JOÃO CAMILO
( 1943 )
O PESO DAS HORAS
E nunca mais tocarei com as mãos
nas palavras. Passou o tempo
da inocência, as folhas dos plátanos
no chão de Cours Mirabeau
deixam-me melancólico e pensativo.
Sorrisos nos dentes jovens das raparigas,
a curva quente das pernas entrevistas
pela abertura da saia, o segredo
discreto de uma orelha que o cabelo
a esvoaçar ao vento do outono
mal esconde. De tudo isso
é como se me tivesse afastado
de vez. Vivo ainda, mas perdi o desejo
de tocar com as mãos nas palavras
com que tantas vezes tentei falar
do indizível, do que nunca se atinge e
permanecerá imviolável. Os mistérios
do tempo que passa por nós escondem-se
nasimplicidade com que acreditamos descobrir
o sentido íntimo das coisas, o peso das horas.
E é só anos mais tarde, diante
de uma coca-cola a que misturámos
dois ddos de whisky que nos damos conta
da ilusão com que vijámos de comboio pelos dias
destinados a um futuro que não chegará nunca.
(de “A Mala dos Marx Brothers”)

