POESIA AO AMANHECER – 275– por Manuel Simões

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JOÃO CAMILO

( 1943 )

O PESO DAS HORAS

E nunca mais tocarei com as mãos

nas palavras. Passou o tempo

da inocência, as folhas dos plátanos

no chão de Cours Mirabeau

deixam-me melancólico e pensativo.

Sorrisos nos dentes jovens das raparigas,

a curva quente das pernas entrevistas

pela abertura da saia, o segredo

discreto de uma orelha que o cabelo

a esvoaçar ao vento do outono

mal esconde. De tudo isso

é como se me tivesse afastado

de vez. Vivo ainda, mas perdi o desejo

de tocar com as mãos nas palavras

com que tantas vezes tentei falar

do indizível, do que nunca se atinge e

permanecerá imviolável. Os mistérios

do tempo que passa por nós escondem-se

nasimplicidade com que acreditamos descobrir

o sentido íntimo das coisas, o peso das horas.

E é só anos mais tarde, diante

de uma coca-cola a que misturámos

dois ddos de whisky que nos damos conta

da ilusão com que vijámos de comboio pelos dias

destinados a um futuro que não chegará nunca.

(de “A Mala dos Marx Brothers”)

Poeta e ensaísta. Viveu longamente em França e actualmente vive nos E.U.A. Obra poética: “Os Filmes Coloridos” (1978), “O T de Tu” (1981), “Na pista, entre as linhas” (1983), “Para a Desconhecida” (1983), “A Mala dos Marx Brothers” (1988).

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