Janeiro de 1953. Com o Alexandre O’Neill entro no CAFÉ CHIADO. A primeira sala parece um aquário. Esparramado numa cadeira de verga ali está o António Maria Lisboa, poeta surrealista. Tu, O’Neill levantas a mão, acenas. Talvez um último adeus porque o Lisboa, tuberculoso, está por ali à espera da morte, coitado… Viro a página:
– Ouve lá, ó Alexandre: sei das tuas brigas com a malta da escrita automática e quero saber o que pensas fazer.
Encolhes os ombros, segues em frente.
A segunda sala é imensa e sombria. No lado direito pratica-se uma Orgia Romana, painel a ocupar quase toda a parede. Por baixo daquela pintura lambidinha meia dúzia de tipossentados a uma mesa. Entre eles dois Mários surrealistas, o Cesariny e o Leiria. Deste último também sou grande amigo. Finges que não os vês e eles fingem que não te conhecem. Não me aguento:
– Ó Alexandre, tão amigos que vocês eram e coisas tão giras que fizeram juntos. Bem me lembro das colagens da Ampola Miraculosa…
Paras, seguras-me o braço, perguntas:
– Sabes que fui eu o primeiro a ler e a comprar a História do Surrealismo do Maurice Nadeau? Que fui eu quem desafiou o António Pedro, o Mário Cesariny, o Mário Henrique Leiria, o Vespeira e o José Augusto-França a fazermos aqui uma coisa equivalente para sacudir a pasmaceira lusitana? Assim nasceu o Movimento Surrealista de Lisboa, em 1948. Sabias?
– Sei, sei… É por isso que não entendo a vossa briga. Porquê, mas porquê?
– Porque alguns daqueles gajos quiseram transformar o Movimento numa catequese. A poesia tem que ser verdade espontânea, nem ela nem eu suportamos a catequese.