÉ CARLOS GONZÁLEZ

( 1937 – 2000 )

CANTATA DO ENTARDECER

Todos os barcos baixaram as velas à vista do porto

o sol é uma doença que cresce onde as minhas palavras

são nocturnos profundos cristais

tudo é como um longínquo canto

um regresso de espuma e destroços

um lamento de âncoras quebradas

aqui neste meu reino de sonhar

a face oculta das coisas que nos faltam

eis as festas infelizes dos que tanto amaram

o vinho quebrou as taças as lágrimas vão cair

destino de uma torre perto de mais do azul

salto súbito das panteras

arquitectura dos dias desconhecidos

levai todas as rosas deixai de cantar

cortai de esquecimento a vossa mão direita

é preciso perdoar a um imperfeito corpo

a perfeição de saber que se destrói.

(de “Ísis ou o cérebro da noite”)

Co-fundador de “Folhas de Poesia”. A sua poética, marcada pelo Surrealismo, aparece em várias antologias, designadamente em “O Inverno na Poesia Portuguesa” (1979) e “Cem Sonetos Portugueses” (2002). Da sua extensa obra poética salientam-se: “Poemas da Noite Nova” (1957), “Naufrágio” (1960), “Ísis ou o cérebro da noite” (1961), “Viagem Contra o Silêncio” (1977), “As Margens Mínimas, a Vida” (1985), “Odelejias” (1997), “Fontefria” (1999).

Leave a Reply