POESIA AO AMANHECER – 270 – por Manuel Simões

poesiaamanhecer

ANTÓNIO BARAHONA DA FONSECA

( 1939 )

POEMA

Esta aurora boreal surrealista

os teus olhos irremediavelmente mortos

este longo cigarro de insónias

copos a saltar de boca em boca

este fruto verde a penetrar-me o fígado

o cérebro carbonizado e os dentes

a madrugada de costas escurecida

e o pequeno antílope exausto

este jardim de postes telegráficos

prostitutas amantes fuzilados

este edifício com tigres às janelas

e o orifício sexual do maço de cigarros

este aconteimento-assassino da fome perpétua

a foice suspensa por milagre

este horizonte de moscas ferozes

a cercar silêncios egípcios

são as noites o espaço que me deste

o instrumento difícil dos gritos

(de “Antologia da Poesia Portuguesa. 1940-1977”)

Poeta conotado com o Surrealismo. Participou em “Visopoemas”, exposição colectiva experimental (1965). Obra poética: “Insónias e Estátuas” (1961), “Poemas e Pedras” (1962), “Capelas Imperfeitas” (1965), “Impressões Digitais” (1968), “Guia de Casados” (1971), “O Progresso de Jesus” (1977).

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