A “NOVA ECONOMIA” É UMA ECONOMIA SEM NOVOS EMPREGOS. Por PAUL CRAIG ROBERTS.

Selecção e tradução por Júlio Marques Mota

 Paul Craig Roberts

Nota de A Viagem dos Argonautas: Este texto desassombrado de Paul Craig Roberts merece bem uma referência especial. O desmascarar de uma das artimanhas mais enganosas da propaganda dos governos, que é a manipulação de estatísticas, é uma prioridade nestes tempos em que os povos têm sido espoliados sob o pretexto de uma crise pré-fabricada, e em que veladamente se pretende acabar (há quem fale abertamente numa suspensão) com a democracia e os direitos individuais, sob a capa do equilíbrio orçamental, tudo para cobrir os desvarios do sistema bancário e defender os privilégios de minorias.

Parte I

Uma das minhas colunas  com mais êxito era  sobre como escapar à existência tipo Matrix  em que os americanos vivem hoje.  Este é um  mundo de desinformação e de informação errada  em que  os factos são uma ficção e em que as teorias abstractas são substituídas pela  realidade empírica.

As estatísticas oficiais  publicadas pelo governo são uma ilusão. O governo faz com que desapareçam a inflação e o desemprego através da forma   como define  inflação e desemprego, e faz com que  a economia apareça a  crescer dada a forma como define o produto interno bruto. A base das definições   determina o resultado estatístico publicado.

Por exemplo, no  seu relatório sobre as revisões oficiais do PIB, publicado  a 31 de Julho, John Williams (shadowstats.com) escreve que “as teorias académicas, muitas vezes com fortes preconceitos políticos, têm sido utilizadas para alterar o modelo do determinação  do PIB ao longo dos anos, resultando em “Pollyanna Creep”, onde as alterações feitas fazem com que a  série invariavelmente tenha   o efeito de aumentar o crescimento económico de curto prazo.  Por  outras palavras, as alterações  do quadro das definições  produzem crescimento económico mesmo que a economia não tenha produzido crescimento  económico.

A inflação é feita  desaparecer   através da substituição de itens com preços mais elevados por itens com preços mais baixos e definindo subidas de preços como sendo melhorias de qualidade. Assim, os preços mais elevados não contam para o cálculo da taxa de inflação.

O desemprego desaparece pela utilização do estratagema de definir os  trabalhadores que,  por não encontrarem trabalho, os considerados como desencorajados, que desistem de o procurar , como sendo então  pessoas que não  fazem parte da  força de trabalho. Eles simplesmente desaparecem  das fileiras dos desempregados. Isso faz-me lembrar o cobertor mágico do Punjab, dos antigos  desenhos animados , “Little Orphan Annie”. Punjab  dispõe e resolve os  problemas das  pessoas, cobrindo-os com este seu cobertor, ou talvez,  fosse um tapete, e fá-los assim desaparecer .

Apesar do absurdo dos dados fornecidos pelo governo, Wall Street aguarda com ansiedade cada nova  divulgação  para decidir se os mercados devem subir ou descer ou permanecer na  mesma. Por outras palavras, os próprios mercados financeiros comportam-se como quem acredita nestes  dados. Em suma, o capitalismo vive sem norte, sem  rumo. Não tem indicadores  fiáveis. Tudo está preparado para  apoiar a ideia tipo  Matrix que mantém a população num estado de estupidez, fora da realidade.

Certamente que o número de empregos na folha de pagamento mensal  é mal interpretado e tem uma influência não justificada. Se a economia está em baixa, um número de novos postos de trabalho significativamente maior do que cerca de 130.000, que são  os necessários para acompanhar o crescimento populacional,  é visto como um sinal de recuperação. Mas o número é de tal forma distorcido, como explica John Williams, pela variação e ajustamentos sazonais muito instáveis e um crescimento mensal médio de 52.000 empregos “desde o  nascimento até à morte”,  que ninguém realmente sabe de  que número se deve estar a falar. Só um estatístico como John Williams, muito familiarizado com os tratamentos de dados feitos pelo governo, pode conferir  sentido às estatísticas oficiais.

