POESIA AO AMANHECER – 277 – por Manuel Simões

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DIOGO ALCOFORADO

              ( 1937 )

“OS QUE CHORAM CELEBRAM A PASSAGEM”

Os que choram celebram a passagem

das últimas imagens sobre si:

a dissolução da forma – a ní-

tida morte, a íntima viagem.

Os que choram vêem: estabelecem

riscos, fugas; e, vivos, desconcertam

a presença de quantos, se apertam

os seus membros, do tempo se esquecem.

Os que choram, sofrem; e pelo frio

de cada tarde, ou noite, avançam.

E livres, e despertos, anunciam

a inútil chegada do estio.

Os que choram, agora, já não dançam:

habitam o espaço que temiam.

(de “Pobres”)

Incluído em “Antologia da Poesia Portuguesa Contemporânea” (1999) e em “O Poeta e a Cidade – Antologia de Poesia Moderna sobre o Porto” (2001). Obra poética: “Sonetos elos” (1976), “Exercícios Circulares” (1982), “Do mar ao pé” (1991), “Alguns Pequenos Exercícios” (1997), “Espinho Quase Sempre” (2004), “Pobres” (2005), “Uma Lavoura de Luz Interior” (2005).

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