POESIA AO AMANHECER – 276 – por Manuel Simões

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JOAQUIM MANUEL MAGALHÃES

( 1945 )

A CAL E CANTO (fragmento)

Baila palhaça de cabra,

incha má noite sem espera,

estrela de cem pontas desenlaça-te.

Tanto o ganhador como o vencido

não passam de granizo

a que se segue um sol.

(…)

Uma vez mais aqui estou entregue

ao cego, ao vago, à récua dos vocábulos.

Não vou vergar-me a este peso que nada consegue

mas eu procuro. Se a noite acorrentasse

a um muro a minha cabeça, desse partida

a todo o meu escuro no seu negrume,

num rebentamento me cortasse a pouca vida

de repente como se espalha o estrume,

ah palhaça de cabra,

eu seria um feliz vasilhame de tara perdida.

(de “Alta Noite em Alta Fraga”)

Ensaísta, crítico de poesia e poeta. Da sua obra poética mencionam-se: “Consequência do Lugar” (1974), “Vestígios” (1977), “Ave de Partida” (1981), “Segredos, Sebes, Aluviões” (1981), “Alguns Livros Reunidos” (1987), “A Poeira Levada pelo Vento” (1993”, “Alta Noite em Alta Fraga” (2001).

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