Eu uso  uma abordagem mais simples. Olho para onde se diz que estão  os postos de trabalho, os empregos criados. No século 21, os postos de trabalho criados pela “maior economia do mundo” têm sido na produção de bens e serviços  não-comercializáveis internacionalmente​​, em  postos de trabalho nos serviço domésticos,  pagos ao nível do Terceiro Mundo. A indústria transformadora e os postos de trabalho  na produção de serviços profissionais  negociáveis internacionalmente, tais como os na engenharia de software, foram deslocalizados para  zonas  offshore de baixas  remunerações, ou seja, para locais de baixos salários. As economias em custos em trabalho  têm enriquecido os executivos de  Wall Street e os  accionistas.

Chamei a atenção para este ponto todos os meses, durante muitos anos, sem qualquer efeito sobre os economistas, políticos, gestores dos mercados monetários ou financeiros, pois todos eles continuam a viver no seu mundo de crenças, de faz-de-conta, um mundo de fantasia.

Aqui estamos nós, uma vez mais,  a denunciar esta realidade.  Dos relatados 161.000 postos de trabalho adicionais alcançados no mês de  Julho, 157.000 ou seja, 97,5 por cento, foram na produção de bens e serviços não transaccionáveis internacionalmente , ou seja na produção de bens e serviços destinados ao consumo interno. Um posto de trabalho nos serviços  não transaccionáveis é um emprego  que produz serviços que não podem ser exportados, tais como empregados de mesa, empregados de bar,  enfermeiros dos hospitais, empregados dos balcões a retalho, e empregados da grande distribuição por grosso. Assim, não importa o quão grande possa ser o número, não consegue reduzir o enorme défice  comercial dos EUA. A maioria desses empregos são empregos a tempo parcial sem direito a cuidados de saúde  ou a pensões  de reforma . As pessoas nestes empregos tendem a viver nas condições mínimas. Estes trabalhos não produzem suficiente rendimento para dinamizar uma economia assente no consumo.

Desses 157.000 novos empregos registados, 63.000 ou 40 por cento são considerados como sendo no comércio, transporte e serviços. Desses 63.000empregos, 60.500 deles ou 96 por cento estão no comércio por grosso ou a retalho.

Antes de analisarmos  a próxima categoria, perguntemos a nós próprios  se acreditamos que numa  economia que não tem tido nenhuma retoma, na qual  não há mais empregos em fábricas novas ou na  construção, em que a taxa de  participação da mão-de-obra  está a decrescer,  em que os parques de estacionamento dos centros comerciais  estão longe de ser cheios e em que  as lojas têm uma perspectiva de baixa de  vendas, se vai contratar assim  tantas pessoas em Julho?

As actividades financeiras  são responsáveis por 15.000 dos novos empregos registados . O Federal Reserve foi  responsável  por 80 por cento destes empregos e o resto foram novos cobradores de impostos .

Nos  serviços profissionais e empresariais foram contabilizados 36.000 destes  novos postos de trabalho. Cerca de metade desses empregos são em serviços de ajuda temporária e serviços de guarda de  edifícios e residências.

Os cuidados de saúde e de assistência social foram responsável por 8.300  novos empregos, dos quais os serviços ambulatórios de saúde representam  80 por cento.

Os empregados de bar e  de restauração  contribuíram com 38.400 postos de trabalho. Já falámos antes anteriormente sobre a anomalia de uma população sem perspectivas de um bom emprego ou de aumento de rendimento que lhe permita sair e  comer e beber fora com um pouco  mais de frequência, de tal modo que os empregos de restauração e de bares  constituam mensalmente  uma percentagem significativa dos novos empregados.

(continua)

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