As palavras
A nossa sociedade sofre de juvenismo. Como a mudança é o seu princípio de funcionamento, não para melhorar, o que seria positivo, mas para nos incitar a pôr no lixo, os nossos pais, avós e amigos mais velhos constituem a metáfora do seu oposto, pois trazem em si valores, saberes, memórias, experiências de outras épocas – e portanto ultrapassaram as datas de validade. Lembremos que para as empresas, nesta lógica do esgotar e deitar fora, a velhice começa antes dos quarenta anos… A sociedade trata de igual modo objetos, animais, homens e, se este procedimento em relação aos primeiros é nocivo, quando se aplica aos outros atinge uma dimensão monstruosa, apenas disfarçada pelo politicamente correto: um verniz sintético.
Envelhecer é um declinar que – nos países desenvolvidos de que fazemos parte – dura quatro, cinco décadas e, para a maioria das pessoas, só nos últimos meses – ou nos últimos anos – representa uma diminuição grave das capacidades, por conseguinte nada justifica que a velhice se tenha tornado algo que não se pensa e não se mostra: pavoroso para uns, vergonhoso para os outros.
Na publicidade só aparecem jovens ou então trata-se de lares, surdez ou impotência sexual, isto é, nada que corresponda às realidades positivas dos mais velhos. Ora a infância, a adolescência, por exemplo, também têm acnes, terrores, anorexias, incertezas e dependências, para não falar de toxicodependências, não é?
No cinema encontramos raramente heróis que ultrapassam os sessenta anos, como se nestas idades não houvesse rebeldias, peripécias, curiosidades, como se nada ocorresse ou apenas dor e repetição, como se, ainda vivos, eles fossem mortos.
Quando nos interessamos por eles logo surge esta dificuldade: como os nomear? “Velhos” tem conotação pejorativa. “Terceira idade” é uma locução com diversas variantes, a “idade maior”, a “idade avançada”, a “idade madura” (que sugere aliás a existência de uma “idade podre”); um vocabulário politicamente correto para mascarar a realidade. Carlos Loures, com quem debati a terminologia, rejeita todos os eufemismos e prefere dizer “os velhos” – para ele a carga depreciativa só existe para quem lá a põe. Acho que tem razão, não sou todavia capaz de o imitar e, como os “anciãos” jazem nos romances de Camilo Castelo Branco, prefiro falar de “idosos”. Esta discordância terminológica é significativa pois, se Carlos Loures emprega a palavra “velhos” e eu não, é por a sociedade lhes lançar um olhar desvalorizador, ao qual reagimos nas estratégias verbais, dizendo a mesma coisa com palavras diferentes. Esta tendência é reforçada pelo medo que os nossos contemporâneos têm da morte; como se a Morte não nos acompanhasse desde o nascimento. O melhor que nos pode suceder não é sermos um dia velhos? (Ah, escrevi “velhos”…)
