Todos os barcos baixaram as velas à vista do porto
o sol é uma doença que cresce onde as minhas palavras
são nocturnos profundos cristais
tudo é como um longínquo canto
um regresso de espuma e destroços
um lamento de âncoras quebradas
aqui neste meu reino de sonhar
a face oculta das coisas que nos faltam
eis as festas infelizes dos que tanto amaram
o vinho quebrou as taças as lágrimas vão cair
destino de uma torre perto de mais do azul
salto súbito das panteras
arquitectura dos dias desconhecidos
levai todas as rosas deixai de cantar
cortai de esquecimento a vossa mão direita
é preciso perdoar a um imperfeito corpo
a perfeição de saber que se destrói.
(de “Ísis ou o cérebro da noite”)
Co-fundador de “Folhas de Poesia”. A sua poética, marcada pelo Surrealismo, aparece em várias antologias, designadamente em “O Inverno na Poesia Portuguesa” (1979) e “Cem Sonetos Portugueses” (2002). Da sua extensa obra poética salientam-se: “Poemas da Noite Nova” (1957), “Naufrágio” (1960), “Ísis ou o cérebro da noite” (1961), “Viagem Contra o Silêncio” (1977), “As Margens Mínimas, a Vida” (1985), “Odelejias” (1997), “Fontefria” (1999).